Morre Fidel Castro, o polêmico líder da revolução cubana

Morreu na noite de sexta-feira, 25, aos 90 anos, o líder cubano Fidel Castro, que presidiu Cuba por 49 anos.

Ele liderou a revolução que depôs o governo ditatorial de Fulgêncio Batista, em 1959, tendo como principais apoiadores de Camilo Cienfuegos e do médico argentino Ernesto Guevara, o Che.

Seu governo nacionalizou bancos e empresas estrangeiras e implantou reformas consideradas essenciais para o regime socialista, contando com ajuda da União Soviética.

No final dos anos 1980, quando da fragmentação da União Soviética e a unificação da Alemanha, agravaram-se os problemas econômicos, dando início a uma crescente insatisfação de setores da população, o que pude testemunhar em viagem a Cuba, no fim de 1988, junto com o amigo Flávio Cavalle. No ano seguinte, cessaria a ajuda da Rússia.

Procuramos ouvir as pessoas nas ruas, utilizamos o transporte público, conversamos com taxistas e funcionários de hotéis e sentimos o quanto Fidel era endeusado pelo povo cubano. Goste-se ou não dele e do regime socialista, é inegável seu imenso carisma, que é o que lhe permitiu exercer o governo com mão de ferro durante tantos anos.

Em 2008, Fidel renunciou ao governo e em 2011 também à presidência do Partido Comunista Cubano (PCC).

Voltei a Cuba em 2012, com minha filha, Simone, embora ainda mais maravilhado com as riquezas naturais da ilha, com o apego do país à cultura e à preservação de sua história, notei o quanto a vida do povo cubano se deteriorou nesse intervalo de vinte e poucos anos. As submoradias em ruínas nas ruas estreitas da região central de Havana, onde moram dezenas de famílias, em situação semelhante à de cortiços das comunidades brasileiras, contrastam com imensos casarões em bairros muito bem cuidados nos arredores da mesma capital.

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Chamaram a atenção as dificuldades para adquirir gêneros de primeira necessidade. Ainda que para o povo cubano os preços sejam infinitamente menores do que para os turistas, eles têm cotas do que podem comprar de cada produto.

Evidentemente, que com a visão romântica que tem do socialismo, Simone viu tudo aquilo com olhos menos críticos do que os meus, o que foi reforçado pelo que ouvimos de um casal cubano que ainda defendia Fidel e o regime com unhas e dentes, apontando interesses escusos na crescente pregação pró-capitalismo que pudemos sentir nas conversas com outras pessoas comuns do país. Vi nessa segunda vez o que não se via na anterior: pessoas abordando turistas pedindo ajuda, buscando subterfúgios para ganhar um trocado, como cobrar para tirar fotos com crianças ou ao lado de um carro antigo bem conservado. Tivemos também testemunho da prática da prostituição, “agenciada” por funcionários(as) de espaços visitados por turistas. Tudo isso mostra que as mazelas do capitalismo contaminaram a pureza que se vislumbrava no regime que supostamente atenderia as necessidades da população sem recorrer a esses expedientes.

Eu respeito muito essa visão sonhadora de minha filha, porque, por mais utópico que a mim pareça querer que todos tenham direito a tudo de forma igualitária, é evidente que a desigualdade social do mundo capitalista é também em minha opinião absurdamente injusta.

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A mim parece que, além das agruras causadas pelo embargo norte-americano ao comércio com Cuba por tantos anos, contribuíram para a decadência da economia local o fato dos principais produtos da ilha terem entrado em declínio no mercado internacional, por razões relativamente semelhantes: o açúcar, cujo consumo passou a ser evitado; o tabaco, apontado como vilão da saúde e sofrendo restrições em todo o mundo; e o rum, que, além de nunca ter sido uma bebida consumida em larga escala pela população em geral, também sofre as mesmas crescentes limitações das demais bebidas alcoólicas. Resta o turismo, que ainda não é suficientemente explorado, porque o preconceito faz com que muitas pessoas desconheçam o quanto é oferecido ao turista na ilha.

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O que se pode apontar como vitorioso no regime implantado por Fidel é o alcance da população à educação e saúde públicas de qualidade.

É lógico que, como ele sempre foi uma figura polêmica, também agora, com sua morte, provocará repercussões conflitantes, uns enaltecendo sua importância para o mundo contemporâneo, outros minimizando-a e concentrando as críticas à falta de liberdades para o povo.

Creio que não pode negar, de uma forma ou de outra, a liderança que ele exerceu sobre tantos dirigentes políticos mundo afora, principalmente na América Latina, inclusive no Brasil. Tardará a aparecer alguém com tal influência.

Valdir Carleto