Por Tamiris Monteiro

Existem inúmeras maneiras de homenagear o público feminino no Dia Internacional da Mulher e, neste ano, a Revista Weekend escolheu contar histórias de mulheres à frente de causas sociais. Mulheres que, além de cuidarem de si e de suas famílias, são movidas pelo desafio de transformar vidas. Sensíveis e intuitivas, mas também resilientes e comprometidas, o que todas têm em comum é o engajamento com o terceiro setor. Aliás, vale destacar que, segundo pesquisa realizada pelo Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE), 51% das organizações cadastradas na entidade são lideradas por mulheres.

Outro dado importante é que o Brasil possui cerca de 35 milhões de voluntários, e desse total 53% são mulheres. Ou seja, a presença feminina no terceiro setor é fortíssima e muitas delas – ainda que com bastante dificuldade – têm feito coisas incríveis pelos cidadãos País afora. Com base num trabalho tão importante, a seguir você confere a história de quatro guarulhenses que com grandes ou pequenos gestos vêm mudando o mundo.

Um trabalho especial sobre o autismo

Alexandra Oniki é a fundadora do Ciaag (Centro de Inclusão e Apoio ao Autista de Guarulhos). Para ela, tudo começou com o descobrimento do Transtorno do Espectro Autista (TEA) do filho Lucas. Afora a descoberta, Alexandra ainda teve que lidar com os maus tratos que o pequeno sofreu na passagem por algumas escolas. “Depois de passar por essas situações, já meio desiludida, fui conversar com uma das médicas do Lucas, a fonoaudióloga Marielaine Iria Merli Martins Gimenes. Sugeri a ela que montássemos um centro para autistas, porque naquele momento não via outra solução para o meu filho e nem para outras crianças que partilhavam do mesmo problema. A Marielaine já tinha esboçado um projeto, só que não tinha tempo. A partir disso, comecei a correr atrás de tudo que era necessário para montar uma associação. Em setembro de 2010 fundamos o Ciaag. A sensação que tive no dia da inauguração foi como se eu estivesse parindo um filho para o mundo (risos). A minha alegria foi muito grande, difícil até de explicar”, conta.

É claro que para manter a ONG Alexandra enfrenta dificuldades, principalmente financeira, mas é com orgulho que ela avalia seu trabalho. “Hoje o Ciaag atende 48 crianças, de dois a 15 anos, e tem 57 inscritos esperando por uma vaga. O projeto ‘Viver e Conviver’ oferece aos alunos oficinas de apoio pedagógico, atividade de vida diária, aulas de educação física, música e recreação, tudo voltado à inclusão social e melhoria da qualidade de vida dos assistidos”.

As famílias não ficam de fora. Pelo projeto “Cuidando de quem cuida”, as mães ou tutores das crianças têm acesso a atendimento psicológico e oficinas temáticas, com o intuito de que aprendam a desenvolver algo que gere renda. “A maioria das mulheres para de trabalhar para cuidar dos filhos. Algumas são abandonadas pelos maridos e isso mexe com a autoestima delas. Por isso procuramos incluir a família no processo”, diz Alexandra.
Para os próximos dois anos, a instituição tem como objetivo atender a demanda de adolescentes e adultos. “Ampliar o projeto para o público com mais de 15 anos é nossa meta. No espaço em que estamos, temos a possibilidade de fazer essa ampliação, mas precisamos de investidores para adequar o local e criar oficinas profissionalizantes para inserir os assistidos no mercado de trabalho”, pontua.

Com o encerramento da parceria com a Prefeitura, em dezembro de 2016, a ONG tenta angariar fundos por meio de rifas e bazares. Aos interessados em colaborar com o projeto, existe a possibilidade de ir conhecer o trabalho da entidade de perto e participar da campanha “Amigos do Ciaag”, em que é possível contribuir por meio de boleto bancário ou via depósito. O Ciaag também aceita a doação de alimentos, roupas e calçados. A entidade está localizada na Rua Dr. José Maurício de Oliveira, 133, no Gopoúva.

Mãe de todos

A Creche Beneficente Joana D’Arc foi fundada há 35 anos por Neide do Carmo Montovani, com o intuito de atender crianças carentes, de zero a sete anos, que precisam de um lugar para ficar enquanto as mães trabalham. De acordo com dona Neide, presidente do núcleo, muito antes da entidade existir fisicamente no local onde está hoje, o serviço social já existia na sua vida. “Trabalhei profissionalmente como cabeleireira e, nessa função, já fazia um trabalho assistencial atendendo às segundas-feiras gratuitamente mulheres carentes e suas crianças. Quis o destino, e credito isso às mãos de Deus, que eu viesse a reencontrar no Jardim São Paulo mães que eu atendia nesse trabalho anterior, que incluía fornecimento de refeições, roupas e calçados em atendimentos que eram feitos aos sábados. Parece que havia um ímã a atrair uns aos outros”, relata.

A partir daí, as coisas só cresceram. Atualmente, a creche atende 244 crianças. No local, os pequenos recebem alimentação, higiene e reforço escolar. Além dos cuidados com as crianças, outro trabalho de grande resultado e que merece destaque é o projeto “Mãe aconchego”, que dá assistência a gestantes, a maioria adolescente que não sabe o que fazer ou teve algum problemas em casa devido à gravidez. Acompanhamento emocional e assistência social fazem parte dos cuidados de todo o período de gestação, por meio do atendimento de uma psicóloga, uma nutricionista e uma pedagoga, que incentivam a realizar o pré-natal e fornecem a ajuda necessária para as jovens mães, inclusive, um enxoval completo quando o bebê está prestes a nascer.

Embora o projeto receba verba municipal, a presidente afirma o quanto é difícil manter o espaço. “Esse recurso vem para complementar. Ajuda muito, mas não é suficiente, nem de longe, para nossas necessidades. Dá para pagar os salários dos funcionários que atuam na creche, mas mesmo para férias, 13º, INSS, encargos e muitas outras despesas, precisamos do apoio da comunidade”, diz. O projeto se mantém ativo até hoje graças à dedicação de dona Neide, sua filha Leila e dos funcionários que são bastante solidários à causa.
Um dos grandes desejos da fundadora é ampliar o atendimento aos jovens, para que possam ficar no espaço até 14 ou 15 anos, quando já teriam orientação profissional e mais condições de enfrentar o mundo. “São crianças muito queridas, que acompanhamos desde pequenas e queremos poder atendê-las por mais tempo”, ressalta. Quem desejar contribuir com a Creche Beneficente Joana D’Arc pode ligar no número 2404-3052 e conhecer o trabalho de dona Neide e companhia. O núcleo fica Rua Taguaí, 33B, no Jardim São Paulo.

Olhar de amor

Durante um passeio de carro com o pai, Beatriz Martins de Souza, na época com apenas seis anos de idade, ao passar por uma comunidade carente, sensibilizou-se com a situação de algumas crianças que encontrou pelo caminho, sem saber que aquilo mudaria sua vida para sempre.

“As crianças da comunidade vieram pedir balas e pirulitos, que normalmente pedem em farol; então eu perguntei para o meu pai por que aquelas crianças estavam assim e ele explicou que talvez os pais delas não tivessem condições de dar uma roupa, um brinquedo, que muitos não tinham emprego e acabavam ficando naquela condição. Naquele dia a gente não tinha balas nem pirulitos para doar, mas sempre que eu ia a restaurantes, padarias e afins, junto com o troco, como eu tenho mais duas irmãs, as pessoas nos davam balinhas para agradar e eu adorava. Isso tudo aconteceu mais ou menos em agosto e a partir daquele dia eu parei de comer as balinhas”, conta Bia.

O que começou com a doação de alguns doces e presentes de Natal, virou um projeto gigantesco e, hoje, 10 anos depois, a ONG Olhar de Bia estima ter atendido mais de 100 mil pessoas. Inicialmente, a instituição tinha um trabalho totalmente voltado à solidariedade, com a arrecadação e doação de alimentos, roupas e brinquedos destinados a famílias carentes, creches e comunidades.

A parte das doações continua firme e forte, mas Bia, mesmo com sua pouca idade – 17 anos –, passou a querer mais. “Passamos a oferecer mais dois pilares, um voltado para o esporte e cultura e outro em capacitação profissional. Há dois anos iniciamos aulas gratuitas de jiu-jitsu, taekwondo e musicalização no Parque Cecap. Atendemos 90 crianças de cinco a 16 anos e estamos trabalhando para o núcleo oferecer aulas de teatro. Também atuamos na área de capacitação profissional. No ano passado firmamos parceria com a Universidade Braz Cubas, no polo EAD de Guarulhos, com o objetivo de dar uma base para os jovens. Lá atrás, no começo do Olhar de Bia, nosso trabalho era mais focado nas crianças, mas passamos a entender que nossa missão é transformar vidas, seja durante a infância ou na fase adulta”, afirma.

Além de todo o empenho nos projetos sociais, Bia entrega que como ativista social quer levar sua mensagem aos quatros cantos, focando na carreira de jornalista e palestrante. “No meio de fevereiro comecei a apresentar o programa ‘Olhar de Bia’ na rádio do grupo FJR, que fica na Avenida Paulista. Meu objetivo como apresentadora é entrevistar pessoas que façam a diferença, não importa em que setor. Neste ano também lanço meu livro, em maio”, revela. Quem quiser ajudar o Olhar de Bia, no site (olhardebia.org) há informações de como colaborar.

Acolhida do bem

O Instituto Acolher, embora faça um trabalho social de recolocação profissional, não tem como base a filantropia. Fundado em 2005 pela psicóloga Zina Costa, o espaço nasceu com o propósito de preencher uma lacuna dentro da educação, que era a de formar profissionais capazes de lidar com bebês. “No início, entendemos que isso era uma demanda e fomos convidando profissionais de várias áreas para compor um projeto de formação para esse educador, mais especificamente do berçário. Buscamos oferecer cursos com valores acessíveis, criamos alternativas para atender inclusive pessoas mais carentes, isso porque notamos que nosso público inicial eram mães sem nenhuma formação específica e distantes do mercado de trabalho. Na época, muitas conseguiram se recolocar, pois por suas habilidades e competências desenvolvidas pela própria maternidade, eram contratadas pelas escolas”, conta Zina.

Com mais de 50 turmas formadas, Zina começou a enxergar a necessidade de formar pessoas para cuidar de idosos. Ela foi de uma ponta a outra e mais uma vez foi assertiva. A ideia surgiu depois que a psicológica teve que cuidar da mãe e notou a dificuldade que era encontrar gente qualificada para o serviço. O mais bacana é que, além do curso, o instituto criou a campanha “Adote um Cuidador”. A proposta é ajudar na formação da pessoa que desejar tornar-se um cuidador. “Entendo que hoje muitas famílias passam ou ainda passarão pela necessidade de ter um cuidador profissional, e a ideia é que alguém indique uma pessoa que pode vir a desempenhar esse papel, mas não tenha conhecimento técnico adequado. Quem indica pode apadrinhar a pessoa escolhida, dando oportunidade para alguém de gostaria de fazer o curso, mas não tem condição de pagar”, explica. A proposta é ousada, mas não deixa de ser uma rede solidária, em que um pode ajudar o outro.