Júnior Araújo, o “Industrial do Ano”

José Araújo Júnior, 39 anos, diretor da Perfil Líder, fabricante de eletrocalhas e perfis metálicos, e da loja de materiais elétricos Eletroferro, recebeu do Ciesp Guarulhos o título de “Industrial do Ano”. Ele conta sua trajetória e revela sua visão empresarial.

Onde nasceu? Quando e por que veio para Guarulhos?

Nasci no Brás, em São Paulo, e vim para Guarulhos aos 17 anos, porque meu pai tinha comércio aqui. Ele e minha mãe haviam se separado, ela mudou-se para Santa Catarina e eu preferi ficar em São Paulo, pois minha vida profissional já seguia por aqui.

Qual sua formação?

Fiz o curso de direito, na FIG, mas não cheguei a concluir, porque ficaram umas DPs, estava muito ocupado com o trabalho, na época em uma multinacional. Sempre fui fissurado em trabalhar até tarde e isso atrapalhou meus estudos e a conclusão do curso.

Como iniciou sua vida profissional?

Comecei a trabalhar com 13 anos como office-boy em uma contabilidade na vila Formosa, São Paulo; estudava pela manhã, trabalhava à tarde e recebia meio salário mínimo mensal. Com 15 anos, para ganhar o salário mínimo inteiro, passei a estudar à noite. Para ter mais dinheiro, comprava calças jeans no Brás e vendia para amigos e conhecidos. Aos 16 anos, consegui emprego como auxiliar de vendas. A empresa estava em situação financeira difícil, vendedores saíam por falta de pagamento; resolvi ficar para aprender e tive oportunidade de ser vendedor, mas aprendi também sobre compras e financeiro. Um ano depois, a empresa não resistiu. Recebi minha rescisão em máquinas e, com 17 anos surgiu meu primeiro negócio físico, junto com uma pessoa que atuava no ramo de sucata. Infelizmente, durou apenas 7 meses, mas surgiu oportunidade como vendedor em uma grande empresa de aço. Procurei aprender com outros vendedores e lá fiquei 5 anos, ganhando vários prêmios pelo desempenho. Quando saí, fui indicado para ser representante da multinacional Gonvarri. Viajei a Curitiba e eles queriam alguém com escritório de vendas montado; pedi 15 dias e, no prazo, estava com sala alugada, computadores, mesas, tudo comprado parcelado, certo de que o resultado seria rápido. Um ano depois, contratei duas pessoas para me dar suporte e minhas vendas aumentavam mês a mês; cheguei a ter cinco pessoas trabalhando comigo e gerávamos faturamento de uns R$ 7 milhões.

Depois disso, abriu sua empresa?

Foram 7 anos como representante, até que, em 2006, acharam que ganhávamos muito e preferiam trabalhar com vendedores próprios. Eu tinha alguma reserva, imóveis… Então, resolvi montar a Açomavi, de distribuição de materiais para serralheria. Em 2007, associei-me com uma pessoa que desejava montar uma indústria e tinha experiência; inicialmente, arrendamos uma empresa do Cambuci, até entender o negócio. Dois anos depois, tínhamos 80 funcionários e faturávamos R$ 2 milhões. Mas, por divergências de opinião, resolvemos dissolver a sociedade. Era o final de 2009, e foi muito difícil, porque ele era do ramo e eu não. Eu me senti sozinho, o time comercial ficou com ele. Dividimos ativo e passivo, embora tivéssemos dois CNPJs com o nome Perfil Líder.

Como foi o recomeço?

Em 18/12/2009, recomecei. Busquei pessoas para vendas, galpão para alugar… O passivo estava complicado: prestação de máquinas e de caminhão para pagar, a folha do pessoal de 5 de janeiro. Eu chorava à noite, porque não tinha um centavo. Porém, tivemos a sorte de um pedido salvador. A única vendedora que veio comigo conseguiu um pedido da loja Etna de R$ 220 mil, no dia 27/12. Eu tinha maquinário e a matéria-prima para produzir o que a obra precisava. No começo de janeiro, faturamos, descontei os títulos, o que deu fôlego para buscar outros clientes. Em janeiro de 2010, tínhamos 15 funcionários. Em meados de 2013, nosso pico, chegamos a ter 233 funcionários.

Quantos tem atualmente e qual sua estrutura?

Temos 130 funcionários, uma unidade com 10 mil m2, três galpões construídos em terreno alugado, porque evitei imobilizar. Em 2013, abrimos a unidade de Bonsucesso, com 8 mil m2.

A quê atribui seu crescimento?

Pegamos a boa fase da construção civil, mas só isso não bastaria, porque outros não conseguiram. Soubemos aliar oportunidade com competência, além da união da equipe e o apoio dos colaboradores.

E como tem feito para driblar a crise?

Dificuldades todos têm; quando sentimos que era preciso retroceder um pouco, demitimos o mínimo imprescindível; senti em ter de demitir, nem tive coragem de fazer pessoalmente a demissão de antigos funcionários, aos quais sou muito grato. E para saber como agir, leio muito, converso com clientes, concorrentes, fornecedores, vou reunindo opiniões, vou moldando a forma de administrar.

Por que resolveu abrir a loja Eletroferro?

A loja surgiu como distribuidora Perfil Líder, porque a indústria começou a ter dificuldade de atender pequenos clientes. Na loja, colocamos os principais itens no estoque para pronta entrega. Mas, começaram a surgir pedidos de materiais elétricos, já que nosso produto principal são eletrocalhas. Não queríamos concorrer com clientes da Perfil Líder, mas as circunstâncias nos obrigaram a ampliar. A Eletroferro é um cliente da Perfil Líder e tem uma ampla linha de produtos do ramo. Completa dois anos agora em julho, redimensionada para suas reais necessidades.

industrial-do-ano-guarulhos-2016Vários ramos de atividade queixam-se da qualidade da mão de obra. Tem tido dificuldade de contratar bons profissionais?

O maior problema da indústria é a mão de obra; ter funcionários com visão de empreendedor, perceber que o progresso é benéfico para a empresa e para eles. Tenho excelentes profissionais, mas sempre há os que só se preocupam com os dias de pagamento, por não terem a cultura de não é só o patrão que ganha dinheiro. Todos deveriam se perguntar: “Se a empresa fosse minha, eu agiria assim?”. O bom funcionário emite opinião, dá sugestões; e o empresário tem de estar aberto a ouvir.

Por que resolveu engajar-se nas entidades representativas do empresariado?

Sou a favor de participar na busca de melhorias coletivas, por entender que ninguém faz nada sozinho. É meu desejo participar do dia a dia da cidade, por ser onde moro, onde constituí minha empresa, defendo consumir tudo em Guarulhos e me senti na obrigação de participar do Ciesp, da Asec, da ACE, por vários motivos, incluindo o network, a possibilidade de conhecer novas empresas, de dialogar com outros empreendedores, saber o que eles passam, como agir em determinado problema.

Por que acha que recebeu o título de Industrial do Ano?

Creio que tenha sido devido ao crescimento rápido e também à divulgação da empresa, gosto de marketing. Em minha opinião, a propaganda que não funciona é que não é feita. Ainda que não ajude a vender diretamente, ela é importante para que o nome seja conhecido e, a partir daí, respeitado. Entendo também que nossa participação nas entidades, na mobilização por uma cidade melhor para todos, tenha contribuído. Estou muito feliz com esse reconhecimento, que aumenta nossa responsabilidade. E faço questão de dizer que o devo a cada funcionário que fez sua parte para o crescimento da Perfil Líder. E a toda minha família, que me deu suporte moral e psicológico para superar todos os obstáculos.

junior-araujo-industrialGuarulhos passou por uma transformação, reduzindo a influência da indústria e ampliando a do comércio e serviços. Isso é positivo ou negativo?

Apesar de ter o comércio, gosto da indústria, de ver o processo de transformação; lamento muito quando vejo alguma indústria fechando ou sendo forçada a sair, indo para onde tem mais incentivo, mais estrutura. Guarulhos precisa perceber que a indústria remunera melhor, treina mão de obra qualificada, gera mais benefícios. Precisamos reverter esse processo, segurar as indústrias aqui e trazer novas fábricas para a cidade.

Quais seriam, em sua opinião, as medidas prioritárias que o próximo prefeito deve adotar?

Acabar com troca de favores, amar a cidade, não pode olhar só para a região central. Quantos bairros muito habitados merecem uma atenção, como o Fortaleza, Cabuçu, Recreio São Jorge, Mikail, Sadokin, Álamo… São regiões abandonadas, toda equipe do prefeito precisa conhecer mais e valorizar os bairros, para que cresçam em estrutura e assim possam gerar empregos locais. Atendimento de saúde é fundamental. E planejar melhor os meios de locomoção, senão vai chegar um momento em que a cidade vai travar: precisa ter mais viadutos e pontes, vias alternativas. E investir em esportes, pois é a melhor forma de conquistar os jovens para atividades sadias, envolvê-los pelo esporte para a educação.