Ex-batedor de carteiras transforma-se em multiempreendedor

Foto por Rafael Almeida

Por Amauri Eugênio Jr. e Fábio Carleto

Sila da Conceição, 63, teve tudo, menos uma vida normal: ele viveu nas ruas dos 7 aos 19 anos, e foi batedor de carteiras dos 19 aos 29, quando decidiu deixar a “carreira” para trabalhar no Ver-o-Peso, em Belém (PA), maior feira a céu aberto da América Latina. Com determinação e força de vontade ímpares, ele jogou contra todas as adversidades e tornou-se um empreendedor, no sentido pleno da palavra. Com o passar do tempo, adquiriu uma frota de táxis superior a 300 carros, sem um centavo sequer dos tempos em que era batedor de carteira. Sua história é retratada no livro “Danem-se os normais” (Casa da Palavra), escrito por João Estrella de Bettencourt e Mariana Torres. Mais algumas coisas: Sila é do tipo de pessoa que tem disciplina de dar inveja em muita gente, faz da verdade o seu lema de vida e não se arrepende do que já foi feito – “quem não respeita o passado condena o seu futuro”, diz, como se fosse o seu mantra. Isso sem contar que ele é adepto da máxima “Querer é poder”, ao ponto de tê-la tatuada em seu braço direito. Ele foi entrevistado na Revista Guarulhos de abril/2015.

RG: Você estava falando dos 7 aos 19 anos, que foi o período em que ficou na rua, e dos 19 aos 29, quando batia carteira.
Muitas pessoas pensam que fiquei milionário batendo carteira. Pensam que o crime dá alguma coisa, mas toma a liberdade. Fiquei dez anos no crime e o via como meio momentâneo de sobrevivência. Eu sabia que eu iria sair dali em algum momento, até porque se eu tinha coragem para roubar, eu teria para trabalhar. Era só colocar a coragem que eu tinha para roubar, para trabalhar. E graças a Deus deu certo. O que ganhei no crime foram conhecimento de convivência e sofrimento.

Você ficou no presídio da Papuda (DF) e no Carandiru, e na segunda vez lá, percebeu que não queria isso para a sua vida.
Fui duas vezes ao Carandiru e aquilo era o inferno na torre. Vi que alguns homens faziam dali o seu mundo, e eu sabia que ser visto como um bom ladrão era uma febre que iria passar. Vi pessoas com 40, 50 anos que já não tinham o mesmo talento. Uma sacada legal que tive foi parar de roubar aos 29 anos, pois eu estava com força e condição psicológica para trabalhar. Eu não fui aluno em nenhuma escola, mas nasci dentro de uma escola que era o mundo. Por ter nascido lá, procurei aproveitar de tal forma que continuo aprendendo até hoje.

No tempo em que você trabalhou no Ver-o-Peso…
Eu não tinha outro recurso a não ser voltar para o Ver-o-Peso. Como eu já havia estado ali quando era criança, eu tinha um lugar aberto. Trabalhei lá por um ano e 34 dias, e consegui juntar 53 cruzeiros. Usei 50 para comprar um consórcio, que já estava sorteado com um Fusca 1979 [modelo 1980], com 32 prestações pagas e 22 a pagar. Coloquei uma placa de táxi e fui trabalhar, sem carteira de motorista. Deveria pagar o carro em 22 prestações, mas paguei em 6. Após isso, eu queria ter dez e, após ter dez, vi que poderia ter cem. E assim foi. Digo que o meu nome é trabalho e o meu sobrenome, hora extra.

É verdade que quando você tinha 50 táxis, dormia no chão com os filhos até chegar a 100?
Eu queria ter 100 carros e, para isso, eu não poderia gastar nada além do necessário. Aluguei uma casa e coloquei os meus filhos para dormirem em um colchão, e dizia para eles que naquele momento eles iriam dormir em um colchão, mas um dia teríamos 100 carros. Graças a Deus, ele me ouviu bastante. Na mesma pegada que te disse, cheguei a 306 carros, que foi o meu máximo.
Quando você entrou no universo das construtoras?
Em uma construtora, comprava-se o apartamento na planta, que era o sonho, mas a entrega demorava. Eu queria fazer a diferença: não vender sonho, mas sim realidade. Foi por isso que criei uma construtora. Mas algumas coisas foram me atrapalhando nesse segmento, no que diz respeito a prometer e não cumprir. Vim de um mundo em que você tinha de manter a palavra e, como achei estranho, preferi dar uma parada. Agora, nos Estados Unidos, eu compro o imóvel para reformar e vender depois.

Uma fala emblemática sua diz respeito à retidão e à disciplina.
Sempre falo que no Brasil, as pessoas pensam que honestidade é comprar e pagar. Mas para ser honesto com alguém, é necessário ser honesto consigo mesmo antes. Você não pode crescer na vida se não tiver foco, meta, e se não cumprir o que fala. Detesto normalidade e falta de compromisso.

O que você define como ser normal?
Costumo falar que 80% dos seres humanos morrem sem pensar, pois são os que devem e não têm compromisso. Uns 15% pensam que pensam; são os que, por exemplo, moram em uma cobertura e se acham melhores do que quem mora no primeiro andar. Já os demais 5% pensam são os que têm habilidade para viver com os outros 95%. O ser humano é complicado, mas dependemos dele mais do que do dinheiro. Para mim, o ser humano é o maior patrimônio que existe. As pessoas falam que o dinheiro é a mola do mundo, mas para mim são Deus e o ser humano.

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O dinheiro é o meio, não o fim.
Algumas pessoas querem ter poder de compra, mas digo que quero ter poder de conquista, pois me sairei melhor do que eles. O que é comprado não tem valor, enquanto o que é conquistado é mais gostoso. O que é primordial para mim é o saber fazer dinheiro, pois se eu tiver R$ 1 milhão nas mãos, eu não vou saber o que fazer com esse dinheiro. Mas se eu souber como fazer, vou saber como chegar a 1 milhão. A maior riqueza do ser humano é o saber. Sabe por que não acredito em dinheiro? Saí de casa aos 7 anos e não levei dinheiro, e sobrevivi lá por 12 anos. Virei ladrão aos 19 anos, e sobrevivi por dez anos comendo, bebendo e me vestindo bem. Não estou fazendo apologia ao crime, pois se fosse bom, eu não teria saído do crime. Quando eu era ladrão, eu colocava a mão nas coisas dos outros, mas quando me convidaram para ser estelionatário, eu não ia, pois precisava mentir e não sei mentir. Comecei a ver [naquela época] que a maior malandragem do mundo é ser honesto.

Qual é o seu interesse ao lançar o livro “Danem-se os normais”?
O meu interesse no livro não é dinheiro, mas sim salvar uma pessoa. Passei pelo inferno várias vezes, mas o Carandiru foi um dos maiores. Imagina eu tirar um daqueles caras daquele inferno e trazê-lo para o outro lado? Querer é poder. Digo que o único jeito para acertar é querer, pois quando você quer, todas as pessoas ao redor se interessam por ti. Se uma se interessar, as outras vão querer entende o porquê. Enquanto a pessoa está viva, ela tem interesse.

O dinheiro do táxi tinha reserva do crime?
Se eu tivesse começado a minha vida com o dinheiro do crime, ia começar errado. Fui zerado para a barraca do peixe. Se eu levasse algum valor do crime para começar, não teria valido nada. Eu tinha de começar do zero. Não tenho dinheiro, mas tenho articulação para fazê-lo acontecer.

Quantos caras você tornou empreendedores, donos do próprio negócio ou do ganha-pão?
Um bocado, até acima da expectativa. Acredito que, dentro dessa leva, atingi os 5%. Parece frustração, mas não é: crio condições para uma pessoa ter 50 táxis e gerenciá-los. Se ela for melhor do que eu, isso vai me envaidecer, pois o mérito é dele. Ainda mais vaidoso eu ficaria se ele fizesse com outra pessoa o que fiz por ela. Mas quando ela se vê realizada e começa a fazer apenas a própria vida, ele se torna um normal, pois ela não criou outro ser humano. Um dia, ela vai morrer e não vai ter ensinado quem esteve ao seu redor. É uma vela se apagando.
Quantos caras fizeram por outros a mesma coisa que você fez por eles?
Nenhum. Por exemplo, há um cara de quem gosto como filho. Houve uma época em que tive três carretas Mercedes e esse cara, influenciado por outras pessoas, dizia que eu estava trazendo cocaína de São Paulo e do Rio de Janeiro nelas. Pois bem, eu gosto dos meus inimigos por perto, que é para tê-los ali. E esse cara “quebrou”. Eu o trouxe para perto de mim e, pouco tempo depois, ele foi sincero, me contou o que havia dito e disse que não merecia essa chance. A primeira coisa que eu queria era reconquistar o crédito dele. Ele topou e teria de me obedecer. Peguei alguns carros que estavam em Macapá (AP) e Manaus (AM), e financiei para ele. Criei para ele uma máquina de fazer dinheiro, que ele administrava e repassava uma parte para mim. Chegou um momento em que ele disse que eu era um desbravador, mas não conseguiria me acompanhar. Algum tempo depois, ele disse que estava tentando criar pessoas, tal qual eu fazia, mas não estava conseguindo. Ele tentou. Construir um ser humano é a coisa mais difícil da vida. Se perguntar se já sofri como ladrão, mendigo ou passando fome, vou dizer que não. Eu sofro hoje. Sabe quais seres humanos que eu queria construir? Os meus filhos. Construí outras pessoas, mesmo em número reduzido, menos eles.

Sobre esse patrimônio que você diz não ser seu: por que você tem?
Não tenho medo de morrer, mas vou dizer que tenho pena dos que irão ficar. Hoje, tenho pessoas ao meu redor que precisam de um patrimônio. Eu não, pois preciso de muito pouco para viver. A minha maior preocupação, que talvez seja um defeito, é me preocupar com quem está à minha volta e que não sabem fazer nada, pois eu sei fazer. Não tenho dinheiro, mas sei como chegar até ele. Sou apto a encarar qualquer situação pela sobrevivência, mas quem está ao meu redor não.

Ao dar conforto para esses caras, você não os está prejudicando?
Desde o início. Se me perguntar se cometi algum erro, diria que foram dois: um quando cheguei aos 100 táxis e, na euforia, comprei um apartamento, em plena avenida Nazaré [Belém] e os levei. Eles acharam que eu fosse rico. O segundo erro foi colocar um relógio de R$ 50 mil no pulso, e um cara tentou pegá-lo. Eu estaria abusando de mim mesmo. Com esse valor, eu poderia fazer algo, não apenas que só eu fosse servido.

Apesar de não saber ler e escrever, você é uma pessoa extremamente sábia. Como você lida com pessoas letradas que tentaram passar a perna em você?
Procuro sempre ver quando uma pessoa é de má índole. Se a pessoa vem pensando em fazer isso e vê que não tenho dinheiro, ela vai embora. Todos os que tentaram me enganar não o fizeram, mas enganaram a si mesmas. Uma pessoa com o meu currículo não pode ser muito besta. Não é porque não sei ler ou escrever, que eu seja idiota.

Como você se define?08.04.2015_RA-10
Sou um monstro e um animal. Mesmo assim, você acredita que tem o animal do bem? A minha assessoria de imprensa mandou fazer uma pesquisa sobre a minha vida, para saber qual animal eu seria. Conseguiram definir que eu não seria um animal traiçoeiro. Sou um cara que joga aberto, que até te ataca, mas com a