Desde cedo, Gabrielle Carleto de Paulo, quando se imaginava em alguma profissão, se via trabalhando com partos. Ao concluir o ensino médio, fez um ano de cursinho e decidiu concorrer à carreira de obstetriz na USP. “Antes mesmo de me formar, atendi partos como auxiliar de parteiras experientes e sempre fui muito envolvida em eventos, passeatas, discussões, o que me trouxe uma importante rede de contatos, na academia e na profissão”, conta.

Ainda durante a graduação, em 2012, juntou-se a parteiras que estavam duas turmas à frente na faculdade, para criar o Grupo Ela, de apoio à gestação, parto, pós-parto e maternidade em Guarulhos.

Logo após se formar, em 2014, uniu-se a um grupo especializado em assistência à gestação, parto e pós-parto, inicialmente como substituta (backup) da parteira da equipe e depois como integrante oficial do time. “Além de ganhar experiência, ampliei minha rede. Tive a proposta de me unir a mais uma equipe particular em São Paulo. Algum tempo depois, passei em um concurso para atuar como obstetriz em um hospital público. Lá ganhei ainda mais experiência e “mão de parto”, como dizemos. Vivi momentos incríveis e alguns mais delicados e difíceis, que foram me moldando como parteira. Aí, me desliguei da primeira equipe e fiquei na segunda, dividindo meu tempo com os plantões no hospital”, enumera.

Em 2016, Gabrielle foi para Austin-Texas (EUA), para um estágio profissional sob supervisão da professora doutora Robbie Davis-Floyd, um dos grandes nomes de estudiosas das questões que envolvem o ciclo gravídico-puerperal a partir da Antropologia. “Além de ter o privilégio de viver na casa da Robbie e compartilhar os dias com ela, pude conhecer parteiras importantíssimas e muito experientes, além de amizades da Robbie que trabalham com parto ou o estudam; assim, aproveitei para fazer entrevistas com as parteiras, com orientação da Robbie. Havia mais duas estagiárias, Maya (da Índia) e Iris (da Holanda); difícil colocar em palavras tudo o que vivi lá e o intenso intercâmbio intercultural. Robbie virou amiga e um ano depois visitou meus locais de trabalho e se hospedou na minha casa por alguns dias. Mais recentemente passei por uma equipe de parto domiciliar e pela casa de parto Casa Ângela, o que me permitiu ter contato com outras facetas da profissão”, descreve.

Sentindo-se realizada, diz que a vontade de trabalhar com partos foi praticamente inata, não tinha dúvidas que queria seguir esse caminho. “Acredito que uma das coisas que me impulsionou foi a perspectiva da importância em fazer algo que fosse realmente relevante para a sociedade e que eu gostasse e tivesse aptidão pra exercer, além da ideia de trabalhar com e para mulheres, uma vez que somos uma parcela da população vítima de preconceito, abusos de diversos tipos, machismo, etc. Nos assuntos que concernem à maternidade, inclusive à não maternidade (por questões de saúde ou preferência), a figura feminina apresenta-se ainda mais vulnerável, com risco à saúde e à vida em determinados casos, o que me motiva ainda mais a trabalhar com esse grupo. Além disso, em nosso País as taxas de cesárea, intervenções e violência obstétrica são alarmantes, vergonhosas; e a inserção das obstetrizes e enfermeiras obstétricas é uma luz no fim do túnel para a saúde no Brasil”, conclui.