Infância no Sanatório Padre Bento

Casas para aluguel dentro do sanatório, os internos eram reunidos conforme sua condição social e forma física da doença.

por van Canoletto Rodrigues*

Inaugurado em 1936, abrigava cerca de 300 crianças, entre 5 e 17 anos de idade.

Meninos e meninas eram separados em alas diferentes. O pavilhão contava ainda com escola, área de lazer e era separado do restante do complexo por uma área arborizada.

Ainda hoje, é possível encontrar móveis no atual Hospital Padre Bento, que foram feitos por jovens aprendizes de marcenaria.

É importante ressaltar que não encontrei nenhum registro de violência contra esses menores durante a pesquisa, todos os serviços do pavilhão foram bastante elogiados, exceto por algumas reclamações da cozinha.

Mesmo gozando do convívio de outras crianças, ainda era dura a separação dos pais e da família, o Sr. Arnaldo Rúbio, que ficou internado dos 12 aos 18 anos, relata com muita emoção o fato de seu pai, também hanseniano, ter sido internado em outro leprosário, em Bauru, interior de SP, fazendo com que a família o acompanha-se enquanto Arnaldo ficara sozinho no Padre Bento, o único dos cinco leprosários do estado a ter um pavilhão para menores hansenianos.

Nem mesmo o campo de Futebol, descrito com grande empolgação, foi capaz de apagar da memória tal sofrimento. Possuía medidas oficiais, pintado em braço e preto, cores do Sport Clube Corinthians Paulista, segundo relatos, time de futebol do coração do coração do diretor Dr. Lauro de Souza Lima, aliás, um diretor muito querido pelos internos, sempre elogiado por seu lado humano e tido nos relatos dos pacientes como um dos poucos que não demonstrava medo ou nojo dos doentes.

Em discurso feito a alunos de medicina que visitaram o Padre Bento, Dr. Lauro demonstra sua lógica humanista ao ressaltar o fato de que não é pela lepra ser uma doença ainda incurável que o leprosário deveria se tornar apenas um depósito de pessoas, que seu objetivo era o de amenizar o sofrimento dos pacientes, seja o físico ou as angústias causadas pelo estigma da doença. Dr. Lauro também foi o primeiro a introduzir e testar as sulfonas no Brasil, novamente sendo o Padre Bento o pioneiro, esse tratamento levou a cura. O médico residia no sanatório, de onde, segundo contam, ele só saía para acompanhar os jogos de seu time de coração.

* Mestrando em História, coautor do livro “Signo e Significados em Guarulhos: identidade, urbanização e exclusão” .