No vai e vem o tempo se fez!

Por José Paulo Ferrari*

Quando éramos crianças, na pequena cidade do interior paulista, no início dos anos cinquenta, uma das maiores diversões naturais, para não dizer uma das verdadeiras formas terapêuticas de afastar angústias e encontrar explicações para as coisas mais inusitadas da vida infantil, era as balanças de cordas que, de maneira geral, eram construídas pelos nossos pais, em uma das árvores frutíferas de nossos quintais. Elas eram simples, bem artesanais, compostas de duas cordas de sisal fixadas em um dos galhos de uma das imensas árvores e um pedaço de madeira velha na outra extremidade que servia de assento, mas se constituíam em verdadeiros refúgios para os momentos em que nossas almas – ainda pueris – se enchiam de dúvidas e buscavam respostas para os questionamentos que o próprio tempo nos oferecia, na medida em que crescíamos.

Era sentados sobre elas, nos suaves movimentos do “vai e vem”, “do subir e descer” que – impulsionados pelos próprios esforços do corpo como um pêndulo – nos lançávamos no espaço com os olhos fixos no céu como forma de nos afastarmos da realidade das dores que brotavam em nossos peitos e se alimentavam das dúvidas que nasciam em nossos próprios pensamentos. No geral, em verdade, eram simples questões sobre o que era certo ou errado em nossas ações; do merecimento ou não dos castigos e, também, dos porquês e das razões que só os nossos velhos pais entendiam, já que para as inocentes crianças daquela época as informações e orientações chegavam devagar e, geralmente, envoltas em histórias ou lições de moral que se retratavam através de lendas ou imagens idealizadas em princípios religiosos, quase sempre transmitidos durante os cultos dominicais.

Aqueles eram momentos mágicos, para não dizer quase transcendentais, quando nossos corpos relaxavam e nossas imaginações se expandiam permitindo que desenhássemos no céu azul, também, – através das brancas nuvens que se movimentavam pelos ventos, – as mais diversas figuras que tomavam vida e nos inspiravam às aventuras ou, então, nos forneciam as direções das respostas para as dúvidas que afligiam nossos pequenos corações. Eram aqueles momentos intensos, ricos em vivências interiores que – certamente – nascidos da embriaguez do próprio “vai e vem” permitiam, também, a edificação de um mundo interior puro e simples, mas belo e rico que muito contribuiu ou ofereceu os sustentáculos emocionais para enfrentar os desafios da vida na adolescência, na pequena e inesquecível cidade do interior.

Os contatos com a natureza, as carícias feitas em nós pelo ar que se deixava cortar pelos movimentos do balanço, pode-se dizer, também foram fundamentais para o enriquecimento de nosso mundo interior que hoje, provavelmente, nos torna um pouco mais capazes de enxergar a realidade ainda com os olhos de criança e manter a esperança de que o homem, por sua natureza, pode sempre fazer o melhor. Além do mais, creio, é no desafio de alcançar, ainda que no universo da imaginação infantil, as alturas ou até mesmo se soltar no ar, que as crianças podiam sentir o sabor da liberdade e nas profundezas de suas almas, também, se idealizar sempre um vencedor, capaz de todas as dificuldades enfrentar.

Naqueles tempos não havia celulares, computadores e aplicativos… os movimentos da vida eram reais!

*José Paulo Ferrari é psicólogo clínico, com especialidades na área da Saúde e sua principal área de pesquisa é a Espiritualidade