Por Fábio Carleto e Jônatas Ferreira

O prefeito Guti (PSB), 32, concedeu entrevista ao Click Guarulhos para falar sobre as conquistas desses primeiros meses de governo, projetos que estão por vir e as polêmicas que o rodeiam. O jovem chefe do Executivo carrega a responsabilidade de atender as expectativas dos 481.541 eleitores que depositaram sua confiança por meio do voto, além de ter de suportar nos ombros a dívida de R$ 7,4 bilhões deixada para o seu governo.

Já está pensando na reeleição?

De forma alguma. Primeiro que isso tem que ser algo natural e depois que a gente tem que colher resultados positivos. A sociedade é quem vai dizer se é um bom momento. Mas de verdade mesmo, eu só penso em entregar resultados positivos pelos próximos quatro anos. E pergunta como essa me causa arrepio. Eu quero ficar bem distante de campanha por um bom tempo. Ganhar como ganhamos deixa a gente bastante orgulhoso, mas assim que você assume você vê o tamanho do problema e do peso nos ombros. Porque são quase 500 mil pessoas querendo resultados imediatos. Elas não querem saber se Guarulhos tem uma dívida de R$ 7,4 bilhões, elas querem ver o HMU funcionando como o Albert Einstein. E tem que ser assim. A gente quer mostrar resultado. Em 100 dias deu pra mostrar muito, mas ainda falta um caminhão de coisas.

Quatro anos pode ser assustador…

Eu diria que esses quatro anos vão nos ajudar a reestabelecer Guarulhos. Não vai dar pra deixar a cidade um brinco, que é o que a gente quer e o que merecemos. Mas vai dar pra mostrar que acertamos o passo, que começamos a melhorar a qualidade de vida. Mas isso também não significa que a gente pense em reeleição, de verdade. Meu foco é dar resultado. Muita gente acredita na gente. Eu quero mostrar para as pessoas que dá pra mudar. E o Brasil está mudando.

Já deu para enxergar toda a dívida de Guarulhos ou ainda tem chances de crescer?

Não, esse é o valor oficial. Mas o que mais nos preocupa não é tanto dívida, que a gente sabe que estagnou e aos pouquinhos a gente vai fazendo o decréscimo, mas a arrecadação do município. No governo passado, eles projetaram em R$ 4,3 bi o orçamento deste ano e por questões econômicas a gente sabe que provavelmente vai chegar em torno de R$ 3,6 bi. Vai repetir o ano passado. A arrecadação do ICMS já está muito aquém. Este semestre a gente já deixou de arrecadar basicamente R$ 150 milhões.

Tem como fazer uma nova anistia?

A Secretaria de Finanças está estudando para que a gente tenha também um pouco mais de efetividade nessas cobranças. A gente vai buscar um saldo positivo na busca por receita da dívida ativa. Eu me comprometi de congelar o IPTU, então, a gente tem que aumentar a nossa receita, sem aumentar o imposto.

Quantas horas o prefeito dorme?

Agora eu melhorei um pouco. Durmo umas cinco, seis horas por dia. Desses 100 dias de mandato, descansei um dia. Tem muita gente que se vangloria: ‘eu sou o maior trabalhador de todos’. Mas esse não é o nosso caso. Como qualquer pessoa normal, você quer ter um lazer. Mas, hoje, Guarulhos, no tamanho do buraco que está, do endividamento, dos desafios e problemas, não permite isso. Você quer cada vez dormir menos e acordar mais cedo pra resolver os problemas. Não porque eu sou o maior trabalhador do mundo, mas a situação está exigindo. Espero que daqui a um ano e meio a gente consiga descansar mais.

Apesar de todo o trabalho, não parece que vocês estão cansados. A que atribui a muita disposição?

São dois fatores: Primeiro, porque eu gosto muito do que eu faço. Sou apaixonado por isso de tentar dissolver problemas, melhorar a qualidade de vida das pessoas, saber que você tem tudo pra impactar positivamente. Segundo, porque tenho uma equipe que eu acho fantástica, é muito unida. A gente não tem vaidade. Às vezes, o secretário de Segurança relata o problema dele e o secretário de Obras fala: ‘mas você pode resolver dessa maneira’. A gente se reúne periodicamente. Ninguém vai tomar decisão pelo outro, mas damos palpite.

Você tem encontrado resistência na máquina pública?

Guarulhos precisa resgatar a credibilidade. E estamos fazendo isso perante todos os outros municípios e a federação em si. Muita gente fugia de Guarulhos porque sabia que não ia ter retorno, enfim. Precisamos também resgatar a credibilidade com o morador. A gente tem que mostrar que Guarulhos funciona, que vai dar certo. O funcionalismo é a mesma coisa. Eles estão vendo que estamos nos desdobrando, que estamos fazendo. Muitas vezes não colhe o resultado esperado, o que é natural, nem tudo que você faz consegue acertar. Mas grande parte do funcionalismo está acreditando. Eles estão vendo que o prefeito está trabalhando o mesmo tanto que eles.

A falta de dinheiro ajudou vocês a criarem um sentimento de união? Como na revitalização do Bosque, na reforma do Fioravante…

Nunca tinha parado para fazer essa reflexão. Realmente… não tenho dúvida. É na dificuldade que as pessoas se unem para mostrar superação. A união é uma condição, não tem jeito. E a gente está conseguindo mostrar esse sentimento para o guarulhense: a cidade é dele. Porque tem o contrário também, tem a depredação. Você se mata para conseguir arrumar um próprio público e dois, três dias depois, está tudo quebrado. A partir do momento que a gente consegue envolver mais pessoas, o morador lá do entorno do [Ginásio] João do Paulo vai ver alguém pichando e vai dizer: ‘mas semana passado eu estava aí pintando’. Além de precisarmos da ajuda, criar a união é o melhor que conquistamos com essa zeladoria colaborativa.

Nesses 100 dias vocês trabalharam sem comissionados. Precisa mesmo deles?

Nós precisamos de um sistema híbrido, que sempre funcionou. Nós precisamos dos concursados e dos comissionados. Os concursados são as pessoas mais técnicas. Os comissionados são aquelas pessoas que você pode exigir não do intelecto, mas do físico. É como falo para os meus secretários: ‘tem reunião onze horas da noite’. Tem que vir. Não tem hora extra, não tem uma série de coisas, mas tem que vir. Lógico que tem muito concursado que está se matando pela cidade, e eu tenho exemplo disso. Mas a gente precisa muito dos comissionados para nos ajudar. Primeiro porque a gente precisa ter um olho, alguns braços em cada lugar. Eu sempre disse durante toda a campanha que a gente ia reduzir 30%, nunca que não teria nenhum comissionado. Reduzi 38,5%, fui além da minha promessa. Hoje com esse enxugamento, estamos economizando R$ 3,7 milhões no mês. Durante todo o mandato, vamos economizar acima de R$ 230 milhões. A gente poderia ter dado muito mais resultado com os comissionados ajudando. Demorou 100 dias porque os cargos foram considerados inconstitucionais pelo TJ. Então para não incorrer nesse risco, a gente estudou, reestudou, buscou opinião de vários órgãos. É natural que as pessoas que não estão sentadas nesta cadeira [de prefeito] não entendam. Mas a gente precisa de pessoas para ajudar. Lógico que precisamos de um balanceamento.

Vai ficar nesse número ou mais pra frente vai aumentar?

Nós fizemos o teto do projeto. Vimos o que é possível reduzir e chegamos nesse número. No meu mandato não ultrapassa de jeito nenhum. E vamos começar com muito menos, justamente por questões financeiras.

Quantos o senhor acredita que serão nomeados de primeira?

Por questões de balanço econômico uns 50% ou 60%. Eu tenho que entender onde exatamente falta muita gente. E não necessariamente que vão começar tudo de uma vez, vai ser gradativo. Conforme os nossos problemas vão avançando, a gente vai alocando.

O senhor teve uma grande frustração durante esses 100 dias?

Sempre tem. Qualquer pessoa tem. Seja na vida particular, empresarial ou profissional. A nossa maior frustração, por decorrência da questão financeira, é na Saúde. Muita gente fala: ‘pô Guti, o HMCA está com uma fila enorme, dá um jeito, por favor’. Então se vê que é um pedido mais do que lícito, a pessoa precisa daquilo. Na Saúde, a gente não avançou o que precisa avançar. Eu acredito que até o meio do ano a gente vai fazer uma série de mudanças. Até dezembro a Saúde de Guarulhos vai estar muito melhor do que está hoje. Ainda não vai ser a ideal. A Saúde é a única coisa que a gente não pode dizer: ‘espera um pouco que daqui a pouco estou melhorando, fica aí com a sua doença’. Isso que é frustrante, dolorido. Mas não existe mágica.

O prefeito acredita que até dezembro vai ser possível dar um jeito na Saúde?

De verdade, até no sistema privado se ‘pasta’ para conseguir uma consulta ou uma intervenção cirúrgica. Saúde Pública está pior ainda. Mas até dezembro a gente consegue dar uma resposta significativa. Um exemplo: nós precisaríamos ter um clínico geral e um pediatra nas policlínicas para que as pessoas não precisem vir até o HMU ou HMCA. Isso que a gente quer fazer até o final do ano. Eu estive umas três vezes no HMCA de madrugada, porque não adianta viver de relatório, mas de relato. Falei com os médicos, sobre o estoque [de medicamentos e insumos], mas o principal é falar com o usuário. Tem gente do Cabuçu, Bonsucesso, Vila Any. A gente pergunta: ‘mas por que você veio aqui?’. Eles respondem: ‘porque lá perto de casa não tem’. Então a gente vê um gargalo. Quando se pergunta sobre o atendimento, eles gostam. A reclamação é sempre por causa da fila. Os técnicos, os médicos são bons, mas o problema é a fila.

Sobre a dívida deixada pelo governo anterior nos medicamentos das unidades de Saúde de Guarulhos.

Desde julho do ano passado eles [antiga gestão] não pagaram a maioria dos insumos e dos medicamentos. Todo estoque acabou em janeiro e a gente começou a renegociar. A renegociação é dura. O empresário não quer saber se guarulhense está sofrendo. É: ‘você me paga o devido e eu começo a fornecer novamente’. Ele tem o contrato na mão. Eu não posso simplesmente dizer: ‘você não quer fornecer? Estou indo comprar de outro’. Eles jogam com a regra do jogo. Mas começamos a repactuar a dívida. Muitos estão entendendo.

Falando sobre a Saúde, temos a Maternidade JJM. Vocês têm algum plano específico?

Já estive reunido algumas vezes com a diretoria do JJM. Percebemos que são pessoas apaixonadas, que não ganham nada para estar lá e que querem fazer o bem. São pessoas tradicionais na cidade, com reputação e conduta ilibada. Nós já estamos fazendo as contraprestações na maneira que a gente pode fazer. Uma ou outra vez, a gente não consegue honrar no mesmo dia, mas dois ou três dias depois a gente honra. Não está fácil a situação financeira para eles. Mas eles são referência no Brasil. É uma parceria que a cidade se orgulha de ter. Já estamos dialogando para saber se conseguimos avançar em algum tipo de serviço. Mas por enquanto está muito a contento.

Quanto aos buracos da cidade, a Prefeitura está tapando um déficit do Saae. Como buscar uma solução mais efetiva?

Nós conseguimos nesses 100 dias tapar 17,5 mil buracos. Para você ver o tamanho do déficit de buracos que a gente herdou. Segundo a Folha de SP, a capital tapou 32 mil buracos. A gente avançou muito. Você já percebe que a cidade é outra. Tem muitos lugares que estão a desejar e faço aqui a mea culpa; a gente precisa avançar mais. O grande segredo foi a readequação que fizemos na zeladoria. Existia uma sobreposição de tarefas: o Meio Ambiente cuidava de poda, desassoreamento, de guia; a Proguaru a mesma coisa e fazia tapa-buraco. Serviços Públicos também fazia tapa-buraco. E nisso acontecia desperdício de tempo e dinheiro. Então a gente setorizou. Agora, o Meio Ambiente, Serviços Públicos, Saae e a Proguaru estão dialogando. Na verdade, essa readequação servirá para um próximo passo que são as subprefeituras.

E o certame da nova empresa que vai cuidar da manutenção da iluminação pública da cidade?

A manutenção da iluminação pública estava sendo feita por uma empresa com contrato emergencial e era temerário renovar. Nós estamos com o Departamento de Iluminação e, literalmente, estamos enxugando gelo. Abrimos um processo ordinário de licitação para contratar uma manutenção eficaz. Hoje apagam, em média, de 70 a 90 postes por dia. A gente consegue reparar 100, 150. É uma gordurinha muito pequena. Mas a cidade não está caótica como já ficou. Ainda tem muita coisa para ser feita; a gente acredita que em dois, três meses já tenha um vencedor do certame. Mas isso ainda é um paliativo, a evolução disso é uma PPP [Parceria Público-Privada]. Hoje temos 60 mil postes de luz em Guarulhos. O necessário é 100 mil. Então, nessa PPP existem os investimentos para aumentar os postes, substituir as lâmpadas comuns pelas de led, que são muito mais caras, mas mais econômicas, e existe a questão da tecnologia (telemetria, monitoramento…). A iluminação pública é a porta de entrada para Guarulhos entrar no conceito de Smartcity.

Você acha que consegue acabar com o rodízio de água?

O guarulhense hoje fala que o maior avanço do governo foi a distribuição de água. Hoje 60% da cidade não têm a sensação de rodízio. E isso foi um avanço extraordinário. Para acabar com o rodízio são necessários investimentos que a atual gestão não tem condições de fazer.

Na sua campanha a deputado, o senhor adotou o slogan “Contra o PT, a favor de você”. O senhor acredita que há retaliação hoje na Câmara?

Eu tenho que parabenizar a Câmara como um todo. Na última votação polêmica que tivemos, ela foi guerrilheira, mesmo com o know-how do PT em saber fazer oposição. A Câmara está extraordinária, muitos vereadores estão dispostos a fazer a mudança. Estão encarando a nova política. Falando sobre o PT, é natural que eles façam oposição. Eu só torço que seja uma oposição sadia, como sempre fiz. Nunca foi para travar o progresso, a cidade. Se você pegar o meu histórico de votação, muitas questões polêmicas que vinham do Executivo e que eu enxergava que poderiam melhorar a cidade, eu votava [a favor]. Então, espero que eles tenham responsabilidade. É bom ter uma oposição responsável, porque no processo de discussão a gente consegue melhorar muitas coisas.

Então pode ter pizza?

Não tem problema (risos).