Por Amauri Eugênio Jr.

A edição nº 300 da Weekend exigia um tema especial. Durante a discussão sobre qual pauta faríamos, Douglas Caetano, que trabalhava à época como designer da equipe, falou em tom de brincadeira que poderia ser o filme “300”. Gostamos da ideia, mas faltava um gancho. Ela evoluiu e chegamos à Netflix. Ah, sim: a matéria caiu no meu colo, a começar por eu ser cinéfilo confesso e um nerd incorrigível.

Contextualização feita, vamos ao que interessa: bora fazer o login na Netflix e mergulhar na programação (ou melhor: no menu) do aplicativo. Para início de conversa, o serviço tornou-se popular por permitir ao usuário assistir ao que quiser, a qualquer hora. Isso abrange desde filmes a séries, passando pelos blockbusters até os cult. Ah, sim: quem curte palestras, como as da organização TED e apresentações de stand-up comedy, também pode aproveitar o serviço.

Há quem pergunte por que a Netflix passou a fazer parte do dia a dia de muita gente. A resposta é simples: isso é reflexo de transformações tecnológicas e da relação cada vez mais intensa que passamos a ter com o mundo digital. Em resumo, o modo como consumimos produções culturais é cada vez mais on line, assim como a maneira como nos comunicamos. Nesse caso, o streaming – que é a transmissão de dados em tempo real – e o on demand – que possibilita assistir ao que quiser e a qualquer hora – foram fundamentais para o sucesso da Netflix.

Antes, o consumo de todas as famílias acontecia em canais abertos da televisão. Depois, ganharam espaço os canais por assinatura. Mas, recentemente, a adesão ao formato online, em especial à Netflix, tem sido cada vez maior, principalmente entre os mais jovens.

Mudança de hábitos

Antes era comum uma família inteira reunir-se em frente à televisão para assistir a uma novela ou a um filme e, conforme a trama se desenrolava, um comentava suas impressões com a pessoa ao lado. Faz algum tempo que vem acontecendo o fenômeno da segunda tela, no qual o espectador comenta em uma rede social, em tempo real, suas impressões a respeito do que está vendo. Por exemplo, mostrar indignação com a eliminação da participante Jiang Pu do programa “MasterChef” ou falar sobre o sotaque de Wagner Moura na série “Narcos”, na pele do traficante colombiano Pablo Escobar.

As maratonas de séries são outros fenômenos. Caso você não tenha feito isso, com certeza alguém em seu ciclo social passou parte do fim de semana assistindo a vários episódios em sequência de uma série. Como não há intervalos comerciais e a pessoa pode “pular” os créditos do fim de um episódio para ir direto a outro, o formato da Netflix facilita esse comportamento. A partir daí, o esforço é para interromper a maratona. Outro fator importante no “vício” (sim, isso vicia) é o multiscreen, ou seja, a possibilidade de assistir à mesma coisa em plataformas diferentes. Caso você tenha parado de assistir a algo de madrugada, no conforto de casa, é possível retomar no transporte público, por meio do smartphone, desde que a conexão e o pacote de dados permitam fazê-lo.

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Como é possível?

A Netflix funciona em streaming e on demand. Os termos até podem parecer complicados, mas nem tanto. O streaming é, basicamente, a transmissão de dados de áudio e vídeo em tempo real – assistir a um vídeo no YouTube ou ouvir uma música no Spotify é possível pelo streaming.

Já o on demand (sob demanda) é, em resumo, assistir ao que quiser e no momento em que quiser. Por exemplo, você pode assistir a um filme qualquer na Netflix a qualquer hora e em qual plataforma: no computador, aparelho de DVD, videogame, smart TV, smartphone, tablet, aparelhos de transmissão de streaming e decodificadores de TV por assinatura estão valendo. “A proposta de exibição de conteúdos sob demanda atende ao telespectador que quer assistir a um determinado programa, mas sem depender da grade [de programação]. O Netflix é um expoente e a partir do sucesso que conquistou, outras empresas, como a Amazon, HBO e Yahoo!, viram que se não entrassem no jogo, logo ficariam para trás”, pontua Rodrigo Buffo, jornalista do site Ciborgues & Dinossauros (ciborguesedinossauros.com.br), site sobre cultura popular.

Entretenimento de dados

Na Netflix, a navegação é simples e lembra um catálogo, dividido por seções. Os filmes estão organizados de acordo com o gênero – drama, humor, independentes, entre outros. Até novelas mexicanas, como “A usurpadora”, estão entre as opções.

Outra boa sacada é a indicação com base no que o assinante assiste. A imagem ilustrativa deste trecho mostra sugestões de filmes e séries. Na maioria dos casos, as obras são grandes acertos. Já o filme “E aí, comeu?” foi uma bola fora nesse caso. Mas por que isso acontece? “O grande diferencial da Netflix é a base digital, que torna possível categorizar de forma específica o que estou vendo ou não. Esse é o diferencial para entender interesses e gostos, para a produção de conteúdo original, do ponto de vista do roteiro e do audiovisual, quanto à linguagem”, destaca Daniela Osvald, professora de jornalismo online da ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisadora. Esse mecanismo leva mais em conta o comportamento do espectador, quanto a interesses e base cultural, em vez da audiência pura e simples.

Principais escolhas para Amauri Eugênio Jr.:

  • “Mad men” (série);
  • “E aí… Comeu?”;
  • “50%”;
  • “Medianeras”;
  • “Modern Family” (série);
  • “Frida”;

Dramas vencedores do Globo de Ouro

  • “Histórias cruzadas”;
  • “Tudo sobre minha mãe”;
  • “Na natureza selvagem”;
  • “Garota interrompida”;
  • “A grande beleza”;

É mole?

Parece piada, mas não é: a locadora Blockbuster chegou a recusar a compra Netflix. Isso aconteceu em 2000, quando a empresa declinou da compra por US$ 50 mi. Hoje, a Netflix vale US$ 49 bi e a Blockbuster sumiu do mapa.

Estudando o vício

Pessoa A foi “fisgada” pela série “Breaking bad” no quinto episódio da primeira temporada. Já B não conseguia parar de assistir a “Orange is the new black” no sétimo episódio. Parece loucura analisar esses dados, diriam alguns. Mas não.

A Netflix analisou entre janeiro e julho deste ano o comportamento de espectadores ao redor do mundo, inclusive no Brasil, sobre quais eram os episódios-ganchos, ou seja, os que “viciavam” o espectador. Com base nessa pesquisa, foi possível ver que “Breaking bad”, um marco no universo das séries, teve como isca o segundo episódio da primeira temporada; no Brasil, também. Já outras séries, como “Orange is the new black” e “House of cards”, fisgaram o espectador no terceiro episódio da primeira temporada, enquanto isso rolou no quarto episódio por aqui. Em compensação, “How I met your mother” conquistou o povo brasileiro no sexto episódio, ao passo que, entre os gringos, caiu no gosto do público no oitavo.

As séries queridinhas

Falar sobre as séries poderia resultar em uma matéria à parte ou, quem sabe, em um caderno especial (brincadeira!). Isso porque há muitas produções dignas de nota, como “Narcos”, dirigida por José Padilha, na qual Wagner Moura interpreta o traficante colombiano Pablo Escobar; “Sense8”, em que oito pessoas, espalhadas em cantos diversos no mundo, são conectadas pelo cérebro e vivem simultaneamente as mesmas situações; ou “Better call Saul”, derivada de “Breaking Bad”, que mostra a vida do advogado Saul Goodman (Bob Odenkirk) antes de trabalhar para Walter White. No entanto, apenas será possível falar de algumas delas. Pode preparar a pipoca.

Breaking Bad

Walter White descobre ter uma doença terminal e, para não deixar a família na miséria, começa a produzir e traficar metanfetamina. Com o passar do tempo, ele adota o pseudônimo Heisenberg.

House of Cards

Frank Underwood (Kevin Spacey) é um congressista que move céus e terras para conseguir mais e mais poder, sem se importar com aspectos éticos
e com quem estiver ao seu redor.

How i met your Mother

Há quem diga que seja a versão alcoólica e mais cínica do sitcom “Friends”. Retrata como Ted Mosby conheceu a mãe de seus filhos, por meio de lembranças de sua relação com os amigos.

Orange is The New Black

A série retrata a história de Piper Chapman, condenada a passar 15 meses em uma prisão por ter ajudado a transportar dinheiro do tráfico de drogas, dez anos antes. Na prisão, ela encontra a ex-namorada e ainda precisa lidar com as outras detentas, como Suzanne Warren (foto).

Números expressivos

65 milhões de assinantes ao redor do mundo, sendo 42 mi nos EUA;
Está disponível em 81 países;
A mensalidade é de R$ 19,90. Interessou-se? Basta dar um pulo em www.netflix.com