O eleitor brasileiro está muito descrente da classe política e tem razões de sobra para isso. Não por acaso, muita gente não tem feito questão de votar. Em 2014, foram 4% de votos em branco, 6% de nulos e 19% de abstenções. No segundo turno, o volume de votos válidos é ainda menor. Há até correntes circulando pela internet, pregando que não se vote em ninguém, para que a maioria dos votos fossem nulos, como forma de forçar o surgimento de outros candidatos. Balela: mesmo que eleições viessem a ser anuladas se o número de votos válidos fosse inferior à metade do total, nada impediria que os mesmos postulantes concorressem novamente.
Não podendo escrever um palavrão ou nomes de animais, como acontecia nos tempos da cédula de papel, e sentindo-se impossibilitado de provocar uma reviravolta no sistema político, o eleitor sai pela tangente: escolhe alguém para ser depositário do seu desabafo. Na década de 1990, fez Enéas Carneiro, com seu jeito caricato, ser campeão de votação para a Câmara dos Deputados. Em 2010, foi a vez do humorista Tiririca (PR) obter mais 1,3 milhão de votos. Em 2014, Celso Russomano (PRB), que se notabilizou em programas de TV mostrando casos de desrespeito ao consumidor,ww atingiu nada menos de 1,5 milhão de votos, deixando Tiririca em segundo lugar, com pouco mais de um milhão. A consequência desse comportamento é que, como a eleição para deputados é proporcional, os partidos desses parlamentares acabam elegendo candidatos com pouquíssimos votos. Indiretamente, o eleitor vota em um e elege outro.

Eleições 2016 em Guarulhos:

Aproximam-se as eleições municipais e o quadro tende a se repetir, pois, mesmo havendo muitas opções, tanto para o Executivo quanto para o Legislativo, o descontentamento dos eleitores pode promover uma avalanche de abstenções e votos brancos e nulos.
Em São Paulo, as pesquisas apontam Celso Russomano como franco favorito à Prefeitura. O atual prefeito, Fernando Haddad (PT), tem tido índices de aprovação cada vez mais baixos. O PSDB ainda não apresentou um nome com boa viabilidade. O PMDB oscila entre lançar a ex-prefeita e senadora Marta Suplicy ou o secretário municipal de Educação, Gabriel Chalita, como vice de Haddad. O apresentador de TV José Luiz Datena poderia se constituir na novidade da eleição paulistana, mas anunciou sua desistência de concorrer pelo PP, alegando que o partido está sendo acusado de ter desviado mais de R$ 300 milhões da Petrobras. O deputado e ex-prefeito Paulo Maluf pode pretender candidatar-se, mas a direção do PP anuncia que não participará da disputa pela prefeitura.
Em Guarulhos, o PT, que está completando 16 anos no poder, tem três pré-candidatos: o deputado estadual Alencar Santana, o secretário municipal de Educação, Moacir de Souza e, correndo por fora, o ex-prefeito Elói Pietá, que só cogita concorrer se for nome de consenso. Com o desgaste do partido em nível nacional e também na esfera municipal, onde a segunda gestão de Sebastião Almeida sofre forte rejeição popular, Pietá pode ser a tábua de salvação do PT. Alencar nada perde sendo candidato, mas Moacir, sim. O secretário pode aceitar ser vice de Elói ou buscar mais um mandato de vereador; o grupo de Almeida/Alencar indicaria o vice nessa hipótese.


Na oposição, a maior probabilidade no arquirrival PSDB é que o empresário Carlos Roberto seja mais uma vez o candidato, com a diferença de que agora estaria com o potencial financeiro abalado, não tendo como repetir as caras campanhas anteriores. Bem ao contrário, no DEM, surge o deputado federal Eli Corrêa Filho, casado com Francislene Assis de Almeida, de família detentora de imensa fortuna; ele já estaria costurando alianças com diversos partidos. O ex-deputado federal Fausto Miguel Martello deve ser candidato pelo PSD, como candidato de oposição ao PT, mesmo tendo o presidente nacional do partido, Gilberto Kassab, como ministro do governo Dilma, e o vereador Eduardo Soltur como secretário de Serviços Públicos da gestão Almeida.
O ex-vereador e secretário de Esportes, Wagner Freitas, saiu do PP e filiou-se ao PTB para ser novamente candidato a prefeito. Fazendo parte do governo, terá dificuldade para fazer discurso de oposição.

O vereador Guti (ex-PV) filiou-se ao PSB para ter garantida a legenda para disputar a Prefeitura. Tem a seu favor ter-se notabilizado como oposição ao PT local e contar com o apoio do vice-governador de São Paulo, Márcio França. Muitos eleitores apontam como desvantagem ser muito jovem para o cargo.
Escudado na parceria com Celso Russomano e na boa votação obtida em 2014, o deputado estadual Jorge Wilson (PRB) apresenta-se como pré-candidato a prefeito. Nada tem a perder sendo candidato. O mesmo acontece com o também deputado estadual Gileno, que deve disputar o Bom Clima pelo PSL.
De outros partidos, devem surgir candidatos à Prefeitura. A Rede, de Marina Silva, provavelmente lance o advogado Alexandre Zeitune. O PDT tem o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, José Pereira dos Santos, como pré-candidato a prefeito. Mas, o partido cogita condicionar o apoio de seus vereadores, Prof. Jesus e Heleno Metalúrgico, a Eli Corrêa Filho, à obtenção da vaga de vice, que seria ocupada por Pereira. Há setores da política local insistindo para que Eli tenha como vice o vereador Eduardo Barreto (PCdoB); é mais provável, entretanto, que ele busque uma reeleição tranquila para a Câmara Municipal.

CORREÇÃO: ESQUECI DO JOVINO!
Esta matéria sobre as eleições deste ano em Guarulhos, foi publicada na edição de janeiro da RG – Revista Guarulhos. São tantos nomes e partidos, que acabei me esquecendo de mencionar o ex-prefeito Jovino Cândido, que deve concorrer pelo PV.

“Viúvas” reclamam
Não tardaram a surgir comentários no Facebook, queixando-se da omissão. Essas “viúvas”, que só tiveram algum brilho durante a gestão de Jovino, ficarão ainda mais iradas com minha justificativa. Mas, é a verdade: ele tem sido tão inexpressivo, que realmente não me lembrei de que ele existia. Na eleição de 2012, Cândido ficou em quarto lugar, com 31.273 votos. Em 2014, seus votos para deputado federal não foram computados, por pendências com a Justiça Eleitoral.