Espetáculo Dom Quixote de Guarulhos: uma consciência de arco-íris remonta o teatro de bulevar, uma das formas de teatro popular

À primeira vista, vendo o semicírculo formado pelos atores e atrizes de Quixote, no palco do Teatro Padre Bento, parecia estar diante de uma praça, um bulevar, lembrando o que se imagina terem sido as comédias populares dos séculos XVII e XVIII, e depois o melodrama do século XIX. Combinando uma série de expedientes característicos do teatro popular, como a estrutura em versos,  entremeando canto e dança, o texto de Wilson Fumoy, que também dirige a montagem, privilegia o humor que critica a sociedade e poderosos de modo bastante sutil.

Segundo o professor Alexandre Mate (referência completa do artigo A sedução do teatro de feira no fim desta página) “De modo esquemático, parte do teatro popular, herdeiro da farsa medieval e da commedia dellarte (expulso da França, no século 17) fora substituído, nos palácios, pelo teatro literário. Entretanto, durante o processo revolucionário (Revolução Francesa), certos tipos de espetáculos populares receberam novo impulso e, ao se desenvolverem, permitiram o acesso à grande maioria da população.

Quixote é uma personagem que vive nas ruas de Guarulhos e que, como catador de materiais reaproveitáveis ou vendáveis, passa a colecionar livros. A relação estabelecida com o arquetípico Dom Quixote, traz à tona a idealização da cidade e suas mazelas, como a construção de uma ilha e a discussão de sua utilidade. Tiradas jocosas mencionam os nomes dos bairros, lugares desconhecidos para a maior parte da população, que conhece fundamentalmente seus arredores, cada qual com os problemas característicos e insistentes. Paralelo a isso, esse cidadão Quixote, para além da possibilidade efetiva de transformar o mundo, interfere no cotidiano de seu entorno. Os livros, considerados um dos paradigmas da arte como parte da cultura, o mobilizam decisivamente.

Dado como louco, em contraponto a tudo que se passa no lócus que pode ser qualquer bairro, cidade, estado, país, sua lucidez, diante da indiferença humana, sensibiliza aqueles que se identificam com a personagem representada pelo experiente ator Edson D’ávilla, da Cia Naíka de Teatro desde seu início. Seu envolvimento com a trama e encarnação de Quixote se relacionam ao empenho dos artistas comprometidos com a transformação social a luta diária para fazer viver sua arte e buscar humanizar as relações. Com seu fiel Pancho (interpretado por Thiago Matos), juntamente com a impossibilidade de Sancho compreender a complexidade dos sonhos quixotescos, encontra o lugar-mulher também ideal: Doce Maia (Gabriela Pietro), fazendo alusão à Dulcineia, do original de Cervantes, e ao Bosque Maia, local dito “privilegiado”, “bairro nobre”, se é que isso é possível num país subdesenvolvido  e portanto à margem do sistema capitalista.

Todo e qualquer lugar desse sistema é periférico, se considerarmos a realidade e tivermos a disposição de nos colocar no lugar do outro (afinal, qual o sentido primordial do teatro, lugar de onde se vê?), tanto na perspectiva social quanto artística, para além da visão “umbigocêntrica” e arbitrária. Assim, a pesquisa dramatúrgica de Fumoy – que já teve textos dirigidos por outros diretores, como Os arquivistas, em projeto de José Renato, dirigido por Francarlos Reis, em 2004, em cartaz em São Paulo -, chega a sua melhor forma e execução, com texto atrelado à encenação muito bem marcada e desenhada, com referências ao valdeville (comédia entremeada com canções, que antecede o surgimento da burleta e opereta), comédia de costumes, comédia histórica (reapresenta personagens históricas como revistas de cenas espetaculares) e o melodrama (forma mista que mistura diferentes categorias dos gêneros citados). Junto disso, o coro de Anhúmas e as personagens da história representadas pelo elenco: Daniel Ferraz, Danilo Félix, Gabriela Pietro, Regiane Neves, Ricardo Guarel, Paulo Andrade, trazem à tona as figuras populares em contenda com os poderosos de nosso dia a dia. Sem final feliz, no sentido clássico, Quixote é suplantado, por aqueles que usam da violência, na ausência de argumentos consistentes, ao buscar seus intentos. Porém, o legado do anti-herói permanece naqueles que insistem no trabalho como ação transformadora desse estado de coisas e na utopia.

Dom Quixote de Guarulhos. Texto de Wilson Fumoy, com a Cia. Naíka de Teatro.
Projeto financiado pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro e à Dança de Guarulhos

Entrada Franca
15 de julho – hoje – 19h – Teatro Adamastor – Av. Monteiro Lobato, 734 – Macedo
18 de julho – sábado – 17h – Calçadão da Dom Pedro – Rua Dom Pedro II, s/nº
Informações:
DR&T Produções Artísticas – Fone 2358-6704
Avenida Otávio Braga de Mesquita, 1299 – Vila Fátima – Guarulhos
http://www.drtproducoes.com.brwww.drtproducoes.com.br

Para saber mais, leia artigo de Alexandre Mate em Portal R7 – http://entretenimento.r7.com/blogs/teatro/2013/08/01/coluna-do-mate-a-seducao-do-teatro-de-feira/