Humor com a notícia

Por Cris Marques

Quando o Sensacionalista (www.sensacionalista.com.br) surgiu, em 2009, a internet demorou a habituar-se com as notícias fictícias e totalmente isentas de verdade que ali eram veiculadas. Não raros eram os comentários e as manifestações exaltadas dos internautas dizendo que aquilo era absurdo e só podia ser uma mentira ou portais noticiosos que replicavam o fato como verdade. Sete anos depois, parece que a rede, ou pelo menos boa parte dela, entendeu seu viés cômico. “Presenciamos um fenômeno interessante, hoje as pessoas sabem que somos um site de humor e, quando acontece algo muito inusitado ou surreal no mundo, as pessoas dizem que parece coisa do Sensacionalista. Virou um bordão, uma referência”, afirma Nelito Fernandes, jornalista, roteirista e criador da iniciativa.

Com mais três sócios, Martha Mendonça (jornalista e roteirista), Leonardo Lanna (roteirista) e Marcelo Zorzanelli (jornalista), e dois colaboradores, Bruno Machado (estudante) e Rod Pocket (designer), o veículo, inspirado no também satírico norte-americano “The Onion”, tem hoje 10 milhões de visitas por mês, mais de sete mil publicações e renda própria. “Ele nasceu como um hobby, uma brincadeira e permanece assim até hoje. Muito do nosso crescimento vem do jeito que a gente toca isso tudo, sem ficar comprometido com o lucro ou ter uma sede própria. A gente não tem horário para entrar, nem pra sair, não tem chefe e nem hierarquia. Acho que esse tipo de ambiente favorece a criação, você fica mais à vontade, fica mais livre”.

Questionado sobre a rentabilidade das piadas criadas, Nelito é enfático. “Somos tão ‘mentirosos’ quanto uma novela, porque aquelas pessoas não existem, aquilo tudo é invenção. O que a gente faz é ficção em formato de notícia, que é nossa matéria prima. Atualmente, somos o único jornal do Brasil que está contratando. É engraçado e triste, ao mesmo tempo. Fui jornalista durante 20 anos, Martha e Zorza também são da área; então vivenciamos redação durante anos e o site tem muito daquele ambiente das brincadeiras que surgem nas reuniões de pauta, apuração e fechamento”. Para ele, o hábito do brasileiro transformar tudo em piada é uma atitude sábia. “Na dramaturgia, existe um recurso chamado respiro cômico. Então depois de uma cena forte, uma situação muito pesada, é comum inserir uma engraçada pro expectador poder respirar. O humor tem essa função na sociedade, permitir um alívio quando a realidade não é muito favorável; é por isso que a gente faz tanta piada quando uma pessoa morre ou acontece uma tragédia. E ele também permite uma reflexão sobre o momento atual, o que artigos sérios, muitas vezes, não conseguem porque não surpreendem tanto”.

Como nasce uma “não notícia”

Assim como outros jornais, o Sensacionalista também tem reunião de pauta, só que ela acontece via WhatsApp. “É um grupo como tantos outros engraçadinhos que existem por aí, só que a gente externa isso em algum momento”. A equipe passa o dia todo acompanhando o que está acontecendo no mundo e no Brasil, incluindo o que está rolando nas redes sociais e comenta até chegar à piada. “Funciona como um teste também, afinal, só publicamos se pelo menos mais alguém ali rir. E isso enriquece, porque um comenta, outro melhora, pergunta, questiona se aquilo não está ofensivo até chegarmos na ideia final e aí quem sugeriu, escreve”, finaliza.