Locomotiva da praça IV Centenário nunca trafegou em Guarulhos, conta historiador

Neste domingo, 18, entre outras atividades de revitalização da praça IV Centenário, no Centro de Guarulhos, populares incentivados pelo escritor, folclorista e agitador cultural Bosco Maciel farão a lavagem da locomotiva que adorna o local.
Ali funcionava a estação Guarulhos do ramal da estrada de ferro da Cantareira, que seguia até a Base Aérea. Por isso, nos anos 1970, foi colocada como um monumento à saudosa memória da ferrovia a locomotiva “Dona Joaninha”.
É razoável que a população de Guarulhos imagine tratar-se de uma máquina que trafegava pela cidade. No entanto, segundo o historiador Silvio Ribeiro, que assim como Bosco é membro da Academia Guarulhense de Letras, ela nunca foi utilizada na linha de Guarulhos.
A história da locomotiva “Dona Joaninha”é contada em seu livro “Trem de Guarulhos”. Para esclarecer sobre as origens e a história desta intrigante e bela locomotiva, Silvio convidou seu colaborador ‘Leandro Guidini’, que além de especialista sobre trens é maquinista com larga experiência em locomotivas a vapor.
Conta Leandro Guidini: Para contarmos a história desta locomotiva, temos que citar um importante nome, por vezes esquecido, que é João Bottene, o gênio da mecânica. João era filho de imigrantes italianos, chegados ao Brasil em maio de 1888. Seu pai, Pedro Bottene, era especialista em ferramentas e implementos agrícolas, não demorando muito para que saia da lavoura e comece seu pequeno negocio, na cidade de Piracicaba, denominado “Bottene & filhos”, onde fabricavam charretes, arados, enxadas e parafusos sob a marca “Estrela”.
O jovem João desde cedo ajuda seu pai e aprende o ofício na oficina conciliando seu tempo com os estudos, demonstrando grande interesse pela mecânica. Pelos bons serviços prestados, a Bottene & Filhos ganha fama e logo entra para o ramo da manutenção de locomotivas e barcos a vapor. Consegue, nos anos 1920, um contrato exclusivo com a Estrada de Ferro Sorocabana para a manutenção de suas locomotivas, tendo sido construído um desvio ferroviário para dentro de sua oficina.
Porém, uma crise política faz com que a EFS cancele seu contrato anos mais tarde, deixando sua firma em situação ruim. Por volta de 1937, faz um acordo com a família Morganti, dona das usinas Monte Alegre e Tamoio, durante a grande expansão da indústria açucareira, e vende sua oficina para eles, tornando-se o gerente e carregando consigo todo o seu pessoal para o novo endereço na usina Monte Alegre, em Piracicaba.
Por demanda da usina, em 1938 constrói a primeira locomotiva inteiramente nacional, batizada como “Fulvio Morganti”, para trabalhar na Monte Alegre, em bitola de 60cm
Bottene não parou por ai, construindo e aprimorando outras locomotivas.
Seu segundo grande feito foi a construção de uma segunda locomotiva, esta para trabalhar na Usina Tamoio – na região de São Carlos –, com bitola de 1 metro, utilizando algumas peças de sucata de uma antiga locomotiva da EFS (chassis, rodas e cilindros de vapor), sendo inteiramente construída uma nova caldeira, tanques de água, cabine, depósito de lenha e truque traseiro, tudo isso nas novas dependências da oficina na Usina Monte Alegre. Pesava 150 toneladas e conseguia transportar até 1300 toneladas de cana.
A esta locomotiva, foi dado o nome de “Dona Joaninha”, em homenagem a Dona Joana Morganti, dona da usina. Sua inauguração deu-se na segunda quinzena de janeiro de
1940, em grande comemoração celebrada com todos os membros da família Morganti, além de  diretores e funcionários da Usina Tamoio.
A ferrovia da Usina Tamoio terminava na estação Tamoio (no município de Ibaté, próximo a São Carlos) da Cia Paulista, onde os trens carregados de açúcar faziam a baldeação. Funcionou até meados dos anos 60, quando a ferrovia foi fechada. Até pelo menos o ano de 1976, essa locomotiva esteve nas dependências da usina, quando foi trazida para a região de Guarulhos.
Silvio Ribeiro conta que foi feita uma parceria com a Prefeitura de Guarulhos, tornando a “Dona Joaninha” um monumento na Praça IV Centenário, em frente à antiga estação do Tramway da Cantareira. Por estar diante da Estação Guarulhos, e não ter qualquer informação afixada no local, muitos cidadãos guarulhenses pensam equivocadamente que se trata de uma locomotiva da antiga linha da Cantareira.
Na opinião de Bosco Maciel, entretanto, esse fato não impede que as pessoas que querem bem à cidade dediquem um pouco de seu tempo, neste domingo, para zelar pela melhoria do aspecto da locomotiva. Ainda que ela nunca tenha trafegado em Guarulhos, está ali para celebrar o período no qual a cidade pôde contar com uma ferrovia.
Afinal, chegar a São Paulo seria muito prático se o ramal ferroviário tivesse sido preservado. Destruir uma estrada de ferro é bem mais fácil do que construir. Basta ver a demora na conclusão e os pesados investimentos que o Estado está fazendo para trazer um pequeno trecho do bairro paulistano de Engenheiro Goulart até o Aeroporto.
A partir das 10h, Bosco Maciel espera reunir muitas pessoas para ajudar na tarefa de lavar a “Dona Joaninha”.
Bosco Maciel