Hermano Henning e suas raízes guarulhenses

Hermano Henning fala à Weekend sobre sua ligação com Guarulhos/ Foto: Rafael Almeida

Hermano Henning, 71, tem uma história com Guarulhos. Chegou à cidade aos 19 anos, sendo voz da então Rádio Difusora de Guarulhos, hoje Boa Nova. Formou-se em Direito, em 1983, na Faculdade de Direito de Guarulhos, hoje chamada de FIG-Unimesp. Casou-se na igreja da Vila Rosália e seus dois filhos são guarulhenses. Âncora e editor-chefe de jornais do SBT, emissora de Silvio Santos, por muitos anos, trabalhou em grandes veículos nacionais como Veja, Estadão e Globo. Por falar inglês e alemão, foi correspondente internacional em diversos países. Apesar de toda bagagem, Henning revela que sua base começou em Guarulhos, quando trabalhava como repórter do então Guaru News, agora Folha Metropolitana.

O jornalista, que foi recentemente contratado como diretor de comunicação da TV Câmara de Guarulhos, recebeu a Reportagem da revista Weekend com extremo carisma e humildade, características, inclusive, que ele considera primordiais para um repórter.

Qual é a sua formação?

Bacharel em Direito. Jornalista profissional, sei lá, desde os anos 70? (risos). Eu cheguei a fazer dois ou três semestres pela Cásper Líbero, mas já tinha obtido o meu registro, então parei.

Chegou a conseguir a OAB?

Cheguei a ser solicitador acadêmico, uma espécie de estagiário. Trabalhei no Sindicato dos Metalúrgicos de Guarulhos, mas não me filiei à Ordem. Na época em que me formei eu já era repórter da Revista Veja, então preferi seguir no jornalismo.

Porque escolheu o Direito?

Na minha época só existia um curso de jornalismo, que era o da Cásper Líbero. Quem tinha interesse em ser jornalista ia cursar direito, filosofia ou um curso auxiliar. E o curso me deu muito suporte.

A favor ou contra o diploma de jornalismo?

Sou a favor do curso na universidade. Eu gosto da formação acadêmica para você se sentir preparado para exercer a profissão. Agora, do diploma… eu nunca tive porque nunca precisei. Meu registro saiu antes. Meus dois filhos têm. Mas aconteceu com eles a mesma coisa que comigo: eles sempre quiseram ser jornalistas. Na minha época era mais fácil trabalhar. Eu cheguei aqui em Guarulhos e, no outro dia, já estava empregado. Hoje em dia só o talento para escrever a reportagem não basta.

Como chegou à profissão?

Eu já era locutor de rádio em Guararapes (SP). No escrito foi aqui em Guarulhos, no então Guaru News, que hoje é a Folha Metropolitana. Fui um dos primeiros repórteres. Comecei cobrindo polícia e esporte. Seis meses depois, mais ou menos, estava cobrindo política. Eu tinha uma coluna chamada “Vendo e Ouvindo”. Na época, a Câmara tinha uns nove ou onze vereadores, senão me engano. Depois a direção fundou o Metrô News e eu continuei com a coluna como repórter político. Antes, eu trabalhava na Rádio Difusora de Guarulhos. Lembro que quando ela se mudou para o Picanço, eu fui a primeira voz a apresentar. No tempo do Guaru News, eu trabalhava também como correspondente do Estadão aqui na cidade. Depois fui para a Revista Veja. Tive uma passagem também na Prefeitura, como assessor de imprensa, na época do Pompêo [ex-prefeito Waldomiro Pompêo], mas coisa bem rápida. Fiquei uns 10 anos aqui em Guarulhos.

Prefere o impresso ou a TV?

Depois que fui ser correspondente da Globo na Alemanha saí do impresso. A televisão me empolgou. O que me ajudou muito foi a experiência no rádio, além de começar onde todo mundo termina. Afinal, o correspondente, teoricamente, precisa de certa experiência. Mas levei para a Alemanha as vivências de Guarulhos, Veja e Estadão.

Foto: Rafael Almeida

Nos últimos 20 anos, o salto que a comunicação teve em decorrência da internet e da globalização é imenso. O que você enxerga para o jornalismo daqui para a frente?

Eu concordo com você que houve um salto no aspecto tecnológico. Uma reportagem feita em filme no Iraque, na época da guerra, demorava uma semana para chegar no Brasil. Era algo medonho. Hoje em dia com um celular eu consigo fazer uma cobertura desse tipo. Mas o jornalismo não mudou nada no aspecto profissional. O espírito continua o mesmo da minha época de foca [termo jornalístico para se referir ao profissional iniciante], no Estado de S. Paulo: critério de levantamento de uma reportagem, o talento para escrever – no caso do impresso. A TV é ainda mais exigente, porque você precisa escrever pouco e dizer muito. Exige também certo talento para você apresentar a matéria sem que as pessoas percam o interesse de vê-la. Hoje, as mídias se misturaram. Eu não tenho nenhuma intimidade com isso.

Mas você acha a internet uma inimiga?

Eu acho que é uma amiga e, ao mesmo tempo, uma coisa meio complicada que deixa o jornalista iniciante muito mal acostumado. Ele se prende à internet e deixa de ter uma visão global das coisas. O bom repórter tem que amassar o barro, precisa conversar com as pessoas. O jornalista se forma nessa escola. Eu tenho muito medo dessa nova geração quando ela se prende apenas em se informar na internet e transferir esse conhecimento para os veículos. Meu receio com os novos instrumentos de comunicação é exatamente esse. De resto, boa sorte para vocês que estão começando.

Você demonstra que não perdeu o entusiasmo pela profissão…

Tenho a impressão que não vou perder. Eu vou fazer 72 anos e comecei com 16 lá em Guararapes. Eu apresentava notícia no rádio, em 1964, ano do golpe militar, fardado. Era muito difícil. Na época do ginásio, tínhamos jornal do estudante e eu era redator-chefe. Sempre fui muito ligado com a profissão. Nunca precisei fazer teste vocacional porque eu sabia o que eu queria: ser jornalista. Sempre vivi da minha profissão, nunca fiz outra coisa na minha vida.

Percebe-se que há uma grande mudança no jornalismo do SBT. O que diz sobre isso?

Quando saí da emissora, a alegação que deram era que o Silvio Santos queria um jornalismo diferente e que ele tinha contratado um rapaz de 18 ou 19 anos [Dudu Camargo] que tinha um tipo de apresentação que eu não conseguiria ter. Eu não vou dar a notícia dançando nem nada. Foi meio que: “Você não tem espaço no jornalismo do SBT”. Tudo bem, fiquem com o rapaz. Tudo é questão de escolha, né? É uma pena porque o SBT é a segunda rede do País. Tem uma grande história no jornalismo brasileiro. Não tenho condições de dizer se ele é bem produzido. Sei lá…

Com tanta experiência nacional e internacional, como se sente voltando para suas raízes?

Tenho muito orgulho de estar aqui conversando com essa nova geração. Rapaz, não fiquei nem um mês desempregado. Amigos daqui de Guarulhos disseram que a TV Câmara precisava de um diretor. Pensei um pouco. Não queria ficar parado. Poxa, é algo totalmente diferente. Sempre fui repórter. Apesar de ser correspondente, editor-chefe, você nunca deixa de ser repórter. Aqui vai ser preciso aliar o sentido de jornalista com uma atividade de comando. É um desafio novo, que eu nunca fiz na minha vida. Isso me empolga também.

Hermano Henning concede entrevista à revista Weekend/ Foto: Rafael Almeida

Quais são os desafios?

É fazer com que a TV Câmara seja acompanhada pela população. É fazer o guarulhense se interessar em ver a televisão da sua cidade. Que é pública. Não é do prefeito, do jornalista, nem de ninguém, mas do povo. Os jornalistas daqui são competentes. Toda a equipe tem exercido a função de forma elogiável. Então, o grande desafio é fazer a pessoa dizer: ‘Poxa, eu sou de Guarulhos, então vou ver a televisão daqui’.

Algum plano em mente?

Dar uma nova cara. Mas com muita parcimônia porque não é como uma televisão comercial. Tem muita burocracia. São as dificuldades que uma TV pública tem. Se acontece certa coisa, não é simplesmente mandar um repórter lá. Não é assim. Precisa de um ofício, enfim. A burocracia de uma instituição pública para nós é bem difícil. Mas isso é importante você dizer: estou contanto com a colaboração irrestrita do pessoal que está aqui. Tanto da presidência da Câmara, como dos vereadores.

Pretende apresentar algo?

Inicialmente, ficar somente na direção. Nada que me impeça, mas acho que a gente já tem tanta coisa pra fazer que é melhor ir com calma.

Hermano, já tem alguma visão política da cidade?

Ainda não. Quando deixei Guarulhos, a grande força política da cidade se chamava Waldomiro Pompêo, que era PMDB. No Legislativo, José Ribamar, Mario Antonelli, Moisés Zeraibe, Moriô Sakamoto. Era gente preparada e eu sei disso porque cobria a política.

E o que acha dessa nova vereança?

Eles são de muito movimento. Talvez eles atraiam até mais interesse do que na minha época. O que valeu pra mim foi a recepção por parte dos vereadores. Não senti nenhuma rejeição.

O que tem a dizer para os novos jornalistas?

No fundo no fundo, o jornalista não consegue ser independente. Mas a honestidade na apuração da notícia é a primeira coisa. É um caráter que obrigatoriamente tem de ser observado. Jamais percam a humildade, respeitem a fonte, tratem seus informantes sempre com muito respeito. Achar sempre que a pessoa que está sendo entrevistada está prestando um favor. Ser jornalista é bacana. Mas não se deixem seduzir pelo falso glamour da profissão.

Hermano Henning foi recentemente contratado pela TV Câmara/ Foto: Rafael Almeida