O cérebro humano e nosso likes diários

Haja assunto para tanto click.

ou

É para ver ou para compartilhar?

Numa semana dessas me disseram que o cérebro se submete ao truque das notícias virais. Coisas pegajosas, escorrem por entre os dedos à semelhança do muco de uma criança resfriada. Eu lembro que quando era menino, segurava o ranho para continuar brincando. Ranhento… um molequinho ranhento. Eu deixava o nariz carregado igual uma máquina de rechear churros.

Hoje, mais adulto, não espero nem sequer ficar verde para já ir soltando. É socialmente mais aceito. Eu lembro que meu avô andava com lenço de pano para limpar o nariz. Devia ficar tudo cagado no bolso da calça, né?! Mas ele só usava aquilo porque eu acho que papel higiênico ou guardanapo não eram muito utilizados ainda… devo estar falando bosta.

Essas máquinas de churros tem nome? São quatro bilhões de mensagens diárias compartilhadas no Facebook. Quatro bilhões de informações não lidas. A essa altura do campeonato, Zuckenbergy (é assim que se escreve o nome dele? Eu não sei e também não me dei o trabalho de conferir) está ganhando em disparada de quem inventou o e-mail ou o twitter (essas pessoas existem e estão vivas ainda, certo?! É irritante escrever sem ter certeza).

O vírus não escolhe tanto cara, gosta mesmo é de coração. Nós temos cagado e andado para o conteúdo das coisas. O que importa é como aquele lide compartilhado valoriza a composição e a identificação de nosso avatar virtual. O facebook poderia fazer uma parceria com a UBISOFT e propor novas jogabilidades interativas para massagear ainda mais nosso ego. Se vê que teria gente dando deslike, porque prefere a BIOWARE. Imagina só?

Acontece que a cada notícia compartilhada, vendemos uma imagem que nos ajuda a fortalecer nossos vínculos. E eu quem o diga. Nem preciso ler os artigos de neurolinguística da Universidade da Pensilvânia para compreender bem isso. É só visitar minha própria timeline e ver o quanto, na maioria das vezes, TODAS AS VEZES, eu me comporto como uma grande máquina de compartilhamento de informação. Uma grande máquina de churros, disparando pequenos jatinhos de muco por aí.

O processador novo da IBM compreende idiossincrasias e metáforas complexas (assim diz a propaganda). Parece que a gente tem cagado e andado para elas, não é mesmo? Esses processadores são vendidos como o cérebro do amanhã. Então, acho que a gente não precisa se preocupar tanto com o funcionamento das coisas, mesmo. Seria só compartilhar o que dois ou três desses processadores fazem e curtir a good-vibe de uma fachada hype nas redes.

Enquanto estivermos por aí. Porque a vida é igual mar com ressaca…

Vamos continuar tomando cervejas na Vila Madalena. Continuar indo no shopping aos fins de semana. Levar o cachorro ao parque. Socializar é importante. Porque, afinal, não são só de compartilhamentos de lides que se vive um avatar de rede social, não é mesmo?

Eu, por exemplo, quando estou por aí, torço para que a espontaneidade da vida gere documentos compartilháveis e esteticamente aceitáveis para a imagem que eu gostaria de ter. Se o acaso faz com que minha vida seja extremamente chata e sem graça, eu crio positividades de minhas frustrações. Isso também é hype.

A pesquisa também diz que compartilhar notícias é um exercício para entender o que os outros estão pensando. Quem dá like traduz os mesmos conhecimentos, as mesmas opiniões e os mesmos interesses que você. Isso significa que você compartilha um lide e de brinde, ganha um teco de apêndice do camarada que te curtiu.

Se um otário curtir teu feed, significa que você também é otário. E vice-versa. E versa-e-vice.

No mais, todos nós somos potencialmente babacas, quando dedicamos mais atenção a nossos avatares do que a nossos afazeres. (desejo mesmo é que um dia nossos avatares computassem parte significativa e verossímil de nossos afazeres)

E termino refletindo: seriam nossos afazeres, nossos avatares? Seriam nossos avatares de hoje, os mesmos de ontem? Seria eu, um existencialista barato?

Ficarei aqui… mergulhado na idiotia, fruto de uma formação de Ensino Médio sem Filosofia.

Um obrigado, um abraço e nada a temer.