O amor pelas boas causas

Fotos: Marcelo Santos

Tive a oportunidade de conversar com Luís Roberto Mesquita, 58 anos, durante a primeira edição deste ano do Poder Empreender, em Guarulhos, que aconteceu no fim de janeiro. Na ocasião, presenciei uma situação emocionante: Mesquita chorou ao comemorar doações destinadas à Maternidade Jesus, José e Maria, enquanto discursava no palco. Foi memorável.

Durante o nosso diálogo, Mesquita mostrou que o desafio da JJM é grande. Equipamentos antigos que precisam ser atualizados, além do custo de mais de 500 funcionários. Em meses tranquilos, a maternidade realiza cerca de 450 partos. No auge, chega a passar dos 600. Desde a sua fundação, em 2002, mais de 70 mil crianças nasceram na JJM.

Os atendimentos de causas específicas, como ginecológicos, possuem uma média de 130 todos os dias, atingindo cerca de quatro mil mensais. Todos os partos considerados de alto risco são transferidos para a maternidade, que tem um dos índices de mortalidade mais baixo dos hospitais que atendem pelo SUS. Apesar do grande desafio, Mesquita mostrou-se disposto a cumprir a tarefa que ele considera espiritual.


Apesar da importância da Comercial Mesquita para a cidade, há uma parcela da população que não o conhece. Resuma sua atuação em Guarulhos.

Além da Comercial Mesquita, onde trabalhei desde os meus 18 anos, presidi a Associação Comercial (ACE-Guarulhos) de 1996 a 2001. Na Associação Guarulhense de Defesa da Cidadania (AGDC) fui de 1997 até 2002. Fui presidente do Conselho Municipal de Desenvolvimento Econômico, de 2001 a 2004 e da Agende em meados de 2004 a 2005, não me lembro muito bem. Recebi também o Integrity Awards em 2002, prêmio pelo combate à corrupção na esfera política. Fui indicado pela Transparência Brasil.

Sobre o impeachment do então prefeito Néfi Tales…

As pessoas não entendem muito bem o porquê fiz as denúncias. O Néfi Tales pediu para eu ser a testemunha do compromisso de governo dele que iria ser registrado em cartório. Eu disse a ele que tudo bem, mas acrescentei uma cláusula: “Se o compromisso não for cumprido, eu denunciarei”. Eu fiz o que fiz porque assinei e eu costumo cumprir o que eu falo. Quando ele não cumpriu, eu me senti na obrigação de denunciá-lo. Muita gente achou que eu tivesse pretensão política, mas não. Não os tenho como inimigos.

Diante de tudo isso, nunca pleiteou cargos políticos?

Tive convites, mas nunca aceitei. O Elói me convidou para ser seu vice durante a campanha. Depois que ganhou, ele queria que eu fosse um dos seus secretários. Nunca aceitei. Nunca tive nenhuma ocupação pública remunerada. O Jovino também me convidou, mas eu disse para ele: “Jovino, o compromisso de governo era Néfi Tales e Jovino. Não aceito nenhum cargo e também te fiscalizarei, ou seja, se você não cumprir, eu te denunciarei”.

Sua gestão na Associação Comercial é lembrada com uma das, se não a, melhor. Quais foram os feitos que o notabilizaram tanto?

Eu só decidi ir para a Associação Comercial porque ela estava em situação muito difícil. Influenciado por alguns amigos, que já não estão mais aqui, pleiteei a presidência para que ela [a Associação] não acabasse. Na época, devia-se muito. Não se pagava há dois anos as consultas feitas na Associação de São Paulo, não se pagava a Federação das Associações Comerciais. Não tinha computação, as consultas eram por telefone. Os lojistas ligavam e tinham que esperar por dez minutos para darmos uma informação. Investimos inicialmente em computação para que as consultas fossem on-line. Fui fiador do financiamento contratado com o banco. Felizmente, graças às campanhas de divulgação e receitas, a dívida se pagou. Então implantamos várias modernidades à época, como o URA [Unidade de Resposta Audível]. Além de investir no essencial, tomávamos muito cuidado para não gastar. Saímos de lá com R$ 400 mil em caixa, se não me engano, e com o terreno comprado à vista para construção da nova sede, onde ela está hoje [Bom Clima]. Mas foi tudo por uma ação coletiva, tínhamos uma diretoria bem competente.

Por que ficou tanto tempo fora dos holofotes?

Assim que eu vi que a Agende estava bem, e de fato estava, eu não esperei o término do meu mandato. Dei o lugar para o meu vice, pois queria me dar de presente ter mais tempo para minha família e coisas pessoais.

O senhor recebeu convites durante o tempo fora?

Houve sondagens sim…

E o que o fez aceitar o convite da maternidade?

Quando veio esse convite foi até uma concepção mais espiritual minha. Eu falei: “puxa, está vindo um convite para eu tentar fazer alguma coisa de bem para uma população carente. Se eu não aceitar, quem sabe eu tenha que responder um dia no plano espiritual pela minha omissão”. Aceitei de pronto. Foi um convite diferente. Eu acho que às vezes nós somos responsáveis não só pelo que fazemos, mas pelo que nós deixamos de fazer. Então, já que recebi o convite dos fundadores daqui [JJM] e que são pessoas que prezo muito, aceitei.

Como está sendo assumir esse desafio depois de tanto tempo ‘afastado’ do terceiro setor?

Já há algum tempo que estou distante depois de ter ocupado alguma posição no terceiro setor. Tendo sido presidente da Associação Comercial, Agende e Associação Guarulhense para Defesa da Cidadania (AGDC). Agora, acabei aceitando o convite da diretoria executiva para que eu viesse ajudá-los como diretor. Eu aceitei por conhecer o trabalho sério e as dificuldades da maternidade, além de poder me dedicar à causa assistencial de ajudar os menos favorecidos. Venho para tentar agregar, trazer alguma experiência e buscar alguma relação com a cidade, para que o munícipio apoie mais essa maternidade. Temos muito que agradecer a ela.

Você sempre foi dado a grandes desafios, afinal, assumiu a ACE-Guarulhos e Agende em tempos em que as organizações enfrentavam dificuldades. Quais são as expectativas para o hospital?

O maior desafio é conseguirmos mais apoio, sobretudo financeiro, para poder modernizar alguns equipamentos em função dos 15 anos da casa. Muita coisa precisa ser trocada, atualizada. É tentar continuar fazendo o que já se faz bem, mas fazer um pouco melhor. E também esperamos que a população abrace um pouco mais a casa para podermos dar um atendimento ainda melhor.

Qual é o plano para trazer mais apoio para a maternidade?

Nós vamos atacar o setor de notas fiscais paulistas e aumentar os doadores. As pessoas não sabem como podem contribuir se ao fazer suas compras doarem suas notas à Maternidade. O pouco de muitos vai significar muito. A gente percebe que esse é o setor que vai crescer muito. É uma doação que não pesa no bolso.

Há alguma estratégia para incentivar as pessoas a fazerem doações de notas fiscais?

Existem pessoas que trazem suas notas fiscais aqui. Mas, por exemplo, na Padaria Maria Cereja, tem urnas para depósito dos cupons. Isso traz um benefício bastante significativo. Nós esperamos poder contar com outros estabelecimentos que contem com esse modelo. É importante lembrar que não pode guardar as notas por muito tempo porque elas perdem sua validade.

Existe algum segmento que, por questão tributária, as doações sejam mais representativas?

Vamos precisar do envolvimento de todo o comércio, esperamos que os estabelecimentos se ofereçam e permitam que coloquemos uma urna nossa. Vamos precisar muito aumentar os nossos pontos de recepção das notas fiscais paulistas. Mas existem sim alguns segmentos: alimentação, vestuário, calçados, acessórios e joalherias são ramos que têm percentual maior.

E as pessoas que querem contribuir de outra forma ? Exite alguma ideia? Como um clube, por exemplo.

Sim, temos. Pode ser feito por boleto bancário, acima de R$ 20. A pessoa pode dar o nome, endereço e, se quiser, o CPF, e-mail e telefone. Enviamos um carnê e eles pagam. Se não pagar, não pagou.

O Poder Empreendedor foi o primeiro evento que você participou na gestão do JJM. Como foi a receptividade?

Foi muito significativo. Me emocionou muito. Várias pessoas se ofereceram para ser voluntários, para fazer campanhas. Foi uma receptividade muito grande. Mostrou que tem muita gente pronta para doar e colaborar. Com os valores recebidos [R$ 30 mil], conseguimos comprar colchões e acrílico para que cinco equipamentos de banho de luz possam funcionar, maca para obeso mórbido, cadeira de rodas para 160 kg, além de berços e poltronas.

Qual é a meta de doações que a maternidade precisa bater para fazer além do necessário, como trocar equipamentos e adquirir novas tecnologias? Como está hoje?

Eles falam em R$ 100 mil. Eu quero R$ 500 mil. Ano passado chegou a uns R$ 30 mil. Mas recebemos bastante doações significativas, como de enxovais. Em 2016, por exemplo, a maternidade teve ao todo três toneladas de alimento.

O senhor saberia dizer por que a maternidade optou por não fazer atendimentos particulares?

Esse foi um compromisso assumido antes da fundação. Foi uma orientação dos fundadores da casa que não queriam fazer nenhuma diferenciação. Eles não desejam priorizar. Por exemplo: num momento de crise, atenda os convênios. Não se cobra nada de ninguém que aqui é internado, somente pelo SUS.

A antiga gestão municipal por vezes atrasou os repasses à maternidade. O novo governo já se posicionou com relação ao hospital?

O Guti, o Zeitune e o secretário da Saúde [Roberto Lago] já estiveram aqui na entidade e se mostraram parceiros. Já estive também com o secretário Rodrigo Barros (de Desenvolvimento Científico, Econômico, Tecnológico e Inovação) que está contribuindo com ações importantíssimas para nós. E com o secretário Peterson Ruan, de Finanças, que nos está ajudando a sair deste momento difícil. Além dos diretores de Saúde Norberto Vital, José Sergio Iglésias Filho e Angela Groke; todos sinalizam a grande parceria que já iniciou.

Como doar?

Quem desejar pode entrar em contato pelo telefone 2440-2322 e falar com a Rosa ou com a Priscila. Temos também o e-mail nfpaulista@mjjm.com.br ou o site www.mjjm.com.br, que tem um passo a passo de como doar. O WhatsApp é 99569-6991. Os cupons fiscais podem ser entregues também na recepção da maternidade: Avenida Doutor Renato de Andrade Maia, 1337 – Pq. Renato Maia.