Índios em Guarulhos: como vivem, o que pensam e o que reivindicam

Foto: José Luiz, arquivo PMG (https://bit.ly/2rbInla)

“A cidade de Guarulhos tem nome indígena, mas não valoriza o povo indígena. Muita gente na cidade não conhece os índios e muitos não respeitam”. A frase é de Awaratan Wassu, nome indígena adotado por Lenildo Máximo, 36 anos, diretor de cultura da principal organização indígena do município, a Associação Arte Nativa Indígena, fundada em 2002 para resgatar a cultura e a história do povo indígena e representá-lo na promoção e defesa de seus direitos. O presidente da entidade é Awa Kuaray Wera, de nome civil Gilberto Silva dos Santos, 46 anos. Awaratan, de descendência étnica Wassu-Cocal, nasceu em Guarulhos, mas Awa Kuaray Wera, de etnia Tupi, descendente dos Tupinambás, veio da Aldeia Bananal, a mais antiga do Estado de São Paulo. O Click Guarulhos falou com eles, que são fundadores da Associação e hoje se apresentam como principais líderes dos índios na cidade.

De fato, foram os índios os primeiros habitantes de Guarulhos e região e, claro, não há dúvida de que o nome da cidade é mesmo indígena, embora haja controvérsias sobre a sua exata raiz etimológica. Alguns historiadores afirmam que “Guarulhos” derivaria da expressão ‘gu-aru-bo’, ‘trazidos’, ou os índios ‘trazidos’ pelos jesuítas. Para outros, seria a denominação dada pelos portugueses aos Goitacaguaçus, que com o tempo passaram a ser chamados Guaçus, depois Guarus e, por fim, Guarulhos. Há os que afirmam que seria uma corruptela de Garumimim e, ainda, aqueles que sustentam ser ‘guarulho’ um tipo de peixe barrigudo, abundante no rio Tietê. No livro “Repaginando a História”, o escritor e historiador João Ranali cogita que a associação com o nome do peixe seria devido à compleição física dos indígenas que por aqui habitavam e que seriam também baixinhos e barrigudinhos.

Controvérsias nominais à parte, pouco se sabe que fim tiveram esses indígenas. Alguns fugiram da escravidão, outros morreram vítimas de doenças trazidas pelos europeus e muitos se miscigenaram aos brancos até que sua cultura foi, com o tempo, enfraquecida ou extinta.

Foto: https://goo.gl/znbJKS

Segundo a Associação Arte Nativa, hoje seriam pouco mais de 1.700 indígenas em Guarulhos, originários de várias partes do Brasil, mas a Prefeitura contesta esse número. A Subsecretaria da Igualdade Racial, da Secretaria Municipal de Assuntos Difusos, informa que, oficialmente, a população de índios considerada é de 1.434 pessoas, com base nos dados do IBGE, de 2010. Face à divergência dos dados de uma e outra fonte, é razoável estimar a população indígena da cidade atual esteja entre 1.500 e 1.600 indivíduos, um número médio entre os dois parâmetros. Talvez a entidade indígena tenha superestimado a contagem, mas também os dados da Prefeitura podem estar já bem defasados, passados oito anos do último censo oficial. Nesse período, a população cresceu, por causa da migração comum e constante de índios de outras localidades do país para cá e também em razão do nascimento de crianças índias na cidade.

As lideranças indígenas da Arte Nativa e a Prefeitura também divergem quanto às etnias que formam essa população. Seriam sete, de acordo com a Subsecretaria da Igualdade Racial, que reconhece apenas as etnias Wassu-Cocal, Tupi, Kaimbé, Fulni-ô, Pankararé, Pankararu e Pataxó, enquanto para aquela entidade seriam 16 etnias: além daquelas sete, também os povos Xucuru, Guajajara, Xavante, Geripanko, Terena, Guarani, Tupinambá, Kariri-Chocó e Truká.

As divergências, porém, não causam estranhamento, uma vez que as lideranças indígenas ouvidas criticam (e muito) o governo municipal que, por sua vez, não reconhece a Associação como entidade representativa de todos os indígenas da cidade. Awa Kuaray Wera e Awaratan Wassu, por sua vez, consideram a entidade muito representativa de todo o povo indígena em Guarulhos e alegam que seria impossível a qualquer instituição ter como associados oficialmente os 100% da população.

A Associação Arte Nativa Indígena surgiu como cooperativa de produção e distribuição de artesanato, mas ampliou sua missão para posicionar-se atualmente como organização social representante da população indígena na cidade para defesa e promoção de seus direitos e reivindicação de maior atenção do poder público e da sociedade às suas demandas. Também atua na promoção de ações para gerar renda e para resgatar a história e a cultura indígena em Guarulhos. A entidade tem 250 indígenas associados, dos quais 80 indivíduos, ou 25 famílias, vivem na Aldeia Filhos da Terra em área de 130 mil m2, que os indígenas dizem a eles pertencer desde os tempos dos índios Guarus. Localizada na altura do número 5.600 da avenida Benjamim Harris Hunnicutt, à margem do Rodoanel, no bairro do Cabuçu, a aldeia é onde produzem artesanatos, plantam e colhem e promovem ações culturais, religiosas e educacionais.

Foto: Awaratan Wassu.

O primeiro espaço construído foi a ‘Casa da Reza’ (Opy, em tupi-guarani), lugar sagrado para cultos e orações a Nhanderú (‘deus’ em tupi-guarani, ou Tupã, no tupi arcaico). Ali, segundo Awaratan, os índios rezam “para que as coisas deem certo, que tudo aconteça com mais clareza, para que o povo indígena seja enxergado, além do aspecto político, mas o lado humano e social acima de tudo”.

Fotos: Awaratan Wassu

As moradias são bastante precárias, sem qualquer padrão: barracos de madeira, cabanas de palha e barracas em tecido, construídas pelos próprios índios, com a ajuda de voluntários. Os materiais foram doados por pessoas e organizações sociais, além de grupos ligados às igrejas Católica e Anglicana. Apesar da mínima e precária estrutura que foi possível levantar, a aldeia já viu nascer ali novos membros para a comunidade.

Foto: Awaratan Wassu

Há um espaço destinado a ser escola. Já conta com carteiras e lousa, mas ainda sem professores. Por isso, 20 crianças e 10 jovens da aldeia estão sem estudos. A Fundação Nacional do Índio (Funai) afirma que “o povo indígena tem direito a uma educação escolar específica, diferenciada, intercultural, bilíngue/multilíngue e comunitária, conforme define a legislação nacional que fundamenta a Educação Escolar Indígena. Seguindo o regime de colaboração, posto pela Constituição Federal de 1988 e pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), a coordenação nacional das políticas de Educação Escolar Indígena é de competência do Ministério da Educação, mas cabe aos Estados e Municípios a execução para a garantia deste direito dos povos indígenas” (cf. https://bit.ly/2Jo1gIq).

Os líderes Awa Kuaray e Awaratan, porém, reclamam da falta de apoio e de interesse da Prefeitura em atender as reivindicações para instalar a escola e enviar professores, “como manda a lei”, dizem. Mas, também não obtiveram respostas a esta demanda no que concerne ao governo estadual. “Não entendemos. Outras aldeias não demarcadas já têm escolas em pleno funcionamento”, diz Awaratan. A Prefeitura não esclareceu especificamente sobre o assunto. Apenas informou, através da Subsecretaria da Igualdade Racial, que o eixo 3 de seu Plano de Governo “concebe a educação, cultura, ciência, tecnologia e inovação como um único corpo estratégico, indissociável da cidadania plena e fundamento do desenvolvimento sustentável. A ênfase na educação pública de qualidade, visa permear todas as políticas públicas propostas pelo Plano de Governança”. Não é possível compreender o que, exatamente, significa essa frase, mas, o que se pode depreender da explicação é que, para a Prefeitura, a população indígena deve recorrer à rede pública de educação, estadual ou municipal, conforme a faixa etária dos alunos, como quaisquer cidadãos. Até porque a administração municipal não considera legal o aldeamento onde pleiteiam a escola (sobre a questão fundiária que envolve o projeto Terra Sagrada, o Click Guarulhos publicou matéria específica em https://bit.ly/2vPIGXL).

Awa Kuaray Wera

Outra frente importante da Associação Arte Nativa, segundo seus dirigentes, são as ações que visam o resgate da cultura e da tradição indígena, especialmente para preservação da língua, da história, dos usos e costumes indígenas, através da educação, da produção e distribuição de artesanatos e de manifestações culturais, como as danças e a contação de histórias. Este resgate também consiste em buscar e reunir o povo indígena disperso pela cidade. Awa, Awaratan e outros “educadores indígenas”, como se denominam, saem pela cidade à procura de índios ou descendentes que ainda não estejam associados e conscientizá-los quanto à importância e necessidade de aderirem às práticas linguísticas e culturais da comunidade e lutar pelos direitos indígenas. Por isso, os líderes e aqueles que vivem na aldeia sempre estão caracterizados com vestimentas, adereços e pinturas para serem vistos e identificados com facilidade e, assim, tornarem-se referência a outros indivíduos indígenas e também a pessoas que possam simpatizar com a causa e apoiar ou ajudar de diversas formas.

Viver na aldeia Filhos da Terra não é fácil, diz Awaratan. Na verdade, é muito difícil. As 80 pessoas das 25 famílias que moram ali não têm transporte, pois onde passam os ônibus é bem distante da aldeia. Não há saneamento básico e a infraestrutura também é muito precária. Falta muita coisa. A Prefeitura diz que, por ser o local propriedade privada, não cabe ali ação direta da municipalidade.

Foto: Fac-símile de documento PDF do Sebrae-SP, regional Guarulhos.

O Sebrae-SP, regional Guarulhos, também presta suporte eventual à Associação Arte Nativa e aos índios da Aldeia Filhos da Terra. Em 2015, com o Grupo de Trabalho de Políticas Públicas para os Povos Indígenas de Guarulhos (GTTPP-PIG), promoveu uma oficina de planejamento participativo com os indígenas, conduzida pelos consultores Michele Sabino e José Carrilho, e que resultou em propostas de ações organizadas em quatro eixos: direitos, relações institucionais, garantia de direitos sociais e geração de renda. Awaratan diz que a “a parceria foi excelente, a Michele e o Carrilho foram ótimos. O Sebrae ajudou muito em nossa organização, deu suporte e assessoria para criar eventos de geração de renda; participamos da Feira Brasil Original e tivemos ótimo retorno”. Salienta, porém, que ultimamente o relacionamento com o Sebrae não está muito ativo porque a prioridade da Associação é a questão da terra, mas eles pretendem retomar a parceria em breve. Afinal, complementa Awaratan, “a retomada da terra e o projeto Terra Sagrada são consequência da organização que conseguimos com ajuda deles; foi tudo muito bem planejado”.

www.funai.gov.br

“Contamos também o apoio de órgãos federais, como a Fundação Nacional do Índio (Funai) e a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). Temos assessoria jurídica do Ministério Público Federal em Guarulhos, através da doutora Raíssa, e também da Procuradoria da União, através do doutor Rogério”, explica o presidente Awa Kuaray. Segundo ele, os índios na cidade também contam com “alguma ajuda da Secretaria Estadual de Justiça e Cidadania”. Porém, Awa Kuaray e Awaratan Wassu afirmam que do governo municipal “não têm apoio algum, nem na cidade, nem na aldeia”. Em nota, a Prefeitura esclarece que “quanto à ajuda aos índios da cidade, todas as pessoas em situação de vulnerabilidade social são assistidas pela Secretaria de Desenvolvimento e Assistência Social (SDAS), mediante inscrição no CAD-Único, e consequentemente inseridas nos programas de transferência de renda, de acordo com os critérios de cada um”. Não esclarece, porém, quantos indígenas são cadastrados na SDAS e se todos são efetivamente assistidos pelos programas citados.

Os índios ressaltam, porém, uma exceção: a Secretaria Municipal de Saúde, que, segundo eles, “não cortou relações com os índios” e continua a dar-lhes suporte. Segundo relatam, o órgão já promoveu campanha de vacinação na aldeia Filhos da Terra e os índios, quando precisam, recebem bom atendimento na UBS do Cabuçu, a mais próxima da aldeia, e também na UBS Cidade Soberana, onde, diz Awa, o atendimento aos índios é diferenciado, pois conta com uma agente de saúde indígena contratada pela Sesai, mas que presta serviços ao município. A Prefeitura confirma “a parceria firmada entre a Secretaria Municipal de Saúde e a Sesai, (que permitiu) a contratação de uma Agente de Saúde Indígena que passou em formação pela equipe da Subsecretaria da Igualdade Racial”.

Para casos mais complexos, os índios recorrem à rede estadual de saúde, como o Hospital Geral de Guarulhos e o Ambulatório do Índio, na Capital, bairro Santa Cruz, pertencente ao Hospital São Paulo, da Escola Paulista de Medicina, que recebe pacientes indígenas desde a década de 1960. Mas, segundo Awa, também é comum eles acionarem “a Alice, da Secretaria Municipal de Saúde, que faz alguns encaminhamentos”.

DISCRIMINAÇÃO

Os índios que não participam da Associação estão dispersos por vários bairros de Guarulhos. Para Awa, “a maioria se esconde; não se identificam como índio, não querem aparecer como índio”, por receio de serem estigmatizados e sofrerem discriminação, ou por terem-se aculturado a tal ponto que perderam as referências de seu povo.

O presidente da Associação, Awa Kuaray, informa que a maior comunidade indígena em Guarulhos são os xucurus que vivem na região do Jardim Adriana e Cocaia e, depois, a aldeia no Cabuçu. Fora dessas duas concentrações, boa parte vive em condições precárias na periferia da cidade, muitas vezes em áreas de risco, como as margens de córregos. Enfim, em situação de pobreza.

Um dos grandes problemas dos indígenas, de um modo geral, e não é diferente para os de nossa cidade, é o estigma que, na Sociologia, significa “a marca que designa alguém como desqualificado ou menos valorizado, que está inabilitado para aceitação social plena” (cf. https://goo.gl/QWyMPP). A estigmatização gera discriminação e leva à exclusão social.

Awaratan Wassu

Os índios de Guarulhos, segundo narram Awa e Awaratan, também sofrem muito preconceito, com frequência são insultados e até ameaçados de agressões. Awa conta que muitas pessoas nas ruas, nos coletivos, em todo lugar, olham os índios com curiosidade e espanto, como se fossem animais exóticos. Ironia pura, pois o termo exótico significa “estrangeiro, o que não é originário do país em que ocorre; que não é nativo” (https://goo.gl/orFVY1), e nada mais originário e nativo em nosso país do que o povo indígena.

“Difícil entender este comportamento dos ‘brancos’”, diz Awaratan. E, se prestarmos atenção, há mesmo uma contradição da parcela social que estigmatiza os índios porque, em geral, são aceitas com naturalidade, por exemplo, pessoas tatuadas, com cabelos coloridos ou piercings no rosto e outras partes do corpo, mas é comum o estranhamento ao ver um índio com suas roupas típicas, seus adereços tradicionais e suas pinturas corporais. Isso sem contar as ocasiões em as que pessoas comportam-se com aversão ou até repulsa por eles.

Conta o presidente da Associação Arte Nativa que é tristemente comum os índios serem alvo de chacotas e humilhações em locais públicos, como na linha de ônibus que eles mais utilizam para deslocamentos do Jardim Acácio para o metrô Tucuruvi. Ele conta que no mesmo sábado, 21, em que falou ao Click Guarulhos, sua irmã foi vítima de insultos naquela linha de ônibus. “Nós estamos sempre a caráter, com nossas roupas, com o cocar, e as pessoas falam mal, riem, estranham que falemos ao celular, acham que se é índio, não pode ter celular. Também sofremos com preconceito dos motoristas dos ônibus, que com frequência passam direto quando veem os índios no ponto”, diz Awa Kuaray.

Anderson Guimarães, subsecretário da Igualdade Racial. Foto oficial. Site PMG (https://bit.ly/2KjI5Rf)

A nota da Prefeitura diz que “cabe à Subsecretaria (da Igualdade Racial, da Secretaria de Assuntos Difusos) promover periodicamente sensibilizações e capacitações aos servidores municipais para conhecerem as políticas de promoção da igualdade racial e compreenderem as especificidades dos povos e comunidades tradicionais, com o intuito de trabalhar as questões de identidade e diversidade, com viés da desconstruções dos estereótipos que levam a violações de direitos dessas populações” e que, neste sentido, iniciou no último dia 17/04 o “curso Povos Indígenas, sua História, Cultura e Direitos, no Centro Educacional Adamastor”. A administração municipal, porém, não cita ações voltadas à população de Guarulhos para fomentar respeito à identidade indígena e mitigar comportamentos discriminatórios e excludentes do povo na cidade. No entanto, ressalta em outro ponto que “os indígenas que deixaram suas aldeias e migraram para os grandes centros têm necessidades diferentes daqueles que lá permaneceram, como, por exemplo, a autoidentidade que no meio urbano muitas vezes fica invisibilizado (sic)”, sem esclarecer o que exatamente isso significa ou o que tem a ver com a questão tratada.

Awa Kuaray Wera faz um apelo à população e ao governo: “O povo indígena quer ser enxergado pela cidade, não quer mais ser ignorado. Queremos ser vistos e tratados como cidadãos e ter respeitados nossos direitos e preservadas nossa história e nossa cultura”.

Awaratan Wassu finaliza: “Que sejam atendidas nossas demandas por terra, saúde e educação, para todo nosso povo que vive na Aldeia Filhos da Terra. O respeito leva ao amor e à comunhão; a solidariedade leva à coletividade”.