Por Michele Barbosa

Um assunto muito comentado por muitos é a alta do dólar. Apesar de vivermos em um país cuja moeda local é o real, sofremos fortemente o impacto da moeda norteamericana na economia brasileira.

Como sabemos, o dólar teve um aumento abrupto. Mas o que temos a ver com isso? Temos tudo, pois o bolso dos brasileiros sofre as consequências que são os altos preços de matérias-primas (o papel de imprensa, por exemplo), componentes industriais, produtos de base de insumos e muitos outros. “Como há muita concorrência, o empresário tem dificuldade de repassar a totalidade do aumento, absorvendo portanto custos que não estavam na formação do preço dos produtos. O resultado é a perda de lucros, o que impacta investimentos de forma generalizada”, explica Múcio Zacharias, professor de economia da IBE-FGV e sócio-diretor do Economies Consultoria Empresarial.
Segundo Múcio, a pressão inflacionária é outro malefício do dólar alto. “Sem dúvida, tanto a dívida pública quando a dívida das organizações têm grandes participações nessa conta, pois é grande parte indexada ao dólar. Em resumo, dizemos que a exposição cambial faz com que as dívidas fiquem mais caras e as dificuldades aumentem.”
Outro reflexo negativo do aumento do dólar, de acordo com o professor, é a diminuição de lucros das multinacionais. “Essas empresas remetem ao exterior (matriz) os resultados obtidos durante o ano, convertidos em dólar, mas quando o real se desvaloriza, o lucro em dólar diminui e a remessa para o exterior fica menor. Desta forma, o resultado positivo em reais diminui e a matriz recebe menos dólares, gerando menor investimento na filial que está no Brasil.” Ou seja, isso diminui o interesse das corporações investirem no País, o que afeta o crescimento e, consequentemente, prejudica o mercado de trabalho.

O outro lado da moeda

É claro que não existem apenas malefícios com a alta do dólar. A vida do exportador, por exemplo, é facilitada economicamente. “Isso porque o produto brasileiro torna-se mais competitivo, propiciando ao exportador o aumento das vendas ao exterior. Nos últimos anos, vimos que a exportação diminuiu consideravelmente, por isso o próprio governo entende que a desvalorização é bem-vinda.”
Múcio afirma que o aumento do consumo interno é uma característica quando o dólar se valoriza e o consumidor tende a procurar os produtos nacionais, pois a concorrência externa terá um preço mais alto, diminuindo a competitividade e aumentando a venda de produtos nacionais, o que gera mais condição de aquecimento do mercado interno. O mesmo vale para as viagens, o turismo nacional cresce e a moeda circula, em detrimento do turismo internacional.
Para o economista, o dólar elevado pode trazer mais investimento para o Brasil. Isso acontece pela relação direta com as aquisições de empresas nacionais por empresas estrangeiras. Na prática, a indústria nacional vira uma pechincha favorecendo muitos negócios, com aumento significativo do investimento no território nacional.

Inflação e baixa do dólar: entenda como funciona

O dólar é influenciado no mundo pela relação entre o seu valor e o valor das outras moedas. “O valor de uma moeda está relacionado a dois fatores: a quantidade da moeda em circulação na economia, pois quanto mais moedas no mercado, menor o seu preço (oferta e procura) e economia do país, ou seja, uma economia que atrai investidores tende a aumentar o valor da moeda, o que influencia o primeiro fator citado – isso vale para qualquer moeda no mercado internacional e afeta a vida de muita gente, especialmente de quem investe ou comercializa em moeda estrangeira”, explica Gerson Christensen, administrador de empresas e sócio diretor da SSK Análises Mercadológicas.
Gerson conta que o dólar varia de acordo com a situação do mercado internacional e do país que tem sua moeda comparada ao dólar. “Como exemplo, neste momento o dólar está valorizado pelo crescimento da economia americana e o aumento da taxa de juros do FED (Banco Central Americano). O real está caindo por apresentar mais riscos frente ao dólar, que é uma moeda mais segura”, pontua Gerson.

Qual a solução?

Gerson avalia a atual situação econômica do País como uma rota de colisão. O governo apostou em um crescimento baseado no crédito e não garantiu competitividade às empresas. “Estamos em recessão (previsão de PIB negativo para este ano) e as consequências são demissões de profissionais e o aumento da inadimplência.”
O administrador recomenda:
1) Economize e poupe – crie o hábito de economizar 15% do ganho e não gastar o que sobra;
2) Não crie novas dívidas. Se for comprar algo, planeje e compre à vista. É nos momentos de crise que fazemos as melhores compras;
3) Reduza os gastos – corte os supérfluos. É fato que o brasileiro é perdulário. Gastamos à toa. Pense na economia como algo constante e em todo o tempo;
4) Faça valer o seu direito de consumidor – se um produto ou serviço aumentar o preço acima do razoável, pare de comprar. E mais: organize-se em grupos. Espalhe aos demais a alternativa para combater o aumento da carne, gasolina e impostos.

Dose de otimismo

Para Múcio, o momento não é de preocupação extrema, pois o câmbio desvalorizado permite ao Brasil maior competitividade. Em resumo, os produtos brasileiros tornam-se muito atraentes e começa uma nova fase. “O câmbio alto não é o fim do mundo e sim um novo começo que deverá atingir o equilíbrio com o decorrer do tempo. Explico: vendendo mais, exportando mais, há maior fluxo de entrada de divisas, fortalecendo a moeda nacional que equilibrará o câmbio no decorrer do período.”

Curiosidades

Você sabia que existem quatro modalidades do dólar? Múcio Zacharias explica quais são elas:

• Comercial – é utilizado pelas grandes empresas para a realização de importação e exportação de mercadorias. A taxa é negociada entre bancos comerciais e empresas com o objetivo de fechar suas posições no comércio exterior e remessas de capitais.

• Turismo – é aquele que compramos quando precisamos fazer alguma viagem ao exterior. Ele é usado para aquisição de passagens aéreas, para gastos em estabelecimentos internacionais e também para a conversão de débitos efetuados em moeda estrangeira no cartão de crédito.

• Paralelo – trata-se de um mercado “não oficial” da divisa norte-americana. Antigamente era utilizado para proteção das crises econômicas vividas antes do controle inflacionário. Hoje é um mero indicador, ainda para precificar o risco da moeda informalmente.

• PTAX – formada para atender importações, exportações, compra e venda do financeiro das empresas, além da negociação de compra e venda entre os bancos (interbancário). A média de todas essas transações é verificada pelo Banco Central ao fim do dia para a formação desta taxa.