Por Cris Marques
Fotos: Rafael Silva e arquivo pessoal

Receber o positivo no exame de gravidez, gerar um bebezinho dentro do ventre, ter um bom parto e poder segurar aquela criança nos braços, pela primeira vez, é o sonho de muitas mulheres. Porém, com a gravidez – um período de muitas mudanças, cuidados e fragilidade – também surgem as dúvidas e os medos. E se, para a maioria das mamães, o primeiro trimestre é o mais difícil por ser a fase mais importante para a formação e desenvolvimento do bebê e também a mais crítica para abortos e surgimento de malformações; para outras, a gestação inteira é de extrema atenção. É o caso das mulheres com trombofilia.

Gravidez com trombofiliaSegundo Heloisa Helena Sampaio Ferreira de Castro (foto), médica, ginecologista e obstetra, diretora do Departamento de Administração Regional de Saúde – Região 1 Centro, a trombofilia é uma condição do sangue da pessoa, que pode predispor ao aparecimento de doença tromboembólica. Ela pode ter origem genética, isto é, vir representada nos genes da pessoa, ou aparecer de acordo com as condições de vida e características familiares. “Famílias com membros portadores de doenças cardiovasculares, tromboses de origens diversas, AVC, infartos, especialmente em idades precoces (mais jovens), têm maior tendência de desenvolver fenômenos tromboembólicos. Já quando não há o fator genético, a maior causa é a síndrome antifosfolípide, na qual a paciente apresenta um anticorpo que estimula a coagulação do sangue, formando os trombos que podem entupir a circulação”.

Ela explica que, durante a gestação, essa situação é ainda mais perigosa por aumentar o número de abortos espontâneos sem diagnóstico causal conhecido, abortos de repetição, pré-eclâmpsia (hipertensão arterial específica da gravidez), descolamento prematuro de placenta, partos prematuros e até doenças maternas para a mulher, como uma embolia pulmonar – pequenos êmbolos que se deslocam e entopem a circulação pulmonar, levando até ao óbito, pela rapidez de instalação do quadro e sua gravidade. “A gestante que pertence ao grupo de risco, que, além dos fatores familiares, inclui fumantes, obesas e hipertensas, deverá ser acompanhada como pré-natal de alto risco, com participação de um hematologista como consultor do ginecologista, para a realização de exames mais específicos, como a dosagem dos anticorpos antifosfolípides e fatores de coagulação”, pontua.

Gestação saudável

De acordo com Heloisa Helena, é possível, sim, ter uma gravidez saudável mesmo com a condição; basta planejar com carinho, iniciar o mais precocemente o pré-natal com um ginecologista de confiança e tecnicamente competente e, antes de tudo, iniciar uma vida de hábitos saudáveis, sem tabaco nem álcool, com atividades físicas regulares e boa alimentação. “O elemento mais importante e usual do tratamento é manter o ‘sangue mais fininho’, por meio da administração de anticoagulante injetável. Hoje, o mais comum é a heparina de baixo peso molecular, de administração diária e com menor risco de complicações e efeitos colaterais. Seu custo é realmente alto, mas, em alguns locais, é possível conseguir esse medicamento de forma gratuita. Não havendo essa gratuidade e nem condições de custear, também existe a possibilidade de uso da heparina de alto peso molecular, que tem outra forma de administração, com fracionamento de doses”, elucida ela, que admite que a aplicação pode ser desconfortável, mas é segura e aumenta consideravelmente as chances de chegar bem ao final da gravidez e poder curtir o bebezinho no colo.

Símbolo de amor

Gravidez com trombofiliaMarina Martins Carvalho Vigneron de Oliveira (foto), zootecnista e fiscal ambiental, na Secretaria de Meio Ambiente de Diadema, teve trombose venosa profunda (TVP), em 2008, atribuída ao uso de anticoncepcional e, anos mais tarde, quando decidiu que queria engravidar, acabou lendo sobre a trombofilia e percebeu que pertencia ao grupo de risco. “Procurei um hematologista para fazer os exames genéticos e descobri que tinha uma mutação no gene da protrombina [proteína essencial para a coagulação sanguínea]. Tive uma perda gestacional com 6 semanas, mas isso foi depois de eu ter descoberto a trombofilia e usar o anticoagulante desde o positivo do exame. Já na segunda gravidez, comecei a aplicar logo após a ovulação. Durante todo esse período, tentei me afastar dos relatos de perdas, mas acabavam chegando, o que piorava a tensão. Tinha muito medo de perder meu filho. Além disso, as injeções de anticoagulante são muito doloridas, fica roxo, inchado e, às vezes, o local sangra. Mas, era meu marido quem aplicava e ele fazia com todo cuidado, transformando aquilo em um momento especial pra gente”, conta ela, que tomou 316 injeções diárias de enoxaparina até o parto do Theo (na primeira foto, em meio às seringas, e na foto com a mamãe), hoje com 10 semanas.

Mesmo sendo uma gestação de alto risco, que exigiu acompanhamento de perto por uma obstetra, além de hematologista e vascular, Marina teve um parto normal. “Eu queria isso e, além de querer, tinha convicção de que era a opção mais segura. Trombofilia não contraindica o procedimento, só é necessário ter alguns cuidados quanto ao momento de parar o remédio. No Brasil, já é difícil uma mulher sem problemas parir. Imagine nessa condição! Então, não foi tão simples, troquei umas cinco vezes de médico até me sentir segura e busquei muita informação”. Para ela, a trombofilia precisa ser mais divulgada para desmistificar e acalmar as futuras mamães. “Isso pode diminuir o sofrimento de quem perdeu vários filhos até descobrir o problema. Para quem passa por essa situação, eu digo: estude, frequente grupos e leia muito. Assim conseguirá ter segurança em suas decisões. Procure bons profissionais e não deixe o medo de mais uma perda se sobrepor à esperança e à felicidade de estar gerando uma vida. Curta a gestação e tenha orgulho dos roxinhos da injeção, eles são um símbolo do amor pelos nossos filhos”, finaliza.