Por Valdir Carleto
Fotos: Rafael Almeida

O superintendente do Saae (Serviço Autônomo de Água e Esgoto) de Guarulhos, Afrânio de Paula Sobrinho, é engenheiro formado pela Escola Politécnica, da USP, com especialização em engenharia de controle da poluição ambiental, pela Faculdade de Saúde Pública da USP. Está no cargo desde outubro de 2010, após ter sido diretor do Departamento de Planejamento e Projetos da autarquia, desde 2001. Exerceu funções na área de saneamento desde 1986, na iniciativa privada e na área pública em Diadema e Santo André. Ele fala objetivamente sobre a crise atual no fornecimento de água.

RG: Qual o percentual que Guarulhos produz e quanto depende da Sabesp?
APS: Produzimos 13% das necessidades da cidade; os outros 87% são comprados por atacado da Sabesp, sendo parte do sistema Cantareira e parte do Alto Tietê.

Na década de 1990, a construção de poços artesianos foi anunciada como panaceia. Quanto eles produzem hoje?
Difícil imaginar como é que se chegou a essa conclusão. A cidade vivia em situação de extrema precariedade. Poços artesianos respondem por não mais de 5% do abastecimento, mas são de suma importância em algumas regiões onde temos maior dificuldade. Esse percentual compõe os 13% da produção local, junto com o Tanque Grande e o Cabuçu.

O manancial que fornece água à fábrica da Ambev pode vir a ser utilizado?
Aquela fonte é significativa, seria muito importante se pudéssemos utilizá-la, embora não tenhamos exato qual percentual representaria. Mas o Saae não tem poder nem de dar a outorga, nem de cassá-la ou reduzi-la. Quando se trata de uma fonte ou curso d’água que envolve mais de um estado, o poder de decisão é federal; quando se restringe a um eAfranio_04.02.2015_RA-1stado, como é o caso desse manancial de Guarulhos, o poder é estadual, do DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica), que na época em que ainda era Skol fez essa outorga, que em algum momento deve vencer.

Qual o percentual de perdas?
Em 2001, as perdas chegavam a 55%, o que era absolutamente caótico para o abastecimento. Depois de muito trabalho e investimento, estamos em 35%, o que ainda é muito, mas compatível com o padrão de São Paulo e do Brasil.

Por que tantos vazamentos?
O sistema é antigo. Principalmente a região central tem tubulação muito antiga. Na época, o Saae tinha apenas três engenheiros. Muitas obras eram feitas sem a técnica adequada. Vimos tubos de PVC mal colocados, assentados sobre pedregulho ou com encobrimento insuficiente; o peso do tráfego de caminhões e ônibus provoca deslocamentos e isso gera vazamentos. Esse percentual inclui perdas na tubulação e toda água que deveria ser faturada, mas não é, como os chamados “gatos”, frutos de ligações clandestinas e outros problemas.

O que é feito para reduzir as perdas?
A tecnologia evoluiu muito de lá para cá, mesmo nos tubos metálicos. Em uma cidade onde ainda há muitas regiões que demandam expansão, não dá para sairmos substituindo toda a rede, mas temos feito trocas constantes, ainda mais onde se verifica maior incidência de vazamentos ou onde a Prefeitura vai fazer uma nova pavimentação. Não se corrige isso em pouco tempo, vai-se fazendo à medida do possível.

No percentual que não é faturado incluem-se as ligações feitas em favelas?
Guarulhos tem muitas favelas e temos de conviver com essa realidade. Precisamos de políticas públicas para tratar essa questão. De uma forma ou outra, as comunidades irão usar água. Há algumas nas quais conseguimos regularizar. Mas há outras em que há impedimento judicial de instalar legalmente. Não adianta cortar hoje, se amanhã irão religar ilegalmente. A solução é a urbanização, construção de moradias, onde o abastecimento é regular, pois os gatos fragilizam o sistema e até provocam contaminação da rede. Talvez seja o caso de, enquanto isso, cadastrar esses casos para ter algum controle e evitar, por exemplo, que alguém more em áreas de risco, em beira de córregos… A sociedade precisa entender isso; não adianta fechar os olhos.

Fala-se muito na dívida do Saae com a Sabesp e que isso seria um fator que prejudica o fornecimento de água para Guarulhos. É isso mesmo?
Existe um litígio antigo. Acredito que não é mais possível que os dois poderes – municipal e estadual – sigam assim. O prefeito já concordou que é preciso equacionar a questão. Para o usuário, não importa se o fornecimento é de um ou outro ente público. A tendência é negociar e resolver. A dívida vem sendo paga, mas pela quantia que o Saae considera correta, o que difere do que a Sabesp quer receber. Agora, seria incabível que o Estado deixasse de fornecer a um município por causa de uma pendência.

A dívida vem desde o fim dos anos 1990?
Em 2001, avaliamos o quanto seria justo pagar. Pelo valor de água no atacado que a Sabesp cobra, nenhum município tem condições de pagar. São Caetano do Sul talvez seja a única exceção. Então, qAfranio_04.02.2015_RA-25ue se estabeleça qual é o valor razoável e se procure viabilizar quitar o passivo. Não dá para ficar convivendo o tempo todo lidando com o Judiciário. Podemos ter nossas convicções, o Estado tem as dele, mas precisamos chegar a um consenso.

O que o governo estadual poderia ter feito para evitar a crise atual?
Todos nós descuidamos dos sinais que a natureza enviou. Já passamos por momentos em que a situação não esteve tão boa. O próprio Plano Metropolitano de Recursos Hídricos, do Governo do Estado, mostra que esses alertas vêm de longo tempo. Em 2004, faltou chuva, mas no fim do ano choveu; em 2005, choveu até demais, encheu as represas e aí acho que todos se acomodaram um pouco. Não gosto de personificar, apontar o dedo para esse ou aquele, mas creio que o fundamental é que houvesse mais transparência nas informações. Prefeitos souberam pela imprensa sobre a possibilidade de São Paulo vir a ter rodízio de cinco dias sem água para dois com. Percebo que a nova gestão da Sabesp e da Secretaria de Saneamento é de pessoas da área, que são capazes de implementar uma nova mentalidade em termos de diálogo com as cidades.

O que Guarulhos tem feito para diminuir a dependência da Sabesp?
O máximo que se pode procurar fazer é incorporar ao Cabuçu dois pequenos mananciais que somariam, embora um deles não se situe no município. Outra possibilidade é tentar trazer água da bacia do Jaguari, também de fora. Guarulhos é uma região muito pobre em mananciais. O que vislumbro como solução é a água de reuso, mas não essa água de reuso que já vem sendo utilizada, pois nosso consumo industrial não passa de 3%, porque muitas empresas já buscaram suas próprias fontes. Elas só usam do Saae a água que precisa ser potável. Muitas usam água de caminhão-pipa. A solução é transformar o esgoto em água potável. Califórnia já faz, Singapura já faz. Água que se devolveria ao rio e que com um pouco mais de tratamento se tornaria potável. Seria possível reutilizar 60% da água; somando aos 15% que Guarulhos produz, teríamos bem menos dependência da Sabesp. O próprio governador já fala em tratar a água do rio Pinheiros, lançar na represa Billings para usar no abastecimento. Isso ainda não se faz por um problema de legislação. Diante da realidade atual e da distância cada vez maior para buscar água, isso tende a mudar. Precisa mudar.

Afranio_04.02.2015_RA-5Cogita ampliar o rodízio?
Nao está definido. Dependemos do que a Sabesp fizer. Não dá para exigir mais da população de Guarulhos, que há muitos anos convive com o rodízio. Além do que é complicado alterar o rodízio a cada nova situação. Por isso, a Sabesp ainda não o implantou em São Paulo. A grande maioria já economiza. Sobretaxar quem eleva o gasto pode ser injusto, porque se uma família de quatro pessoas gasta dez metros cúbicos por mês e em um mês gastar doze não é desperdício; esse sim deve ser combatido.

Quanto Guarulhos trata de seu esgoto e quais as perspectivas de incremento desse percentual?
Estamos chegando a 50%. Temos duas estações de tratamento em pleno funcionamento: São João e Bonsucesso. E a da Várzea do Palácio, próximo ao Cecap, dependendo de alguns ajustes para operar em plenitude. O compromisso assumido com o Ministério Público em 2007 é de chegar a 80% até 2017. Para cumprirmos, só quando pudermos tratar a região central. Por isso, fizemos a PPP (Parceira Público-Privada). Além de construir estações no Cabuçu e Angélica, a PPP fará os coletores-tronco para retirar os esgotos dos córregos do Centro da cidade. Pode ser que, se não for mesmo possível utilizar a estação da Sabesp do Parque Novo Mundo, que está com a capacidade esgotada, tenhamos de construir uma, possivelmente na região do Jardim Munhoz.

Como funcionam os coletores-tronco?
As redes que coletam os esgotos das residências e dos prédios comericiais despejavam nos córregos. Agora, passam a despejar o esgoto nos coletores-tronco, em geral construídos ao longo dos córregos, e que levam o esgoto até as estações de tratamento.