Guarulhos, uma terra de grandes escritores

O Espaço Novo Mundo, localizado na Livraria Nobel, no Jardim Maia, estava lotado na noite chuvosa do dia 4 de novembro. Nos rostos dos presentes, ansiedade embolada em um misto de expectativa e alegria. Os convidados aguardavam o resultado do Prêmio Guarulhos de Literatura (PGL), honraria inédita na cidade, que laureou obras de escritores guarulhenses até então desconhecidas pela própria população local.

O evento começou em maio por iniciativa do também escritor Auriel Filho, de 47 anos. Com cinco obras publicadas, o autor percebeu a falta de uma premiação que pudesse mostrar que a cidade de Guarulhos é uma casa com grandes escritores e tem capacidade para tornar-se um polo literário. Segundo Auriel, foram 53 livros inscritos, os quais passaram pelo crivo de um júri composto por 20 jurados técnicos (escritores e críticos literários) e 20 leitores escolhidos por meio de uma curadoria promovida na internet.

Surpresa foram os diversos bairros que guardam os autores da cidade. De centro a periferia, não há um lugar que não tenha um escritor escondido. “Se inscreveram autores que moram no Pimentas, São João, Inocoop, Cocaia, Centro, Vila Rio de Janeiro etc. O prêmio trouxe à tona uma literatura que estava sendo feita, mas que não tinha visibilidade na cidade”, comenta.

As categorias e seus respectivos prêmios foram: Escritor Revelação, R$ 1 mil; Escritor do Ano, R$ 1,5 mil; Livro do Ano, R$ 2 mil e Livro de Poesia, R$ 1,5 mil. Os livros inscritos no Prêmio foram doados para a Cristolândia, que desenvolve ações sociais com dependentes químicos e menores infratores, entre outras ações humanitárias.
Para o idealizador, uma característica importante do PGL foi a de não fazer distinção em relação aos gêneros literários. Foram inscritos desde romance até livro acadêmico. Segundo revelado à Revista Guarulhos, uma segunda edição do evento já está sendo programada para 2018, com a inclusão de novas categorias, como Matéria Jornalística e Jovem Escritor. “O prêmio atingiu e ultrapassou as minhas expectativas. O que desejo é que a literatura da nossa cidade ganhe voos mais altos”, pontua.

Essa primeira edição custou cerca de R$ 18 mil, oriundos da iniciativa privada. “Procurei no início apoio público, mas devido ao momento delicado pelo qual Guarulhos passava, resolvi fazer o trabalho sozinho”.

Auriel agradeceu o apoio incondicional de Vera Novo, do Espaço Novo Mundo, bem como dos patrocinadores que fizeram o evento acontecer: Colégio Marconi e Cantinho da Alegria, Sky City Turismo, Livraria Nobel, Centro Britânico, JK Seguros, Adolfo Noronha, Golden Fest Buffet e do Restaurante La Pergolleta.

#Livro do Ano
“O informante, uma história sem heróis”, do delegado de polícia Alexandre Gargano Cavalheiro, atualmente no 9º DP de Guarulhos, no Taboão, levou o prêmio de livro do ano. O autor baseou-se nas experiências vividas nos 28 anos de carreira, dos quais, 10 foram no Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc).
A história é de um rapaz da periferia que acaba por conhecer a cocaína, enquanto trabalha na boca do lixo, capital de São Paulo. A obra também mostra como chefes do tráfico tentam abocanhar a melhor fatia de um mercado sombrio e sórdido, tendo como cenário de fundo a cidade de São Paulo.

#Escritor Revelação
Um conjunto de reportagens-perfis, que relatam histórias de mulheres marcadas por dramas sociais, raciais e morais. Em “Mulheres Extraordinárias”, a jornalista Karla Maria traz à tona personagens achadas em lugares distantes e sem importância para o mundo. Com visão jornalística e sensibilidade feminina, a autora mostra relatos de lutas, superações, denúncias de maus-tratos, preconceitos e desespero.
O trabalho é resultado de 15 anos de profissão, percorrendo os rincões do país, tendo olhar voltado para aquilo que a TV não viu, não cobriu. A obra conta com ilustrações de Rebeca Souza Venturini.

#Escritor do Ano
César Magalhães tem oito obras: “Passagem” (1985, poemas e crônicas), “Contrastes” (1987, poemas), “Canto bélico” (1994, poemas), “Bolha de sabão” (1998, infantil), “Ciclo da Lua” (1999, poemas), “Três acordes” (2003, infantil), “Folhas Soltas Poesia Incidental” (2006, poesia), “Verso em voz” (2013, antologia sonora) e “Dicionírico: prosa, poesia & riso (de A a Z)”, este último que levou o autor para a categoria Escritor do Ano.
Organizado em forma de dicionário, César arrisca -se em diversos gêneros: contos, sketches teatrais e poemas, comentando sobre arte, política, filosofia, religião, vida cotidiana e a própria literatura.

#Livro de Poesia
Em “Instruções para lavar a alma”, segundo livro da poetisa e escritora Clara Baccarin, a autora traz 130 páginas de experiências e aprendizados adquiridos durante seus dois anos de idas e vindas à Hungria. São abordados temas como a criação poética, o amor, a agonia dilacerante da solidão e a “leveza” existencial.
Clara é do interior de São Paulo, formada em Letras pela UNESP (Araraquara), universidade na qual também recebeu o título de Mestre em Estudos Literários (2008). Depois foi conhecer o mundo. Morou na Austrália, Chile e Hungria.