Ex-morador de rua, o lutador Davi Albino quer a sua medalha nas Olimpíadas do Rio de Janeiro

por Luiz Humberto Monteiro Pereira

jogoscariocas@gmail.com

            Às vezes, o esporte tem uma função redentora. Davi Albino sabe bem disso. Tinha 4 anos quando a família foi expulsa de casa pelos traficantes de drogas. Junto com a mãe e os dois irmãos, foi morar numa praça em um bairro nobre da capital paulista. Depois de três anos vivendo nas ruas, a mãe arrumou um emprego como faxineira e alugaram uma casa no Capão Redondo, na periferia paulistana. Davi continuou a trabalhar na mesma praça, como guardador de carros. Um dia, uma pessoa para quem arrumou vaga para estacionar peguntou se ele não gostaria de conhecer um esporte. Foram ao Centro Olímpico Ibirapuera, onde descobriu muitos esportes – acabou se fixando na luta greco-romana. Em 2009, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde treina a seleção brasileira. Foi seis vezes campeão nacional e conquistou três sul-americanos, mas sua maior emoção foi a medalha de bronze conquistada no Pan de Toronto, em julho. Os planos para o futuro se resumem a um só. “Todos os atletas de alto rendimento dormem, acordam, almoçam e jantam as Olimpíadas do Rio de Janeiro. Já sonhei dormindo e acordado”, admite o lutador de 29 anos, 1,87 m de altura e 98 kg.

Jogos Cariocas – O que levou um adolescente guardador de carros a se interessar pela luta greco-romana?

Davi Albino – Eu guardava carros numa praça no bairro de Moema, na capital paulista. Um dia, o professor Joanílson Rodrigues, que sempre parava o carro lá, perguntou se eu não queria ir ao Centro Olímpico Ibirapuera. Disse que era treinador de luta olímpica e que lá existiam muitas modalidades esportivas. E ainda tinha lanche! No início, fui pelo lanche. Depois, comecei a conhecer alguns esportes e gostei bastante. Cheguei a praticar boxe, judô e futebol. Até que, aos 16 anos, comecei na luta greco-romana e não parei mais. Quando ingressei na seleção brasileira e passei a lutar fora do país, percebi que queria representar o Brasil e me tornar um atleta olímpico. Graças ao esporte, hoje tenho casa e carro. Sou terceiro-sargento da Marinha, recebo a Bolsa Pódio do Ministério dos Esportes e conto com o patrocínio da Caixa, patrocinadora oficial da luta olímpica brasileira. A John Richards Aluguel de Móveis, onde eu trabalhei, também me ajuda até hoje.

Jogos Cariocas – Qual é a coisa legal de praticar a luta? E a parte chata?

Davi Albino – A melhor coisa é viver do que você ama fazer. Na luta, a determinação é fundamental. Todos os fundamentos precisam ser melhorados, tanto no ataque quanto na defesa. Até o que está bom ainda pode melhorar. A coisa chata é viver longe da família, da mãe e da filha. Para me dedicar ao esporte, tive que trocar São Paulo pelo Rio de Janeiro. Sempre que tenho folga procuro estar com elas.

Jogos Cariocas – Quais os títulos mais importantes que já conquistou?

Davi Albino – Fui o primeiro brasileiro a ganhar de um cubano em Cuba, que é um dos países mais tradicionais do esporte. Toda vez que vou ao país sou lembrado disso por eles. Sobre o bronze no Pan de Toronto, sempre lutamos pensando no ouro, mas foi a minha primeira participação e estrear com pódio  é muito melhor. A felicidade de receber a medalha no pódio é algo que vou levar pra sempre. Também sou o primeiro brasileiro a entrar no ranking da federação internacional de luta olímpica. Cheguei ao 13º lugar na minha categoria até 98 kg em 2015. E sou o atual vice-campeão no Pan-americano de Luta Olímpica.

Jogos Cariocas – Como estão suas chances de estar nas Olimpíadas de 2016?

Davi Albino – Teremos quatro chances de nos classificar. A primeira agora é de 7 a 12 de setembro no Mundial de Las Vegas, no Estados Unidos. Os seis primeiros de cada categoria se classificam. Em 2016, teremos mais três seletivas; uma continental e duas mundiais. Na continental, os dois primeiros se classificam. Na primeira seletiva mundial, ficam os três primeiros. E na última, os dois primeiros.

Jogos Cariocas – O fato de competir em casa pode representar uma vantagem para os atletas brasileiros?

Davi Albino – Com certeza. Imagina o ginásio todo gritando o seu nome e te empurrando para cima do adversário? Nas competições, fazemos todas as lutas no mesmo dia e precisamos estar em forma fisicamente. O grito da torcida pode levar a gente a tirar aquele algo a mais. À medida que os Jogos vão se aproximando, sinto que as pessoas estão se envolvendo mais. Tenho certeza que o Brasil vai dar show.

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