Por Michele Barbosa

Quebrando o paradigma de que todo casal precisa ter filhos, uma visão de quem vive sem crianças e afirma constituir uma família completa e feliz, mesmo sem herdeiros.

E eles casaram, não tiveram filhos e viveram felizes para sempre… Essa é a realidade de um número de casais que cresce cada vez mais. Pelo menos é o que revela a pesquisa Síntese de Indicadores Sociais (SIS 2014), elaborada pelo IBGE com base nos dados coletados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD 2013). O levantamento mostrou que o número de famílias formadas por casais sem filhos chegou a 19,4% em 2013; em 2004, esse índice era de 14,6%, o que representa um crescimento percentual de 33% em uma década. Isso significa que uma em cada cinco famílias brasileiras é formada apenas pelo casal.
De acordo com a psicóloga Sueli Castillo, as razões para essa escolha variam de acordo com cada casal. “Tudo depende da história de vida, cultura e sociedade em que está inserido, da religião que pratica e, principalmente, do desejo e da necessidade desse casal”.
Sueli explica que apesar de muitos fatores contribuírem para a decisão de não se ter filhos, alguns casais simplesmente não têm o principal: o desejo de se tornarem pais, como é o caso de Thais Mendonça de Mauro, 27, assistente financeiro e Renato de Mauro, 34, programador. “Nós nunca cogitamos a ideia de ter filhos, isso jamais passou em nossa cabeça”, afirma Thais.
Quando é questionado sobre essa decisão, o casal conta que tenta explicar o motivo, mas que muita gente não entende, acha um absurdo. “É muito chato e desagradável, as pessoas poderiam respeitar mais, mas elas acham que estão certas e nós estamos errados diante dessa escolha. Mas confesso que às vezes nem discuto, pois percebo que a pessoa é ignorante para alguns assuntos”, diz Renato. Segundo Sueli, essa é uma decisão de foro íntimo. As pessoas buscam motivos e justificativas para tudo, na própria vida e na dos outros. “Aceitar que cada indivíduo é único, que as verdades só são absolutas para quem as cria e que o outro tem deveres e direitos, são itens fundamentais para a boa convivência. Os seres humanos são diferentes entre si, mas não desiguais. Portanto, cada um tem o direito de escolha em qualquer atitude de sua vida”, justifica.
São várias as razões que levaram o casal a não ter filhos, mas as principais são as responsabilidades em gerar, criar e educar. “É muito arriscado ter filhos atualmente, sem contar que gostamos de sair e viajar, e uma criança atrapalharia nossa rotina”, pontua Thais, que finaliza: “Não nos falta nada, somos felizes e temos a nossa ‘filha’ de quatro patas, a Kiss, uma lhasa apso que é a alegria da casa. Juntando, nós três somos a família que escolhemos ter”.

Preste atenção: pet não substitui filhos

Ao contrário do que muita gente pensa, casais que não têm filhos, mas adotam um pet e o tratam como membro da família, não estão transferindo o amor de uma criança para um animal. É o que afirma a psicológa Sueli Castillo. “O amor não segue regras. Não existe uma lei que obrigue os seres humanos a amarem somente seres humanos. Nota-se um enorme preconceito. O que não é bom é a humanização do animal, pois mantê-lo em sua natureza é essencial. Porém, isso não significa não poder amá-lo, e não vejo como substituição. Quando se necessita de tijolos para construir uma casa, não adianta substituí-los por água. Coisas diferentes não se substituem”.

Não era para ser

Ao contrário de Thais e Renato, a assistente administrativo Luciana M. de Toledo Cunha, 41, e o conferente líder Alexandre Ferreira da Cunha, 42, mantiveram-se firmes na escolha por não ter filhos, antes mesmo do casamento, por causa da questão financeira; mas pouco tempo após o casamento mudaram de ideia. Alexandre e Luciana desejavam um menino e discutiam quem iria cuidar da criança. Entre os planos, uma lista com os possíveis nomes. “Parei de tomar os remédios contraceptivos e como os filhos não vieram, desencanamos da ideia e optamos por viver apenas a dois”, explica Luciana.
As cobranças por parte dos familiares são constantes, principalmente em festas e reuniões de família. “Não me sinto à vontade,: sempre o mesmo papo. Sou muito medrosa em relação a parto e procedimentos médicos. Sem contar que a idade influencia. Sei que a medicina está avançada, mas é melhor não arriscar”.
Alexandre diz que Deus sabe de todas as coisas e que eles são felizes mesmo sem filhos. “Vivemos rodeados de crianças que nos adoram. Os filhos de um amigo meu, que faleceu, me consideram como pai e na igreja que frequentamos, uma linda garotinha chama minha esposa de ‘mamãe Lu’. Sem contar nossos sobrinhos. É uma ligação de alma, sentimento puro, verdadeiro e lindo”, conta o conferente.
Apesar de ser um projeto do passado que não aconteceu, Luciana acredita ser melhor assim. Poder dormir na hora que quiser, sair para uma festa sem preocupação e não ter ninguém dependendo de sua atenção e cuidados, são benefícios que valem a pena para quem não quer ter filhos. “Se a maternidade fosse prioridade na minha vida, com certeza eu correria atrás desse sonho, mas não é”.

Couple watching TV togetherTem alguma coisa errada?

O que os casais sem filhos, por opção própria, escutam “da sociedade” não é brincadeira. A realidade é que as pessoas não se acostumaram com o fato de que é possível formar uma família a dois. Para isso, algumas afirmações são inevitavelmente feitas para quem opta por não ter filhos:

• Logo enjoam um da cara do outro, tem que ter criança correndo pela casa para sair da rotina. – “Não acredito em monotonia, rotina ou separação pela falta de filhos. Caso assim o fosse, o número de separações entre casais com filhos seria muito pequeno, o que não representa a realidade”, explica a psicóloga Sueli Castillo.

• Vocês vão se arrepender quando ficarem velhos. – Segundo Sueli, não podemos prever o futuro quanto às decisões que tomamos no presente. “Também não temos esse controle sobre todos os erros e acertos que cometemos em nossas vidas. Impossível controlar todas as variáveis, uma vez que o excesso de controle acaba por descontrolar nossa estrutura psíquica. O mais importante é que, em qualquer decisão que tenhamos que tomar, estejamos cientes das consequências e da responsabilidade em relação à nossa vida”;

• O que seu marido pensa sobre isso? – Para Sueli, por ser uma decisão de extrema importância na vida de um casal, tudo deve ser conversado antes da união de marido e mulher. “O que ocorre por vezes é um dos parceiros tentar mudar a conduta ou o pensamento do outro frente a esse fato, porque acredita que com o tempo o outro irá ceder ou mudar de opinião. Com isso, o conflito é criado. Portanto, vejo que a conversa e o acordo entre ambos são fundamentais para a vida saudável do casal”;

• Mas vocês adoram crianças – Não é pelo fato de amar e andar rodeado por crianças que obrigatoriamente o indivíduo será um bom pai ou boa mãe. “Ter filhos requer vontade de tê-los e muita responsabilidade em criá-los. Quando uma pessoa tem vontade de ter filhos, mas ao mesmo tempo tem medo, por diversos motivos, é possível sim, trabalhar esse sentimento. Mas se gostam de crianças, mas não querem tê-las, não vejo porquê não aceitar; há de se entender e respeitar os motivos desse casal”, finaliza a psicóloga.

• Tem medo de estragar o corpo? – Quem quer ser mãe e tem essa certeza sabe que a gravidez é um estado natural que não traz prejuízos ou danos ao corpo da mulher, claro que com os devidos cuidados. “Não comer além da conta, hidratar a pele e fazer uso de cosméticos e procedimentos estéticos próprios para gestantes, ajuda muito a manter a forma. Amamentar até o sexto mês também auxilia a perder o excesso de peso que se ganhou na gestação”, explica Silvana Gomes Guedes, fisioterapeuta e dermaticista.

• Foi pensando nessas questões que a psicóloga, pedagoga, filósofa e atuante na área de Recursos Humanos, Margareth Moura Lacerda, e seu esposo, Edson Fernandes, doutor em comunicação, pesquisador, professor e escritor, escreveram o livro “Sem filhos por opção – Casais, solteiros e muitas razões para não ter filhos” (Editora NVersos, 2012). “Nossa intenção foi que os casais pudessem tomar a decisão tanto de ter como não ter filhos, de forma mais consciente, e percebessem que sempre haverá consequências, seja qual for a escolha”, explica Edson.
O tema é abordado com análise sociológica, psicológica e histórica com dados estatísticos fornecidos pelo IBGE e entrevistas com casais que optaram por não ter filhos. Edson fala que ele e sua esposa sentem na pele o preconceito das pessoas que acham um cúmulo um casal sem filhos. “Não somos contra as pessoas terem filhos; pelo contrário, cada família deve tomar essa decisão como um fundo de felicidade para o casal. Certa vez um ginecologista nos perguntou se queríamos fazer tratamento para termos filhos, somos férteis e nem mesmo ele havia cogitado essa hipótese”.
Em um trecho do livro, os autores enfatizam: “No Brasil, é preciso coragem para não ter filhos, você é visto como um extraterrestre, uma pessoa ‘anormal’. É um mito criado desde a época do Iluminismo na França. O preconceito surge como uma forma de resistência sobre algo que você decide fazer e a maioria não entende e repudia, sem compreender seus verdadeiros motivos”.