Especial Dia das Mães

Estamos às vésperas de mais um Dia das Mães. Há registros de que uma data em homenagem às mães é celebrada desde a Grécia Antiga, em reverência a Rhea, tida como mãe dos deuses. Para os romanos, essa celebridade seria Cibele.

No passado mais recente, a instituição do Dia das Mães é atribuída à iniciativa de norte-americana metodista Anna Jarvis. Sua mãe, Ann Reeves Jarvis, havia organizado grupos de mulheres para lutar por melhores condições sanitárias, com o objetivo de reduzir a mortalidade infantil. Também liderara movimento para cuidar de soldados feridos. Com o falecimento da mãe, em 1905, Anna quis fazer algo que incentivasse os filhos a dedicar pelo menos um dia do ano integralmente para ficar com suas mães, como forma de lhes agradecer pela vida e pelos cuidados. Ela começou a mobilizar-se em 1907. Em 1910, surgiram timidamente as primeiras comemorações na Virgínia Ocidental. Em 1914, o Congresso dos Estados Unidos oficializou a data.

Porém, quando Anna percebeu que o Dia das Mães desviara-se da finalidade mais pessoal de cada família que a havia inspirado, passou a lutar contra o enfoque comercial da data. Inevitável: rapidamente a comemoração alastrou-se pelo mundo.

O Dia das Mães foi instituído no Brasil pela ACM (Associação Cristã de Moços), por iniciativa do então secretário-geral, Frank Long. Foi comemorado pela primeira vez em Porto Alegre (RS), em 12 de maio de 1918. Em 1932, o presidente Getúlio Vargas fixou o segundo domingo de maio como data oficial do Dia das Mães.

Tripla jornada

A consultoria norte-americana McKinsey concluiu que mulheres no cargo de liderança aumentam em 21% as chances de empresas alcançarem desempenho mercadológico acima da média, devido à habilidade de otimizar o tempo ao cumprir diferentes demandas simultaneamente, sem perder o fio da meada em nenhuma delas. O estudo mostrou que a sensibilidade feminina em postos de direção prioriza o bem-estar da equipe e, consequentemente, provoca o crescimento da produtividade e diminui a rotatividade da mão de obra.

Ainda assim, há resistência de muitas empresas em contratar mulheres e em colocá-las em cargos de chefia devido à maternidade. A Fundação Getúlio Vargas apurou que até 50% das mulheres são demitidas no período de dois anos após a licença, porque dirigentes entendem, indevidamente, que cuidar dos filhos continua sendo tarefa exclusivamente das mães.

Dizem que ser mãe é padecer no paraíso, mas algumas preferem pular a parte do sofrimento e compartilham com louvor as maravilhas que descobrem nesse tal paraíso, mesmo sendo uma das tarefas mais árduas na vida de uma mulher. Afinal, não é nada fácil cuidar, amamentar, acolher, acalentar, ensinar e, se não bastasse, ainda encontrar forças e disposição para dedicar-se a filhos de outras mães e a trabalhos sociais. Esta reportagem é nossa forma de homenagear todas as mães.

Danieli Hernandes: mãe da Sophia e do projeto Minha Down é UP!

Se ser mãe de primeira viagem já não é fácil, imagina descobrir, durante a primeira gestação, que você será mãe de uma criança com Síndrome de Down. Foi o que aconteceu com a Danieli Hernandes Ferraz. Antes da filha nascer, ela não se imaginava mãe. Trabalhava como executiva em uma empresa e ministrava aulas no período noturno.

Mas tudo mudou em 2012, quando ela e o esposo, Anderson Licarião Ferraz, descobriram que seriam pais. Com muita alegria, comemoraram a gestação e buscaram acompanhamento médico pré-natal. Tudo ia bem até o exame morfológico.

“Fui orientada a fazer o exame em um laboratório da confiança da minha médica. A minha grande preocupação na época era que eu não havia levado um DVD para gravar o ultrassom para mostrar para o meu marido, que no dia não pôde me acompanhar. Passados cinco minutos de exame, o médico me explicou que a translucência nucal apontava 4,1 mm e que um feto normal teria no máximo 1,1 mm, isso indicava 70% de chance de o meu bebê ter Síndrome de Down. Fiquei apavorada. Apenas chorava. Eu não conhecia ninguém que tivesse um filho com essa síndrome. O que sabia ou lembrava era apenas algo visto na televisão”, relembra Daniele.

Depois de confirmar a informação com o exame cariótipo, a primeira pessoa a saber foi o marido, depois a família. “Apesar de não sabermos o que ia acontecer, recebemos o apoio de toda a família. Decidimos que tínhamos que nos preparar da melhor forma, para poder cuidar bem da Sophia. Minha irmã conhecia um professor com uma filha portadora da síndrome e ele se dispôs a falar conosco. Também fomos buscando informações com médicos e no dia 1 de junho fizemos, na minha opinião, um dos exames mais importantes, o de coração, para saber se a bebê teria cardiopatia. Apesar do golf ball, típico da Síndrome de Down, a Sophia não teria cardiopatia”, conta.

Sophia nasceu prematura, no dia 6 de outubro de 2012, e com ela veio junto a missão da Danieli, que era tocar o projeto “Minha Down é Up!”. Com o propósito de disseminar conhecimento, possibilitar intercâmbio de experiências, promover eventos de inclusão e participação e proporcionar apoio psicológico, educacional e jurídico às famílias, a ação ajuda famílias a entenderem mais sobre a Síndrome de Down e mostra um lado surpreendente e alegre que grande parte da sociedade, e até famílias com casos da síndrome, parecem não enxergar.

“Precisamos que a Sophia seja independente, uma pessoa que trabalhe, se divirta, saia, tome decisões. Hoje ela tem 6 anos, é letrada, mas uma andorinha só não faz Verão, por isso buscamos propiciar às mães uma forma de ajuda para não terem a ideia de que o filho é um coitadinho. Se a mãe não desiste, estimula e apoia, é muito possível que o filho consiga ser um cidadão inclusivo”, reforça.

No portal Minha Down é Up! (www.minhadowneup.com.br) são divulgados os eventos promovidos pelo projeto e apresentados seus parceiros, além de artigos sobre a Síndrome de Down e as seções apoio à família, saúde e direitos.

Vamos falar sobre autismo?

Alexandra Oniki é fundadora do Ciaag (Centro de Inclusão e Apoio ao Autista de Guarulhos). Para ela, tudo começou com o descobrimento do Transtorno do Espectro Autista (TEA) do filho Lucas.

“Eu não conhecia o autismo; o único tipo de informação a que eu tive acesso era a propaganda da AMA (Associação de Amigos do Autista) que mostrava uma pessoa autista se balançando. Quando o Lucas nasceu, eu não tinha ideia de que ele pudesse ser um autista. Como mãe, eu sabia que tinha alguma coisa errada, pois ele era diferente. Notava que havia coisas que toda criança fazia e ele não. Como é meu primeiro filho, questionava os médicos, mas no início até os pediatras diziam que ele era normal e que era o jeito dele”, diz Alexandra.

A confirmação veio durante o início da vida acadêmica, quando chamaram Alexandra pela primeira vez em uma escola por desconfiarem que Lucas era surdo. “Falavam com ele e não obedecia, não olhava e não respondia pelo nome. Mas surdo eu tinha certeza que não era, pois em casa ele interagia com os desenhos animados. Eu o levei ao otorrinolaringologista, fiz todos os exames necessários: tudo normal. Aí me encaminharam para o psicólogo. Do psicólogo para o neurologista e, por meio de exames neurológicos, fui informada que meu filho tinha distúrbio invasivo de desenvolvimento. Não fazia a menor ideia do que significava. Foi quando a médica me perguntou se eu conhecia o autismo. Ela explicou que a doença não tinha cura e que eu teria que aprender a conviver com uma nova realidade”.

Afora a descoberta, Alexandra ainda teve que lidar com os maus tratos que o pequeno sofreu na passagem por algumas escolas. “Depois de passar por essas situações, já meio desiludida, fui conversar com uma das médicas do Lucas, a fonoaudióloga Marielaine Iria Merli Martins Gimenes. Sugeri a ela que montássemos um centro para autistas, porque naquele momento não via outra solução para o meu filho e nem para outras crianças que partilhavam do mesmo problema. A Marielaine já tinha esboçado um projeto, só que não tinha tempo. A partir disso, comecei a correr atrás de tudo que era necessário para montar uma associação. Em setembro de 2010, fundamos o Ciaag. A sensação que tive no dia da inauguração foi como se eu estivesse parindo um filho para o mundo (risos). A minha alegria foi muito grande, difícil até de explicar”, conta.

Nesses 9 anos, não foi nada fácil manter o Ciaag aberto, mas hoje a associação atende 100 crianças com idade de 2 a 16 anos, oferece apoio pedagógico, atividade de vida diária, educação física entre outras atividades. Para as famílias, apoio psicossocial em grupo e oficinas de geração de renda.

“Temos hoje na espera 110 crianças. Nosso maior desafio é conseguir uma sede própria, parcerias para os atendimentos e a ampliação dos atendimentos”, ressalta.
Quem quiser contribuir com o Ciaag pode contatá-lo pelo tel. 4307-6634 ou pelo site www.ciaag.org.br. A sede fica na rua José Maurício de Oliveira, 133, Gopoúva.

Otacília: 110 anos, 15 filhos e mais de 60 netos

Você já conheceu uma mãe com mais de 100 anos de idade? Pois nós lhe apresentamos a dona Otacília, que completa 110 anos dia 11 de maio, tem 15 filhos, 62 netos, bisnetos e tataranetos e, pasmem, muita saúde.

Nascida em Alagoas, Otacília Gomes de Oliveira chegou a São Paulo na década de 1950, e veio morar em Guarulhos em 1976, há 43 anos. De todos os filhos, não tem o que reclamar de nenhum. “Todos são muito queridos, nenhum me deu trabalho, graças a Deus”, garante ela.

Como o coração é grande, ser mãe de 15 não bastou, Otacília passou parte da sua vida ajudando muitas outras mães em seus 40 anos de ofício como parteira e benzedeira, sem nunca cobrar nada. Tanto que a sua longevidade e saúde, para ela, são frutos do seu trabalho. “Acho que é por isso que estou viva ainda, porque eu não tenho conta, não sei quantas crianças ajudei a colocar no mundo. Fiz parto até de trigêmeos. Fui madrinha de muitas crianças. Hoje tem crianças que benzi que são já pais de família”, relembra.

O peso da idade lhe compromete apenas a audição, e o fôlego obviamente já não é mais o mesmo dos tempos em que às vezes fazia três partos em um dia. Mesmo assim, Antônio José, seu filho caçula, garante que ela leva uma vida normal.

Otacília também foi costureira e dividia seu tempo entre as roupas e os partos. “Fazia tudo. Vestido, roupa de noiva, calça, camisa, só não fazia bem paletó, porque dá um trabalho danado”, conta aos risos. Inclusive, católica devota do lendário padre Cícero, chegou a confeccionar uma batina especial para ele.

Demi e sua dedicação ao Plantão da Solidariedade

Nascida em Ibicaraí (BA), vivendo há 33 anos em Guarulhos, Ademilde Vieira, prefere ser chamada de Demi. Mãe de três filhos homens – Márcio Henrique, George e Salmo –, ela teve um quarto filho. “Mas esse já está com Deus”, diz. Há 21 anos, Demi quis realizar um sonho e resolveu adotar uma menina, que foi buscar na Bahia. Alana tinha seis dias e agora, casada, está grávida.

Tendo ficado viúva muito nova, Demi preferiu não se casar novamente, por temer que os filhos pudessem ser maltratados ou recebessem má influência. Trabalhando muito, fez com que nunca faltasse nada a eles, estando os três formados em nível superior. “Sou mãe leoa: fui pãe e mãe e quero todos por perto. E os três adoram a Alana, o que me deixa feliz”.

Católica praticante, Demi passou a residir no Parque Cecap há dez anos e a frequentar a Paróquia de São Roque. Há nove anos, o padre Fabrício Bezerra Lopes tomou a iniciativa de criar um trabalho social, visando atender famílias carentes das comunidades da Hatsuta e do Baquirivu. Demi abraçou a causa de imediato; foi formada uma equipe com 14 pessoas, mas pouco a pouco foram saindo. Quando havia ficado só ela, o padre indagou o quê iriam fazer. Demi respondeu que iria até o fim. Assim fez, aos poucos foi conquistando outras pessoas e o trabalho se desenvolveu.

Atuar como voluntária só aumentou sua disposição para superar desafios. O Plantão da Solidariedade fornece a cerca de 110 a 120 pessoas, três vezes por semana, até 220 refeições por dia. Demi cita casos comoventes de quem caminhou quatro horas até chegar à Igreja. “O homem veio do Cabuçu a pé e quando chegou não tinha mais comida. Ele contou que estava há três dias sem comer. Foi de cortar o coração. Mas demos um jeito com algumas coisas que tinha na geladeira”. Um pai desempregado chegou pedindo feijão, pois era aniversário da filha e era esse o presente que ela queria. “Fizemos mais: ele levou uma cesta pra casa”, relembra, feliz.

Ela defende que precisaria haver menos desigualdade, mas também critica a falta de cuidado de muita gente. “Tem uma mãe que assistimos, com dez filhos e está esperando mais um. Nesses casos, tinha de fazer uma laqueadura, pois essas crianças vão sofrer muito”, comenta. Indagada como obtém os ingredientes para preparar as refeições, responde que nunca falta nada: “De um lugar ou de outro, as coisas aparecem. É feijão, arroz, verdura, dinheiro. Deus não tem deixado faltar. Tem muita gente que ajuda e não geramos despesa para a Paróquia. Os comércios poderiam colaborar mais. É um trabalho voluntário que faço com muito gosto. Sou devota de Maria, faço por amor a Jesus”, conta.

Parte das doações chega graças à página do Plantão da Solidariedade no Facebook, por meio da qual quem quer doar pode se informar sobre o que se está precisando. No dia 11, na quadra de bocha, a Escola de Samba do Cecap fará a Macarronada Beneficente, para angariar recursos para o Plantão.

Para manter a casa, Demi faz salgados para eventos, principalmente para retiros do pessoal da Igreja. “A página Delícias da Demi mostra o que faço. É um trabalho prazeroso, une o útil agradável”, finaliza.

“Farei tudo que puder pela minha filha”, diz Sandra

Sandra Bernardoqui Carleto é prima em primeiro grau do jornalista Valdir Carleto, da Weekend. Ela mora em Pirassununga e tem dois filhos. Stephanie, de 23 anos, sonhava cursar Medicina, mas há cerca de quatro anos, foi diagnosticada com depressão e esquizofrenia, gerando internação em uma clínica psiquiátrica.

Após isso, a menina retornou aos estudos, preparando-se para o vestibular, mas em 24 de outubro de 2018, quis ir à praia. Sandra a levou ao Guarujá, onde reside uma prima. Porém, Stephanie sofreu um afogamento no mar, ao escorregar de um morro. Foi socorrida e hospitalizada, tendo ficado 40 dias na UTI naquela cidade litorânea. Em dezembro, foi transferida para Pirassununga, mas contraiu uma bactéria hospitalar e desde então, sobrevive em casa, em situação muito grave. O laudo médico é de encefalopatia hipóxica após afogamento, que gerou diversas sequelas neurológicas. Ela está afásica, não responsiva, acamada, traqueostomizada, dependente de oxigenoterapia e recebendo dieta via sonda nasoenteral.

“Como amor de mãe é imenso, farei tudo que puder para salvar minha filha”, afirma Sandra. Aposentada, ela continua trabalhando na Unimed da cidade. A operadora de saúde montou um quarto semi-intensivo na residência e subsidia medicamentos e alimentação enteral. No entanto, devido ao estado da jovem, é preciso haver cuidado integral, 24 horas por dia, o que exige o revezamento de quatro técnicos de enfermagem.

Para pagar esses profissionais e o custo elevado de energia elétrica e de materiais, o valor chega a R$ 10 mil mensais. Uma campanha pelo Facebook obteve ajuda de muita gente e arrecadou o suficiente para dois meses, mas, mesmo contando com apoio de toda a família, não há de onde tirar tantos recursos de agora em diante, já que não existe uma previsão de por quanto tempo a situação irá perdurar.

Por isso, a campanha para obter doações precisa continuar. “Minha menina, que sonhava poder ajudar o mundo, hoje precisa de ajuda. Qualquer quantia será muito bem-vinda. E que Deus abençõe a todos que puderem colaborar”, conclui.

As doações podem ser feitas a crédito da própria Sandra, no banco Sicoob (756), agência 5032, conta 100.505-7, CPF 079.934.678-02; ou para o avô da menina, Antônio Luiz Carletto, no Banco do Brasil, agência 0163-5, conta 15102-5, CPF 062.725.928-68.

Textos: Tamires Monteiro e Valdir Carleto

Fotos: Alexandre de Paulo e arquivos pessoais