Meditação não precisa ser revestida de hábitos místicos ou religiosos

No passado, o homem estava mais voltado para si mesmo, no sentido interior, de se perceber, se sentir e, assim – também – compreender melhor o outro, além de praticar uma comunicação, uma troca ou uma relação mais real com seu semelhante. Porém, o avanço da tecnologia e as preocupações do mundo moderno que nos obriga a correr contra o tempo, muito provavelmente, têm colocado o homem no futuro, a ponto dele esquecer-se de si mesmo, de sequer compreender ou perceber suas próprias emoções e necessidades reais, já que os meios de comunicação, por sua vez, se encarregam de lhes ditar importâncias e estabelecer quais coisas são essências para a sua sobrevivência.

A meditação pode e deve se constituir em uma prática que “acalma” o homem e o recoloca no presente… onde ele vive, realmente. E, assim, afastá-lo da ansiedade do futuro e tirá-lo da depressão, quando a mente o coloca no passado trazendo vivências como culpa ou arrependimentos!

O fato da meditação, na concepção popular, estar vinculada à religião é um profundo engano, embora os grandes e verdadeiros religiosos do passado, que geralmente eram inteligentes e sensíveis, sempre dela lançaram mão. Depois, é preciso ir além e compreender que religiosidade é uma característica na natureza da alma humana e, muitas vezes, nada tem a ver com as instituições religiosas, propriamente ditas.

Se levarmos em conta as grandes tradições e suas origens vamos constatar que a própria natureza religiosa do homem, primeiro, estabeleceu a religião natural como forma de busca e compreensão das leis naturais para explicar as manifestações e justificar as causas, antes que a ciência pudesse – como tal – se organizar como conhecimento e confirmar, ou até mesmo negar, o que primeiro era apontado pela religião. Assim, não é diferente a questão da meditação que ao longo dos anos se revestiu de certa aura mística e ficou, por muito tempo, confinada nos templos.

Hoje a ciência a redescobre ou, antes, lança mão dela, para empregá-la em muitas práticas de apoio, inclusive, na área da saúde humana. A neurociência, por exemplo, é uma área que a estuda na atualidade e procura dela se utilizar em vários setores do desenvolvimento humano.

É obvio que no mundo capitalista tudo tende a ser absorvido pelo sistema e colocado no comércio como solução para problemas que – na maioria vezes – ele mesmo cria. Portanto, é preciso certa dose de cautela quando se trata da oferta de soluções milagrosas ou lenitivos que alguns oferecem para problemas que a própria vida moderna promove.

É preciso, também, certo cuidado se – realmente – deseja conquistar a verdadeira técnica da meditação, pois há no mercado inúmeros aplicativos que podem se constituir em meros “quebra-galhos”, em paliativo temporários, para certas ocasiões. Eles são como aspirinas que, muitas vezes, nos livram da dor de cabeça, mas não nos afastam da doença, já que técnicas verdadeiras – que permitem a mudança real de estados de consciência – requerem domínio de conhecimento e disciplina, só para começar. Isso requer tempo, sacrifício, renúncia e, também, dedicação, pois milagres pertencem a outras dimensões!

A meditação foi no passado, é no presente e será sempre, no futuro, uma técnica que pode ser compreendida, aprendida e aplicada à luz da própria ciência, estabelecendo, para aqueles que a praticam, um estado mental que traz resultados salutares às condições físicas, emocionais e, também, mentais do próprio homem.

Se ela pode nos levar a transcendência ou não? Só praticando-a para saber.

*José Paulo Ferrari – é psicólogo clínico, com especializações na área da Saúde.