Flávio Naressi e os 50 anos da Asseag

Presidente pela segunda vez da Asseag (Associação dos Engenheiros, Arquitetos
e Agrônomos de Guarulhos), Flávio Geraidini Naressi fala sobre a entidade que completou 50 anos de atuação em 31 março; comenta também sobre a profissão e a cidade.

Onde nasceu?

Nasci em São Paulo, quando meus pais moravam em Taubaté.

Inevitável mencionar de quem você é filho…

Sim, até porque foi a razão de eu ter vindo para Guarulhos. Meu pai, Natalino Naressi, veio ser diretor do Senai de Guarulhos há 50 anos. Ele foi considerado fundador do Senai local porque veio montar a escola, que até então era só um prédio construído pelo Estado. Foi quem montou as máquinas, equipamentos… E permaneceu como diretor até aposentar-se, fazendo muitos amigos na cidade.

Qual era sua idade na época?

Tinha 12 anos. Estudei no Conselheiro até o antigo colegial.

E cursou qual engenharia e onde?

Civil, na Faap (Fundação Armando Álvares Penteado). Antes, fiz vários cursos no Senai, na área de mecânica.

Como iniciou a trajetória profissional?

Em obras pesadas. Trabalhei na construção do viaduto Aricanduva, desde as fundações até a entrega, uma obra de mais de 3 km. Após sair de lá, ingressei no Saae (Serviço Autônomo de Água e Esgoto) de Guarulhos, em 1979, onde fiquei até aposentar-me, em 2012.

Quais os cargos que exerceu no Saae?

Entrei como engenheiro, fui chefe de divisão por muitos anos, intercalados por períodos em diretorias, principalmente na de Operação.

Qual o papel de um engenheiro civil no Saae?

Um dos ramos da engenharia civil é a hidráulica, que tem como uma de suas principais aplicações o saneamento. Na faculdade, tive curso de tubulações, cálculo de redes…

Atuou mais no campo da água ou do esgoto?

Mais da água, mas no começo, quando o Saae era menor, éramos poucos engenheiros e fazíamos de tudo. Essa geração do faz-tudo praticamente não existe mais, a tendência é cada vez mais de especialização, segmentação. Prédios construídos pelo Saae passaram pelas nossas mãos, mas nos últimos tempos fiquei mais voltado mesmo ao abastecimento de água, como gerente de Operação, atuando nas consecutivas crises de falta d’água.

Muita gente deve tê-lo xingado sem saber quem é…

Lógico e com certa razão. Todos precisam de água e se ela falta, alguém tem de levar a culpa. Mas há explicação: Guarulhos cresceu muito. Passamos nossa vida correndo atrás do crescimento da cidade. Abria-se um novo bairro, como o Parque Continental. Um lugar alto, onde o abastecimento é mais difícil, milhares de lotes ao mesmo tempo, as pessoas começando a habitar e não havia rede de água. O Saae corria atrás para instalar a rede. Aconteceu na Ponte Alta e muitos outros lugares. Só no Bonsucesso deve ter levado mais de 100 km de rede. Era uma luta diária um tanto insana.

Desde quando participa da Asseag?

Há 40 anos. O engenheiro Plínio Tomaz me convidou a ingressar e logo como secretário da Diretoria. De lá para cá, exerci as mais diversas funções, no Conselho ou na Executiva. A presidência é pela segunda vez.

O que diferencia a função da Asseag das do Crea (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia)?

A Asseag é uma associação, como o nome diz. Tem por objetivo defender a classe, melhorar os níveis de atividade, promover cursos, palestras; enfim, melhorar em todo possível o exercício da profissão, além de congregar os profissionais da área. Já o Crea é um órgão oficial, que até há pouco incluía os arquitetos, que agora têm o CAU (Conselho de Arquitetura e Urbanismo). Por convênio, o Crea tem sua sede regional dentro do prédio da Asseag, aqui na vila Rio. O Crea fiscaliza o exercício profissional, para não permitir a atuação irregular e nem que os que são regulares infrinjam a ética e as normas em geral. O CAU fiscaliza a atividade dos arquitetos. A Asseag congrega as três categorias, embora tenhamos poucos agrônomos, pela natureza da cidade.

Quantos profissionais do ramo há em Guarulhos?

Entre 7 e 8 mil profissionais.

Mais do que advogados?

Sim, porque a engenharia não é só a civil. Nas indústrias, há engenheiros mecânicos, químicos, de alimentação… Há ainda os tecnólogos, específicos de muitas áreas, incluindo as de elétrica, cujo leque se abriu muito com a informatização; agora com o chamado 4.0, que é a automação total em alguns setores, carros que andarão sozinhos, tudo isso envolve a participação de engenheiros. Nossa grande base não é a da engenharia civil, mas a de outras especialidades.

É possível elencar algumas conquistas obtidas pela Asseag nesses 50 anos?

Não diria conquistas, mas atuações marcantes. Agora, por exemplo, a cidade está discutindo o novo Plano Diretor e nós estamos participando das discussões e elaboração. O Plano Diretor de 2004 foi praticamente escrito dentro das nossas dependências; nossos engenheiros e arquitetos reuniram-se com pessoas da Prefeitura, com a sociedade guarulhense, ajudando a escrever o Plano Diretor. Muitas vezes, somos chamados pela Câmara Municipal a opinar sobre projetos que envolvem a área técnica. São atividades corriqueiras. Participamos com representantes de muitas Comissões e Conselhos da Prefeitura. Estamos no Conselho Municipal de Políticas Urbanas, discutindo zoneamento e urbanismo; Condema, do Meio Ambiente; no da Habitação…

Essas participações são voluntárias?

Totalmente voluntárias.

As assessorias dos vereadores não deveriam ter obrigatoriamente alguém da área, para que tivessem mais noção da viabilidade técnica de projetos? Ou que houvesse uma assessoria técnica do Legislativo?

Para alguns projetos somos chamados a opinar, mas como colaboração. Quando detectamos uma necessidade de nos manifestar, fazemos isso. Vejam o absurdo da lei que proíbe o uso de bate-estacas na cidade. É o método de fundação utilizado no mundo todo e a Câmara de Guarulhos resolve simplesmente proibir…

Há outras tecnologias?

Sim, mas em muitos casos não há outra melhor do que o bate-estacas. Há mudanças de zoneamento feitas sem critério técnico, outros casos em que seria melhor que pudéssemos opinar, mas a política, enfim, é algo complicado.

Há algum plano de sua gestão que mereça ser destacado? O cidadão comum pode se valer da Asseag para defesa de seu direito individual ou coletivo?

Fazemos interface com o Crea. Se nos chega uma denúncia, enviamos ao Conselho, embora os cidadãos possam fazê-lo diretamente. A Associação promove cursos mesmo para engenheiros que não são nossos associados, bem como para mestres de obras.

O que diz sobre o discurso da necessidade de haver acessibilidade para pessoas com dificuldades de locomoção? Não é hipocrisia falar em calçadas acessíveis para cadeirantes em uma cidade com relevo tão acidentado?

Com vias tão íngremes, não há como fazer com que as calçadas possam ser utilizados por cadeirantes. Mas, as normas têm de existir, para buscar melhorar as condições de mobilidade de quem tem alguma dificuldade motora. Aqui na Asseag, por exemplo, há anos não entra um cadeirante, mas fizemos adaptações para permitir a acessibilidade de quem vier. Temos de dar exemplo. O poder público deve também fazer o que lhe cabe, agindo com bom senso. É praticamente impossível generalizar. Existe agora a exigência de rampa ou elevador para cadeirante em toda atividade comercial. Mas, como ficam os imóveis nos quais se constrói um salão comercial embaixo e salas comerciais em cima? Uma rampa precisaria ter cem metros para ser utilizada. Pôr um elevador onera a obra… Isso acaba desestimulando a construção. Teria de haver um meio termo de atendimento às normas aos casos mais necessários, que são os de atendimento ao público.

Mercado de trabalho: um jovem que esteja na fase de escolha da carreira. Se pudesse voltar no tempo, decidiria novamente pela engenharia civil?

Voltaria, sem dúvida. É meu gosto, minha paixão.

Há algum tempo se ouvia falar que faltavam engenheiros. Agora se diz que falta emprego. O que há de fato?

Houve uma carência momentânea de engenheiros e abriram-se inúmeras faculdades novas de engenharia. São ciclos e o mercado imobiliário entrou em certa recessão. Mas em dias, meses ou anos todos acabarão absorvidos pelo mercado. Gosto de contar que houve épocas nas quais eu estava no Saae e meus colegas aqui da Associação ganhavam muito mais do que eu, diziam que eu estava perdendo tempo lá. Em outras épocas, eu continuava no Saae, estável, e alguns deles estavam desempregados. Aí, eu é que era feliz. Altos e baixos existem em todas as profissões.

Algo a acrescentar?

Quando assumi pela segunda vez a presidência da Asseag, tive como meta elevá-la a um novo patamar de influência na cidade. Sempre participamos muito das coisas da cidade, mas muitas vezes tivemos dificuldade para sermos ouvidos. Uma dessas metas acho que consegui, pois estamos sendo mais ouvidos, tanto em relação ao poder público quanto no entrosamento com as demais entidades. Temos sido mais chamados a opinar e fico feliz por isso.

Algum descendente seguindo sua carreira?

Minha filha Cláudia é arquiteta. Posso ter influenciado, embora, como engenheiro, tenho raciocínio lógico e técnico e ela tem o dom da arte, da criatividade.