Por Valdir Carleto e Jônatas Ferreira
Fotos: Marcelo Santos

Almeida avalia gestão como positiva

Próximo ao término de seu mandato, o prefeito Sebastião Almeida (PT), que se prepara para entregar o bastão ao sucessor, Guti (PSB), falou à RG, para fazer uma avaliação de seu governo.

Quais os três principais feitos de seu mandato, em sua opinião?

O plano de mobilidade urbana que aprovamos foi um grande avanço: a execução de corredores de ônibus é de suma importância; alguns prontos, mas todo o plano diretor de transportes elaborado, a construção dos terminais, do trevo de Bonsucesso, a implantação do bilhete-único e 100% da frota de coletivos acessível. Outra marca importante foram os CEU’s. Não consegui executar os vinte que eu gostaria de fazer, mas vamos chegar ao final do governo com 11 entregues, mais quatro em construção e com as outras áreas para serem construídos os próximos já definitivamente desapropriadas. Isso representa uma revolução: proporcionar à criança e ao jovem da periferia estudar, ter lazer e, pela primeira vez, utilizar uma piscina pública. Só de ver, por exemplo, o Jardim Presidente Dutra, com índices menores de mortes de jovens, já valeu a pena. Outra conquista do meu governo é sem dúvida a da habitação. Acho que foi o maior programa habitacional que esta cidade já teve. São cerca de 30 mil moradias que Guarulhos recebeu por meio do programa federal Minha Casa, Minha Vida. E estou deixando mais de 3 mil em construção para o próximo prefeito entregar. São 11 mil apartamentos para famílias de baixa renda, que se livraram do aluguel. Isso além de outras coisas que fizemos nessa área. Há muitos anos, famílias moravam na Hatsuta em condições desumanas e, agora, moram dignamente em apartamentos de 2 quartos, sala e cozinha no Lavras. E a criança que brincava no esgoto a céu aberto agora tem um playground ou uma quadra para jogar bola, dentro do conjunto habitacional; a solução para o problema fundiário do Anita Garibaldi, 10 mil pessoas que seriam despejadas: fizemos todo processo de negociação, que foi homologado pelo juiz e as famílias poderão assinar os contratos. Essas são ações de governo que mudam para sempre a vida das pessoas. Estou muito feliz com isso. E sem contar as Estações de Tratamento de Esgoto. Agora Guarulhos já tem três, que ainda não estão em efetivo funcionamento, pois falta a colocação de coletores-troncos, que é um processo caro. Foi um passo significativo. Os terrenos para receber as próximas três estações já estão desapropriados e pagos.

Se considera ter feito uma gestão positiva, a quê atribui receber uma avaliação tão negativa da população?

Primeiro, um mau humor da população contra os políticos, principalmente contra nós do PT. Por melhor que tenha sido o governo, o massacre midiático diário contra a classe política, acredito que tenha muito a ver. Não me preocupo com isso. Muitos governantes foram condenados em suas épocas e precisou passar um bom tempo para o povo reconhecer. Juscelino, por exemplo, foi criticado por construir Brasília e o tempo provou que ele estava certo.

O que gostaria de ter feito e não chegou a fazer?

Não avançamos o quanto queríamos, mas deixamos o caminho pavimentado para os próximos governantes: um deles é o Parque Tecnológico, que será um marco para o desenvolvimento da cidade. A área está pronta, a documentação sairá do cartório ainda na minha gestão. Isso demora, porque o terreno, que era do Estado, tinha mais de 360 inscrições. Na habitação, o muito que fizemos é pouco diante do que a cidade precisa e não vejo perspectivas animadoras, porque o Minha Casa, Minha Vida irá sofrer um revés, entre outras medidas do governo federal.

Não foi um erro, para honrar compromissos políticos, ter mantido secretários cuja atuação foi considerada ruim, como é o caso do secretário de Esporte, Wagner Freitas?

Na política, é raro manter a palavra, um compromisso. Mas entendo impossível governar sem alianças. É um equívoco achar que pode governar sem fazer maioria. A máquina pública é muito complexa. Não basta eu querer. Preciso convencer a área responsável pela pasta, encontrar um procurador que dê um parecer favorável, sustentando aquilo que eu quero fazer. O caminho para se fazer qualquer coisa na máquina pública é muito burocrático. A lei de licitações públicas é um atraso para o País. Como é possível que o menor preço possa ser o melhor serviço? A lei me obriga a contratar a empresa que fez o menor preço. Aí começa a obra e não consegue terminar. Essa é uma das minhas frustrações: no meio do caminho ela abandona e é preciso romper o contrato, ainda fazendo acordo, senão ela ganha na Justiça… Quanto às alianças, é fácil tirar o secretário, mas e a base na Câmara? Se eu não tiver vereadores que entendam que o projeto é bom, não adianta. Para mim, aliança é até o fim. Na política, está cheio de traíra. Eu não sou. Já estou preparado para ter menos amigos a partir de janeiro.

Com uma palavra, classifique quem ocupou cargos relevantes na administração e na eleição apoiou candidatos de oposição.

As pessoas são penalizadas pelo modelo eleitoral. Chega nessa época, o partido quer estrutura de campanha para eleger seus candidatos. Por que o Elói não teve essa maioria? Porque não teve condições de oferecer o que eles queriam, e alguém ofereceu. Em uma cidade sem televisão como a nossa, é importante ter uma boa base de candidatos. Mas nessa eleição teve um monte de trairagem, gente que fechou com um partido, mas os candidatos estavam trabalhando para outro. É preciso aperfeiçoar a legislação eleitoral: não pode ter um monte de partidos apenas para chegar em época de eleição e fazer acordo. O eleitor não conhece os partidos pela proposta programática, pelas teses que defende. Então, não dá para condenar alguém localmente, se isso acontece pelo Brasil todo.

almeida-prefeito-guarulhosO secretário de Meio Ambiente, Zanetta, bateu de frente com vários vereadores, inclusive alguns da base aliada. Isso atrapalhou sua gestão?

Atrapalhou, mas também ajudou. Secretário não é para fazer tudo que o vereador quer, nem tudo é permitido. O Zanetta tem temperamento difícil, porque é convicto das coisas que defende. Em minha opinião, é o melhor técnico que o Meio Ambiente já teve; talvez só a saudosa Virgínia Ranali se equiparasse a ele. Apenas lamento que ele tenha tido de ficar tanto tempo analisando processos, porque na rua ele é um trator para trabalhar, para transformar o paisagismo da cidade. Aliás, sugiro ao Guti que separe as questões de licenciamento ambiental da área de cuidar das praças e jardins.

Chama a atenção a altura do aterro da Klabin, ao lado da Dutra, o que pode transformar a rodovia em um lago por falta de escoamento das águas. O que sua gestão fez para tentar impedir esse abuso?

Em vários momentos, a Secretaria do Meio Ambiente e a SDU autuaram quem estava fazendo o aterro, e até foram apreendidos caminhões. Mas eles têm licença da Cetesb. Tudo o que a gente proíbe eles vão ao Judiciário e obtêm liminares.

Qual sua opinião sobre os polêmicos contratos da gestão de Moacir de Souza na Secretaria de Educação, como o do combate aos pombos e os do Instituto Civitas, cujos valores são elevados?

Embora o combate aos pombos seja legítimo, assim que tomei conhecimento do valor o contrato foi cancelado, pois temos problemas mais urgentes a enfrentar. Cada secretário tem sua autonomia e responde pelos contratos. Confio que Moacir tenha se respaldado na lei para assiná-los.

Fala-se em extinguir o cargo de secretário-adjunto, pois eles serviriam apenas como moeda política. Dá para administrar sem eles? E o número de comissionados, quanto dá para reduzir.

Se for uma decisão extingui-los, dá para viver sem eles, mas muitas vezes me socorri dos adjuntos para resolver questões que não precisariam ocupar o titular. Comissionados não são tantos quanto andaram apregoando por aí. Dá para economizar? Pode ser, mas eu prefiro que a máquina funcione.

E quanto a secretarias a serem extintas?

É algo delicado. Apontam as coordenadorias como supérfluas. Mas, pergunto: a da pessoa com deficiência, por exemplo, teve papel importante pelo olhar de quem tem a necessidade. Não dá para ter órgão público sem acessibilidade e isso passou a mudar porque o Firmino avalia o que é adequado ou não. No CEU Bonsucesso, faltavam rampas, mesmo sendo projeto de um arquiteto premiado. Ele [Firmino] chamou a atenção para que fosse corrigido. Se puser isso em um setor qualquer, com alguém que não tem a deficiência, não terá o mesmo olhar.

Não seria mais viável construir um centro administrativo, concentrando as secretarias, em vez de pagar tantos aluguéis e ter viaturas circulando entre elas?

O projeto está prontinho para construir, nessa parte de baixo aqui do Bom Clima, um moderno centro administrativo.

O Boletim Oficial publica justificativas dos pagamentos fora da ordem cronológica. Porém, fornecedores alegam que a publicação é feita, mas não recebem os valores. Indagamos a Secretaria de Finanças por que publica se não está pagando e não tivemos resposta. Afinal, quando justifica o valor é pago ou não?

O correto é publicar e pagar. Mas nenhum município ou estado está em situação tranquila. Nós estamos priorizando cumprir a folha de pagamento. Pagou dia 15, pagou dia 30, aí vamos encaixando os possíveis pagamentos. É uma operação de guerra, pelo momento que estamos vivendo. É necessário rever o pacto federativo do Brasil, pois do jeito que está hoje, os municípios não vão sobreviver. Todos vão quebrar.

Na campanha eleitoral, Pietá, candidato do seu partido, fez críticas à sua gestão. Como vê o comportamento dele?

Elói foi a pessoa mais preparada para disputar a eleição. Já disse no âmbito do partido que acho que alguns equívocos foram cometidos. Discordo de fazer campanha em cima de pessoas, acho que tem de ser em torno de projeto político. E optou-se por não abordar coisas do meu governo. Um erro chegar no Presidente Dutra e não falar do CEU que foi feito lá. Como ir à região de Bonsucesso e não falar da obra em andamento?

Entendo que tenham sido análises de marqueteiros, mas deveriam ter divulgado as coisas do governo. Boa parte das críticas que recebo é não termos podido ou sabido comunicar tudo que foi feito. No trevo de Bonsucesso foram construídas imensas galerias; sob a Dutra, teve de fazer manualmente e pouca gente sabia o que estava sendo feito. O povo só fica sabendo do que sai na grande mídia, que geralmente é negativo.

paco-municipalA falta de diálogo entre governos do PT e PSDB parece ter prejudicado Guarulhos. O fato de Guti ser aliado de Alckmin pode beneficiar a cidade agora?

Ele não terá nada mais do que tive. Acho que nenhum prefeito de Guarulhos conversou mais com o governador do que eu. O corredor da EMTU parou na vila Galvão, porque dali até o Tucuruvi depende de desapropriações. O Programa Minha Casa, Minha Vida foi complementado pelo Casa Paulista e Guarulhos foi uma das cidades que mais receberam recursos. Dias atrás, estive junto com o governador entregando 360 apartamentos no Bananal a pessoas que moravam em áreas atingidas pelo Rodoanel e que não tinham escrituras. E isso só foi possível porque nós defendemos aquelas famílias. O Estado irá depositar R$ 27 milhões por aqueles apartamentos. O trem está chegando a Guarulhos graças ao diálogo. Eu não posso me queixar do governador. Ele só ficou devendo a canalização do Baquirivu, pois nos deu um passa-moleque: viriam recursos de um banco do exterior, mas acabaram levando essa verba para resolver problema de falta d’água na região de Campinas. E tem esses presídios, que há muito nós queremos que sejam transferidos ali da entrada da cidade; ele concordou, mas continuam lá.

Acredita que, sem apoio da máquina administrativa, os deputados Alencar e Auriel têm chance de se reeleger em 2018?

Guarulhos tem potencial para isso, pois elegeu quatro estaduais. Mas o PT terá de repensar sua política; não creio que caibam dois candidatos a estadual pela cidade.

Cogita-se que Elói Pietá concorra a deputado federal e o mesmo se diz a seu respeito. Os dois podem concorrer ao mesmo cargo ou é viável haver uma dobrada?

Teremos de viver momento de muito diálogo interno para apontar caminhos. Minha pretensão é ser candidato a federal em 2018 ou não ser candidato. Estadual não serei.

Vê a possibilidade de mudar de partido?

Não sei. Precisa ver como vai ficar a situação do PT; existe até possibilidade do partido ficar impedido de disputar eleição. O cenário está muito indefinido.

Nas redes sociais, fala-se que estaria construindo ou seria sócio de um shopping em Campinas. É verdade? Se não, a que atribui essa informação.

Eu quero pedir a quem está falando isso que me aponte onde é, para que eu possa ir lá pedir emprego. Isso aí faz parte do folclore, da maldade política. Um jornalista de Guarulhos publicou que eu estaria morando em Alphaville. Muita sacanagem, jogo muito rasteiro. Ainda moro e quero continuar morando em Guarulhos. E em fevereiro estarei procurando emprego.

O que tem a dizer para o próximo governo?

O governo é limitado pelas circunstâncias reais do dia a dia e uma série de órgãos públicos que fiscalizam, seja a Câmara, o Tribunal de Contas do Estado e o da União (…) Ser candidato é uma beleza, candidato pode prometer tudo, tem solução para tudo. É fácil, fácil. Outra coisa é quando você senta na cadeira. Você quer fazer alguma coisa e sente que só o seu desejo não basta para fazer aquilo ali. Porque as pessoas foram mais preparadas na máquina pública para dizer não, do que sim. Desejo que Guti consiga fazer um bom mandato, para o bem da cidade.

almeida-sorrisoSe a população não ficou sabendo do que foi feito em sua gestão, foi culpa da imprensa ou a Prefeitura falhou em divulgar?

A Prefeitura falhou em divulgar, mas a imprensa também errou, ao focar apenas nos problemas. Com a crise do País, não dá para pôr muitas verbas em publicidade. Outro exemplo do que fizemos, pelo diálogo e as pessoas não sabem: o Martello perdeu uma ação para a Prefeitura e teria de pagar determinado valor. Fizemos um acordo e eles estão pavimentando a estrada Albino Martello, uma ligação importante, que será útil para toda a região. O piscinão da vila Galvão está quase concluído. Tivemos enchentes recentes lá, porque na fase de concretagem não tinha como recolher água lá. Vamos entregá-lo em nosso mandato, faltando quando muito o paisagismo externo, mas o essencial nós fizemos.