Mãe monotemática

Por Val Oliveira
Fotos: banco de imagens

Depois de ter filho você se tornou monotemática? A vida social e até o marido ficaram em segundo ou terceiro plano e 99% das suas postagens nas redes sociais são fotos do rebento ou de assuntos relacionados à maternidade? Ou seja, o seu filho passou a ser o único assunto em sua vida? É compreensível, louvável e necessário dedicar-se ao bebê. Porém, em excesso, esse comportamento pode ser prejudicial, tanto para a mamãe quanto para a criança.

A psicologia explica

Segundo Sandra Regina Gonzaga Mazutti, psicóloga, psicooncologista e mestre em ciências da saúde e terapeuta cognitiva comportamental, é comum após a maternidade, principalmente se for o primeiro filho, as mulheres se tornarem um pouco monotemáticas, cujo único assunto é o filho. “Na vida assumimos muitos papéis, e o de mãe, especialmente se for o primeiro filho, é uma experiência única que traz consigo muitas inseguranças, dúvidas, medos, mas também surpresas boas; afinal, é um novo papel que se está aprendendo, desenvolvendo e se percebendo no mundo como mãe. Desta forma, é comum que esta experiência seja compartilhada, a princípio, inúmeras vezes com amigos e familiares”, explica.

Entretanto, quando uma mãe foca demais sua atenção no filho e na maternidade, sua saúde mental e psicológica pode ficar comprometida. O apego exagerado da mãe pela criança pode ter consequências psicológicas negativas também para o filho. “Exercer a maternidade exige atenção constante nos cuidados e necessidades do bebê. O cenário fica mais complexo quando a mãe, por insegurança, dispensa sua total atenção à criança, em detrimento de outras questões importantes de sua vida. Diante deste contexto, a vida social, laboral e pessoal pode ficar disfuncional e a mãe vulnerável ao desenvolvimento de quadros de depressão e ansiedade, especialmente considerando que nesta fase são muito comuns as alternâncias de humor, pela descarga de hormônios desde a gravidez. A mãe que é dedicada e que responde às necessidades da criança acaba gerando um ambiente seguro. Amor, carinho e proteção são essenciais, mas na dose certa. O apego e cuidados exagerados de uma mãe superprotetora podem resultar em crianças inseguras e dependentes”, detalha.

Identificando o problema

De acordo com a profissional, quando a mulher perceber que está difícil desviar minimamente o foco, é hora de fazer um esforço para resgatar a vida social, o lazer, e o autocuidado, sem deixar de cuidar e preocupar-se com o bebê, obviamente.

“Isto é possível mantendo o vínculo afetivo e de cuidado ao bebê” declara Sandra, explicando que os sinais devem ser observados com atenção, pois nem sempre a “fixação” é sinal de problema. É um conjunto de fatores e comportamentos que podem dar “pistas”. Deixar de trabalhar, por exemplo, isoladamente não é um indício de dependência da mãe pela criança.

“Abandonar o emprego pode ser apenas uma opção por planejamento prévio da mulher; isto apenas não seria indicativo de que esteja se tornando monotemática. A questão é quando a pessoa passa a viver intensa e unicamente para o filho. Sua vida passa a girar em torno do mesmo, não sendo possível qualquer atividade ou assunto se o bebê não estiver envolvido”, completa.

Outra providência que pode colaborar para que esse laço não se transforme em nó e proporcionar maior desapego é dividir os cuidados com o bebê, nem que seja por uma ou duas horas por dia, com alguém de confiança. Geralmente, o papai é a pessoa mais indicada para repartir com a mamãe as tarefas e as responsabilidades dos cuidados com o bebê. “Desta forma, certamente a vivência da maternidade e paternidade poderá ser mais tranquila, refletindo positivamente na relação do casal”, aconselha a psicóloga.

Nos casos em que a mãe realmente não consiga desviar o foco e observe, ou seja alertada por alguém próximo que, emocionalmente, isto tem trazido prejuízos na sua vida pessoal e social, é aconselhável a busca da ajuda de um psicólogo.

mother-and-newborn-baby-3005O que a psicologia pode fazer?

Inicialmente, o psicólogo fará uma avaliação de como foi, ou se houve o planejamento da gravidez, o significado desse filho, quais são as idealizações acerca da criança, culpas e cobranças. “Também avaliamos outros aspectos da vida da pessoa como um todo, de tal forma que possamos identificar os problemas e dificuldades para um planejamento de metas a serem alcançadas. Desta forma, teremos uma modulação do humor, facilitando a flexibilização de pensamentos disfuncionais e mudança de comportamento”, conclui Sandra.

Sandra Regina Gonzaga Mazutti
Psicóloga, psicooncologista e mestre em ciências da saúde e terapeuta cognitiva comportamental
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