Não vislumbro um Brasil melhor, qualquer que seja o resultado da votação

Não gosto da Dilma, nem do governo dela e defendo que todos os corruptos sejam punidos, quaisquer que sejam seus partidos.

Ouço no rádio que os deputados estão há mais de 24 horas em sessões contínuas discutindo o processo de impeachment de Dilma. Cada partido tem direito a uma hora de discurso, o que dá 22 horas de falatório consecutivo; e quase 200 parlamentares inscreveram-se para falar 3 minutos cada um, o que soma mais 10 horas de blá-blá-blá.

Não estou nem aí se Dilma será afastada ou não. Mas, fico me perguntando por que esses deputados, tão empenhados neste momento em ter seus minutinhos de glória, não têm a mesma vontade de trabalhar durante o ano inteiro. Sabe-se claramente que o Congresso só trabalha de terça a quinta, e olhe lá. Arranjam todo tipo de expediente para emendar feriados e semanas, a começar pelas tais festas juninas do Nordeste, nas quais não podem faltar, como se fosse para isso que foram eleitos.

E pergunto também que moral tem boa parte dos deputados, de tudo quanto é partido, para cassar alguém, se eles mesmos estão com a lama até o pescoço. Cada um que aponte o indicador para a presidente terá três dedos apontados para si mesmo.

A começar pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, contra quem há diversas imputações, com consecutivos depoimentos de pagamento de propinas a ele, para favorecer negócios com as grandes empreiteiras do País.

O processo de impeachment que está em discussão e cuja votação deve ocorrer amanhã é sobre as tais pedaladas fiscais que Dilma praticou para acomodar as finanças do País e safar-se do flagrante descumprimento do orçamento fiscal.

Porém, ela e o vice Michel Temer estão na mira de investigações de uso de dinheiro de propinas em doações, ainda que aparentemente legais, na campanha de reeleição em 2014.

Ora, se ela cai e ele assume, daqui a pouco Temer também poderá ter de ser afastado, por ter pego carona na eleição dela com uso de recursos escusos.

Porém, o que vislumbro é muito mais grave do que isso. Se parte do dinheiro desviado da Petrobras foi parar na campanha reeleitoral da dobrada PT-PMDB, isso fatalmente beneficiou, de forma direta ou indireta, também a eleição de centenas de deputados federais que estão imbuídos da função de juízes de Dilma neste momento.

Se comprovado que houve dinheiro de propina na campanha eleitoral – e deve ter havido também nas campanhas de partidos de oposição -, como permitir que beneficiados pela mutreta possam afastar alguém que os ajudou de certa forma a ter esses mandatos?

Em minha opinião, esse Congresso que aí está não tem moral para votar o impeachment de ninguém, porque boa parte dele teria de ser impichado também.

Cada um que foi eleito com dinheiro advindo de obras superfaturadas deveria ter a dignidade de, na hora de votar Sim ou Não pelo impeachment, renunciar ao mandato, devolvendo ao povo brasileiro o que não lhe pertence por direito.

Se isso ocorresse, algumas centenas de suplentes assumiriam. Lógico que boa parte deles também teria sido beneficiada pelo mesmo dinheiro espúrio que abasteceu os partidos, mas ainda assim o País respiraria novos ares, seja com Dilma, Temer ou quem quer que seja que estivesse respondendo pela Presidência.

Para limpar mesmo toda a sujeira reinante no País, talvez só mesmo com novas eleições gerais, de preferência com todos candidatos diferentes, e com regras muito rigorosas de financiamento das campanhas.

Podem me acusar de golpista ou sonhador, utópico ou seja lá o que for. Mas, não vejo dignidade suficiente no Congresso para exercer papel tão relevante como o que está desempenhando. Nem vislumbro solução para o momento seguinte do nosso Brasil, qualquer que seja o desfecho da votação de amanhã.