Por Amauri Eugênio Jr.

Mães e pais preocupam-se com os filhos ao ponto de viver mais as vidas deles do que as próprias. Se o filho lesiona o joelho durante uma brincadeira na rua, a preocupação com ele é tamanha que parece que os pais sentem as dores do machucado em vez dele. Se o filho ou a filha vão a uma festa e só irão voltar na manhã seguinte, a dúvida sobre o que ele ou ela irão fazer ou o que poderá acontecer é tão grande, mas tão grande, que a noite será passada em claro. E se eles decidem viajar em um feriado com amigos ou parceiras, aí é que a vida parece parar de vez.
OK, preocupar-se com os filhos é necessário, mas é tão ou mais importante lembrar-se de que eles não serão crianças ou adolescentes para sempre. Ou seja, em algum momento da vida eles irão ter opiniões próprias, vontade cada vez maior de ser livres e irão querer morar sozinhos ou com quem eles querem viver juntos. É duro, mas esse é um fato da vida: eles serão adultos e, em questão de anos, eles estarão no mesmo lugar dos pais. Por isso, é fundamental para o desenvolvimento deles – e para os próprios pais, por mais difícil que seja para aceitar e entender isso – que os pais não queiram protegê-los de tudo, como pássaros que mantêm os filhotes sob suas asas. Vamos a um exemplo aparentemente bobo, mas que ilustra bem esse quadro. Na animação “Procurando Nemo” (2003), o peixe-palhaço Marlin sofreu um trauma enorme e, para evitar que tudo viesse de novo à tona, ele superprotege Nemo, seu filho, ao ponto de sequer deixá-lo ir para longe. O resultado disso é que, pela falta de autoconfiança de Nemo, ele não consegue se livrar de uma enrascada.
Ou seja, é importante demais proteger os filhos, mas sem excessos e sem sufocá-los. “A preocupação começa a ser um problema quando interfere na qualidade da relação entre todos, excesso de checagem do bem-estar e pensamentos repetitivos sobre a segurança, quando o único assunto a ser discutido é a criança e, ao longo do tempo, o casal não retoma a rotina pessoal com qualidade e independência para todos”, explica o psicólogo clínico e escritor Frederico Mattos, autor do site www.filhoadolescente.com.br.

Parece bom, mas não é

Sabe aquela velha história de o inferno estar cheio de boas intenções? Então, essa máxima cai como uma luva quando o assunto é superproteção. Com o passar do tempo, a mãe passa a ver a si própria como mãe e, com isso, os filhos se tornam a maior prioridade da vida dela. Até aí, tudo bem. O problema é quando traços comportamentais relacionados à necessidade de controlar tudo o que acontece ao redor, a ansiedade, aflição e apego excessivo a alguém vêm à tona. Isso pode, inclusive, interferir nas demais atividades sociais – trabalho e vida afetiva, por exemplo. “Quando isso acontece é quase um convite para o isolamento em torno do filho ou quando os assuntos e eventos sejam ligados à criança. O problema é que filhos crescem e essa mãe precisa crescer com eles”, pontua Frederico.
Além disso, é necessário ter em mente que educar é uma coisa, superproteger é outra bem diferente. Dar educação ao filho é permitir que ele desenvolva o seu jeito de apropriação do mundo e é necessário respeitar esse ponto para ele desenvolver suas potencialidades e, assim, aprender a tomar decisões. Quando esse fato é ignorado e passa-se a tomar decisões pela criança, esse processo é interrompido. Daí, já viu: ele não terá autonomia para agir e, assim, terá tudo para tornar-se um adulto inseguro. “O filho cresce como uma criança insegura, fechada, socialmente tímida, com dificuldades de fazer escolhas próprias e, normalmente, com baixo senso de responsabilidade e autonomia. Ou seja, é uma presa fácil para o bullying ou isolamento social”, ressalta Frederico Mattos.

Anatomia da superproteção

Confira quais fatores podem contribuir para que mães e pais possam desenvolver comportamento superprotetor:

  •  Os que têm personalidade dominadora;
  •  Pessoas com problemas conjugais;
  •  Aqueles que perderam seu senso de importância pessoal;
  •  Quem tem pouca capacidade de criar vínculos mais nutritivos no âmbito extrafamiliar.

Virando a página

A primeira coisa a se pensar é que o filho pode agir como qualquer outra criança, mesmo que tenha alguma complicação de saúde – isso não significa que ele precise ser protegido 24 horas por dia sendo incapaz de, por exemplo, amarrar o cadarço do próprio tênis. Vá lá, se a preocupação com a criança ainda for muito grande, é importante tomar cuidados em relação a ela, mas com limites, de modo que ela tenha liberdade para tomar decisões e agir por si própria. Ele vai errar? Vai. Ele irá se machucar em algum momento? Por mais que doa pensar nisso, sim. Vai ter amigos? O  problema é não ter nenhum – isso é sinal de que há algo errado, não? Deixe-o falar o que pensa e sente em vez de colocá-lo em uma redoma. “Elas precisam entender que deverão fazer escolhas difíceis. Não adiantará pressionar na reta final para fazer uma escolha profissional se eles nunca escolheram nem a roupa que vão vestir”, completa Frederico.