Por Tamiris Monteiro
Fotos: arquivo pessoal e
banco de imagens

Manter uma dieta adequada, com mais alimentos naturais e menos industrializados, é um dos principais hábitos para ter uma vida sadia e longa. No entanto, cabe ressaltar que se alimentar com frutas, legumes e verduras diariamente não garante saúde, porque é preciso preocupar-se também com a qualidade do alimento que consumimos e em qual sistema de produção ele é feito. Você já parou para pensar como a alface, cenoura ou couve que chegam até seu prato são plantados e cultivados? Tem gente que acha que plantar é algo padrão, mas engana-se, pois existem diferentes sistemas de plantio e cultivo que podem dar origem a produtos orgânicos, hidropônicos, transgênicos e os considerados “convencionais”, esses últimos vendidos em larga escala em mercados, feiras e hortifrútis.

Inclusive, é bastante comum que as pessoas tenham dúvida sobre o tema, até mesmo pela falta de informações a respeito dos sistemas de produção. Para entendermos melhor a especificidade de cada grupo, a engenheira de alimentos Mirna Sabiny Bianchete explica as principais diferenças entre eles.

Alimentos com maior utilização de agrotóxicos

  • Alface;
  • Abacaxi;
  • Beterraba;
  • Cenoura;
  • Morango;
  • Pepino;
  • Pimentão.

mirna-sabiny-biancheteConvencionais

“Os alimentos classificados como convencionais são produzidos com o uso de adubos químicos e agrotóxicos legalizados, os quais, se utilizados em excesso, podem gerar contaminação e erosão do solo, contaminação dos rios e em águas subterrâneas, causar perda na diversidade genética, poluição do meio ambiente e malefícios à saúde humana. É muito importante que  os lugares que compram esse tipo de produto exijam dos fornecedores a utilização de agrotóxicos autorizados pelos órgãos oficiais”.

Hidropônicos

“São cultivados fora do solo: a terra é substituída pela água e há o uso de fertilizantes e agrotóxicos. É necessário o uso de fertilizantes nesta técnica, pois é o que promove os nutrientes necessários para o crescimento do vegetal. Além disso, é adicionada uma solução aquosa de sais minerais para o tratamento de eventuais doenças e para a nutrição do vegetal. Essa solução aquosa nutritiva contém nitrato, composto que em excesso pode causar malefícios à saúde. Por não utilizar o solo, essa técnica possui vantagem sobre as outras, pois evita o desmatamento, lixiviação, plantio à beira-rio, erosão, entre outros. O problema está no acúmulo de nitrato, que pode ocorrer caso haja um desequilíbrio entre a absorção e a metabolização”.

Orgânicos

“Os orgânicos são produzidos em solos equilibrados quimicamente, biologicamente e fisicamente, sem a adição de agrotóxicos transgênicos, sintéticos ou fertilizantes químicos. O processo de produção dessa técnica respeita o meio ambiente, garante a conservação do solo, devido à ausência do uso de agrotóxicos, promovendo assim a biodiversidade e diminuindo a possibilidade de danos à saúde. Previne também a poluição das águas subterrâneas, dos rios, entre outros. Há ainda a produção de alimentos orgânicos de origem animal; por exemplo, a carne bovina, em que o animal é alimentado somente com nutrientes orgânicos e mantido em local calmo, confortável e espaçoso, evitando o estresse e reduzindo o uso de hormônios artificiais ou antibióticos sintéticos”.

Transgênicos

“Sofrem modificações no código genético, ou seja, recebem genes provenientes de outro organismo, com o intuito de melhora na qualidade e na resistência às pragas. As plantas sofrem uma determinada modificação para que comecem a produzir toxinas contra as pragas existentes na lavoura, eliminando assim o uso de certos agrotóxicos. Essas plantas também podem ter o código genético modificado para que criem resistência a certos agrotóxicos para que os mesmos possam ser utilizados na lavoura, a fim de eliminar outros vegetais como, por exemplo, as ervas daninhas. É possível saber se estamos ingerindo um produto que contém algum composto transgênico olhando no rótulo: se houver um “T” preto sobre um triângulo amarelo significa que o produto possui mais de 1% de matéria- prima transgênica”.

Precisamos falar sobre agrotóxicos e fertilizantes químicos

nutricionista-ligia-ortolaniA razão pela indústria agrícola adotar o uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos está no crescente índice populacional. Com mais pessoas e espaços cada vez mais reduzidos destinados ao plantio, tornou-se necessário criar técnicas agrícolas que garantissem alimento suficiente para que a população não sofresse com a escassez. Uma das técnicas é o uso de agrotóxicos, que evita a perda do alimento, colaborando com o aumento da produtividade e do volume de produção.

Não há como negar que foi uma solução providencial; inclusive, funciona muito bem e atende a demanda; no entanto, é preciso ter consciência de que, em longo prazo, a ingestão de agrotóxicos e fertilizantes por meio dos alimentos pode causar graves danos à saúde humana, como o desencadeamento de câncer, devido à mutação dos genes .

Se não bastassem os danos à saúde, o uso excessivo das substâncias interfere nos recursos naturais, podendo reduzi-los aceleradamente. “O acúmulo de agrotóxicos na cadeia causa diversos problemas ao meio ambiente. Por isso, sou a favor do desenvolvimento e do investimento em alimentos orgânicos. Acredito que preservar e respeitar a saúde, a natureza, o meio em que vivemos e produzir com sustentabilidade é um dever de todos”, afirma Mirna.

Por um mundo com mais orgânicos

O cultivo dos alimentos orgânicos é a forma de produção menos nociva para humanos e meio ambiente. Por isso, vale o incentivo a essa técnica. A nutricionista Ligia Ortolani, que por causa da profissão é bastante ligada à alimentação, também defende o consumo de orgânicos. Ela não só os recomenda para seus pacientes, como decidiu apostar em um negócio, com mais duas sócias, onde vende produtos naturais.

carrot-kale-walnuts-tomatoesA loja chama-se Orgânicos.Nutri e oferece aos clientes verduras, legumes e frutas orgânicos e fresquinhos. Uma grande sacada da empresa é deixar a vida dos clientes mais prática: quem não tem tempo de sair à procura de hortaliças orgânicas pode ligar na loja, passar a lista dos itens que deseja, fazer a encomenda e buscar sempre aos sábados. “Aceitamos encomendas até quinta, para garantir que o cliente leve para casa produtos bem frescos e recém-colhidos da horta”, explica a nutricionista.

Para Ligia, é muito importante também que o consumidor conheça o lugar onde compra seus orgânicos, porque existem muitos estabelecimentos que vendem alimentos “convencionais”, dizendo ser orgânicos. “A maior preocupação é encontrar produtores idôneos e certificados por empresas credenciadas junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA. Sempre exigimos os certificados e fixamos em local visível aos nossos clientes. Precisamos atender as normas vigentes do município quanto à estrutura e habilitação da loja, tais como licenças e alvarás. Há necessidade de ampla pesquisa buscando empresas sérias e certificadas para aquisição dos produtos orgânicos”, pontua.

A palavra de quem consome produtos orgânicos

mariluci-jungMariluci Jung sempre se preocupou com a saúde e com os danos provocados pelos agrotóxicos e fertilizantes. Por conta disso, há anos consome alimentos orgânicos. “Procuro comer de maneira saudável, mas hoje consumo com muito mais frequência do que há algum tempo. Antes era bem difícil encontrar esses itens em Guarulhos. Geralmente, comprava quando ia para São Paulo, no Santa Luzia. Nossa cidade era bem desprovida de alimentos dessa área e os mercados e hortifrútis simulam a venda de orgânicos. Até hoje, mesmo com mais opções, acho que temos pouca variedade. Colocam um pedacinho de gôndola e só”, diz.
Embora os orgânicos sejam mais caros e mais difíceis de serem encontrados, Mariluci salienta que vale o esforço. “Acredito que por causa da alimentação, nunca tive nenhum grande problema de saúde: sou muito saudável; a única queixa que tenho são dores nas juntas e, quando como bem direitinho, sinto uma melhora”, revela.

Aparência

Tem gente que acha que produto orgânico é mais “feinho” do que os convencionais, mas o aspecto diferenciado é normal. “A maioria dos consumidores está acostumada a padrões pré-estabelecidos por produtos com adição de pesticidas, hormônios e agrotóxicos. Por isso, podem estranhar a aparência dos orgânicos, mas o valor nutricional é muito maior”, pontua Ligia.

Durabilidade

Dependerá muito do produto: por não utilizar agrotóxicos e conservantes, geralmente a durabilidade é menor; porém, não oferece riscos à saúde.

Preço

Os alimentos orgânicos são mais caros, pois seus produtores adotam técnicas de plantio que preservam o meio ambiente e garantem a saúde dos seus empregados e dos consumidores, o que acaba exigindo mais trabalho por unidade de produção. Essas técnicas e esse cuidado acabam tendo um custo um pouco mais elevado. Outro ponto é que a oferta é menor do que a procura, o que faz com que muitos supermercados exagerem na margem de lucro. “Se houver o aumento da procura, talvez seja possível reduzir os custos de produção e da comercialização e o valor ficará acessível a todos. Uma dica para quem quer comprar alimentos orgânicos é procurá-los em feiras e em pequenos armazéns, pois os preços são bem mais baixos”, sugere Mirna.

Que tal uma horta em casa?

Se os alimentos orgânicos pesarem no orçamento, uma saída é ter uma horta caseira. Hoje existem muitas possibilidades de cultivar hortaliças e vegetais dentro de casa, até mesmo em apartamentos, recorrendo a vasos ou aos espaços verticais. O empresário Gustavo Pacheco Nunes decidiu apostar na ideia e em maio colocou a mão na massa – ou na terra, melhor dizendo. “Sempre me interessei por uma vida saudável e como voltei a morar com a minha mãe e na casa dela havia um espaço apropriado para horta, mas ninguém nunca plantou nada, decidi me aventurar. No começo foi muito engraçado, pois eu não tinha a menor ideia do que plantar, como plantar ou de quais cuidados eram necessários. Fui a uma loja especializada e comprei um pouquinho de cada coisa. O primeiro plantio teve: alecrim, tomilho, orégano, manjericão roxo e manjericão verde, hortelã, erva cidreira e capim, entre outros”.

Entre erros e acertos, Gustavo conta que a horta já lhe rendeu boas colheitas. “Já teve a época da rúcula, da escarola e do tomatinho, depois vieram os alfaces e temperos e agora a beterraba, cenoura e alho poró já estão prontos. No último fim de semana, colhi cenouras com a minha sobrinha e fizemos um bolo. As hortaliças saem muito rápido: plantadas as mudas, em menos de 30 dias dá pra colher. Os alfaces têm de ser replantados toda vez que retirados, a rúcula e o agrião basta cortar na base e continuar regando que crescem novas folhas. A aparência e o sabor são muito diferentes. As cores são bem vivas e o sabor é muito mais marcante. A rúcula e o tomate, por exemplo, são muito diferentes em sabor quando comparados aos comprados em mercados”.

gustavo-pacheco-nunesDicas para ter uma horta de sucesso

Ter uma horta não é uma missão impossível, mas também não é uma tarefa tão simples. Com o tempo, quem cuida da horta percebe que cada espécie tem uma necessidade especial. Gustavo errou bastante até ver sua horta vingar e compartilha algumas dicas para os iniciantes. “No início, só precisei do espaço, enxada, sementes e água. Regava as hortaliças duas vezes por dia e elas ficavam cada vez mais pálidas e eu achando que fosse falta de água, até descobrir que na verdade era excesso. Com o tempo, também fui fazendo outras melhorias, como cerca e portão para não entrar animais; e telas e apoios para algumas plantas que começaram a crescer e não tinham sustentação. Não é tão fácil, mas, com o tempo e um pouco de pesquisa, se aprende”, avalia.