Por Cris Marques
Fotos Arquivo pessoal,
banco de imagens e divulgação

As crianças aprendem e se desenvolvem com os estímulos que recebem do mundo ao seu redor. Com os desenhos, não é diferente. Por meio das situações expostas ali, naquela inocente telinha, elas vão absorvendo mensagens, assimilando conteúdos e criando suas verdades e é aí que os pais devem ficar atentos. Para Denise Curti Feliciano, psicóloga, psicopedagoga, doula e mãe de Raul, 4 anos, e de Laís, 2 anos, utilizar a TV como um meio de distração não é nada positivo. “Quanto mais vidrado, mais desligado de si mesmo, de suas sensações corporais e de suas conexões o pequeno fica. Pra mim, isso é extremamente sério para o desenvolvimento infantil; perde-se a criatividade e a qualidade das relações humanas”. Mas, de acordo com ela, proibir não é a solução. “Aqui também assistimos, mas bem pouco, cerca de 15 a 30 minutos por dia, e sempre selecionamos o que assistir. Eu e o pai sempre estamos juntos, interagindo, rindo, comentando algum acontecimento, destacando pontos da personalidade de algum personagem”.

Sobre a Peepa Pig, umas das personagens mais pôlemicas por seu comportamento mimado, competitivo e sua mania de chamar pais e amigos de “bobinhos”, a profissional assume não conhecer tão a fundo o que está por trás do enredo, mas que, assim como qualquer outra animação, a recomendação é acompanhar, conversar, orientar e criticar. “Assisti a um episódio ou outro da porquinha, inclusive um em que ela insistia na nomeação de uma melhor amiga, usei a situação para questionar com meu filho se era necessário mesmo ter um melhor amigo e classificar cada coleguinha […] A saída não é banir, mas estar junto nesse momento, que pode ser de aprendizado. Não dá pra gente controlar o tempo todo o que eles veem, ouvem, observam por aí, mas dá pra gente conversar com eles sobre tudo”.

 

Vigilância constante

Joana Alves Rios, arquiteta e urbanista e mãe de João Pedro, 4 anos, e de Luis Felipe, 8 meses, participa de um grupo no Facebook com mais de 10 mil mães brasileiras e foi por lá que viu o alerta de outra integrante sobre a animação “Dora Aventureira”. No episódio, a garota corta uma rede, muito parecida com a que usamos no País para proteger as janelas, para desobstruir seu caminho. “Foram pelo menos três postagens sobre o assunto e muitos comentários. A maioria gostaria que o episódio fosse retirado da programação, mas não houve nenhum retorno se alguém conseguiu contato com o responsável pelas transmissões no Brasil”.

Para ela, que sempre confere a faixa etária do programa e tenta, ao máximo, acompanhar seu filho mais velho no momento em que ele assiste à TV, os pais precisam participar da vida dos pequenos. “A Dora não ensina a cortar a rede de proteção das janelas, mas a criança pode querer imitar aquilo que viu. Cabe aos responsáveis antever a hipótese e trabalhar com o filho, para que ele não tente reproduzir o que não deve ser reproduzido. Muitos desenhos acabam ‘ensinando’ coisas inadequadas, e é impossível controlar, dentro do desenho preferido, o que é legal de ser mostrado ou não”.

 

Mundo Bita, um exemplo de boa prática

Preocupados com o conteúdo que os pequenos tinham à disposição nos meios digitais, Felipe Almeida, Chaps Melo, João Henrique e Enio Porto criaram a Mr. Plot, empresa de educação e entretenimento infantil, responsável pelo sucesso “Mundo Bita”. “O personagem nasceu antes mesmo da ideia. O Chaps havia feito inúmeras pinturas para ilustrar o quarto de Bebel, sua primeira filha. Entre as figuras criadas, estava aquele bonachão de bigode laranja. Um ano depois, quando tivemos a ideia do negócio, resolvemos apostar nele. […] Queríamos inicialmente ser uma editora de e-books, mas só depois percebemos que aquele modelo não era sustentável. Tentamos os desenhos animados musicais e começou a dar certo”, explica João (o primeiro à direita na foto abaixo), um dos roteiristas e diretor de comunicação da organização.

Com dois aplicativos em formato de livro digital, lançamento dos clipes, em 2012 e, já no ano seguinte o primeiro DVD e a estreia no canal de TV paga Discovery Kids, hoje já são mais de 130 milhões de visualizações no YouTube, presença destacada em plataformas importantes como Netflix, Play Kids e TV Brasil e a turminha estampada em produtos. “Já temos parceiros importantes, que foram desbravadores e apostaram na ideia, que agrega um valor positivo e educativo. Mesmo assim, é importante lembrar que o licenciamento não é nosso objetivo. Queremos criar experiências, ajudar as famílias no desenvolvimento das crianças, lotar teatros com a alegria do Mundo Bita; o restante vem a reboque”, finaliza.

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