“Há mais coisas entre o céu e a terra (…) do que sonha a nossa vã filosofia”, escreveu o poeta e dramaturgo William Shakespeare em sua aclamada obra “Hamlet”. A frase diz muito sobre crenças que permeiam o imaginário popular e são passadas de pai para filho, vizinho para vizinho, amigo para amigo, de geração para geração. Verdadeira ou não, sempre existe aquela velha história assombrada que deixa a gente com a pulga atrás da orelha.

Conhecidas como lendas urbanas, são aquelas que vão sendo espalhadas de forma oral. Não se tem prova, mas sempre existem pessoas que juram ter presenciado algo ou algum “amigo do amigo” que relatou alguma experiência. É claro que, como toda boa história que o povo conta, cada narrativa tem suas diversas versões.

Como o Halloween está próximo (31 de outubro), a revista Weekend resolveu mergulhar um pouco nas origens dos mitos mais conhecidos para saber o que foi baseado em fato real e o que é simplesmente história.

A “Loira do Banheiro”

Três chutes no vaso sanitário, uma descarga e três palavrões. Ou, então, bater a porta do banheiro, chutar o vaso, dar uma descarga e falar um palavrão. São muitas as formas de “se chamar a Loira do Banheiro”, um dos maiores mitos modernos que são difundidos nas escolas, principalmente as de ensino infantil.

Uma das versões da lenda refere-se a uma jovem que foi enterrada numa mansão localizada em Guaratinguetá, São Paulo. Trata-se de Maria Augusta de Oliveira, de 26 anos, cuja causa da morte, que se deu em 1891, é rodeada de mistério.
Diz a lenda que a jovem, filha de Visconde de Guaratinguetá, foi obrigada a casar de forma arranjada aos 14 anos. Por estar infeliz com o matrimônio, fugiu para Paris pouco tempo depois usando o dinheiro que conseguiu arrecadar com a venda de suas joias. Lá, aproveitou a fortuna para frequentar bailes da alta sociedade.

Não se sabe o que culminou na morte de Maria Augusta de Oliveira, pois enquanto o corpo voltava para o Brasil, seu caixão foi violado por ladrões, que queriam as joias da jovem. Com isso, o atestado de óbito foi perdido. Acredita-se que ela tenha morrido por hidrofobia (raiva), comum na Europa.

Já no Brasil, seu corpo foi colocado em uma redoma de vidro na mansão da família enquanto seu túmulo estava sendo preparado. Dizem que Maria Augusta de Oliveira não queria ficar ali e, por isso, saiu da redoma e ficou vagando pela casa.

A mansão do Visconde de Guaratinguetá tornou-se, em 1902, a Escola Estadual Conselheiro Rodrigues Alves, ativa até os dias de hoje. A lenda ganhou força em 1916, quando o prédio pegou fogo misteriosamente.

Outra versão da lenda diz que uma menina, de aproximadamente 15 anos, planejava jeitos de matar aula, sendo que um deles era ficar no banheiro, a espera do tempo passar. Num certo dia, a loira teria escorregado no piso molhado e batido a cabeça no chão, vindo a óbito. Não conformada, passou a assombrar os banheiros das escolas.

Com o tempo, a lenda brasileira misturou-se com raízes norte-americanas da conhecida Blood Mary, ou Maria Sangrenta. Segundo contam, a jovem teria sido morta por um médico-cirurgião, que deixou seu corpo em frente a um espelho. Para que ela apareça, basta pronunciar seu nome três vezes enquanto olha para um espelho. Mas precisa ser à noite. Quer tentar?

A brincadeira do copo

A brincadeira comumente praticada pelos adolescentes chega a dar arrepios conforme o copo se move. Essa lenda urbana consiste em desenhar em um papel uma espécie de tabuleiro, com todas as letras do alfabeto, números de 0 a 9 e ‘sim’, ‘não’ e ‘sair’. É possível brincar com uma caneta, compasso ou copo, que servirá de pêndulo para comunicação do espírito presente. Depois dessas exigências, basta fazer a pergunta e deixar que ele responda.

A brincadeira nada mais é do que uma versão simplificada – leia-se abrasileirada – do tabuleiro de Ouija, que tem origem no espiritualismo, a partir das experiências das irmãs Kate e Maggie Fox, ainda no século 19, que se comunicavam com os espíritos por meio de batidas (tiptologia). A comunicação foi sendo desenvolvida até um tabuleiro, formado por alfabeto e números, ser criado.

O modelo foi patenteado pela Companhia Novelty Kennard, em 1891, e tornou-se um brinquedo de grande popularidade, chegando a ultrapassar as vendas do Monopoly, em 1960.

No entanto, em 1971, com o romance O Exorcista, de William Peter Blatty, a reputação do tabuleiro foi finalmente inserida na imaginação popular como algo “do demônio”. O interesse dos adolescentes pelo oculto difundiu o mito e fez o objeto tornar-se obsessão nacional, porém, com conotação de forças ocultas, magia negra etc. A igreja católica, obviamente, lutou com afinco para repassar a imagem negativa do tabuleiro, proibindo lares cristãos de tê-lo.
Quem nunca sentiu medo ao brincar da brincadeira do copo na escola?

Guarulhos também tem suas histórias

Procuramos desvendar algumas das lendas que percorrem os bairros da cidade. Descobrimos que são muitas. Algumas mais desgastadas pelo tempo, outras registradas em alguma obra da cidade.

Uma das que mais chamaram a atenção tem a ver com o casarão do sítio da Candinha, no Bananal. Celso Luiz Pinho, 61 anos, policial militar aposentado e bacharel em Direito, é autor do livro Candinha, a Senhora do Bananal.

O escritor narrou à Reportagem um caso que Orestes Pinheiro, sobrinho de dona Candinha, relatou a ele. Deolindo, irmão de Orestes, quando criança passava períodos na casa da tia. Certa noite, o menino teria visto fantasmas de escravos, descalços e com roupas bem simples. Deloindo teria ouvido também barulho de lavagem de louças e cantorias. Ninguém na casa, exceto ele, teria visto ou ouvido coisa parecida naquela noite.

O sítio da Candinha, hoje degradado pelo tempo, reserva outras lendas, como o da jiboia que guardava a fonte de água que fica localizada na lateral norte da residência que reserva uma série de lendas e toda uma história de Guarulhos. Infelizmente, hoje, o espaço está deteriorado e as autoridades municipais pouco se importam com a situação.

Além destes, há relatos sobre aparecimento de “gente morta” na Base Aérea de São Paulo, em Cumbica, onde fantasmas de militares falecidos surgem para assustar os vivos. Quando soldados ficam de guarda no paiol de armas, dizem ser sinistra a situação.

É claro que todas as histórias das lendas têm como base o famoso “ouvi dizer”. Já teve alguma experiência sinistra com alguma das brincadeiras citadas? Conhece algum mito guarulhense? Mande para nós: redação@carletoeditorial.com.br ou (11) 98849-7425 (WhatsApp).