O homem do saco

Quantos de nós, quando crianças nas cidades do interior do nosso país, ouvimos a frase “cuidado com o homem do saco!” ou “se você não se comportar o homem do saco virá te pegar!”?… Pois é, ele realmente existia!

Nossos temores não eram sem razões, pois em vários países, nas primeiras décadas do século passado, era comum pais enviarem seus filhos pelo correio, em sacolas, para visitarem parentes distantes. Em nosso país da época, entretanto – pelo que sabemos – essas funções de carteiros não existiam, mas, de alguma forma a figura ímpar do transportador de crianças foi introduzida de maneira distorcida em nossa cultura e, ainda, está presente em nossas lembranças.

Claro que muitos, hoje, dirão: – “Era uma ameaça”! Uma educação imposta pelo medo, pelo pavor”!

Mas, na realidade, o imaginário da época – quando as pessoas eram simples e suas crenças naturais; quando o respeito não se sobressaia jamais, já que todos os possuíam; quando brincávamos, nas ruas, de danças-de-rodas ou de esconde-esconde até os últimos raios da luz do dia – trazia em sua força uma pedagogia muito especial que se resultava na mais simples educação e que oferecia para cada um de nós a possibilidade de descobrir – na medida certa de nosso crescimento pessoal – a diferença entre homem e o animal, entre o natural e o sobrenatural, entre o ilusório e o real e, principalmente, entre o humano e o divino.

Hoje, infelizmente, os “homens dos sacos” são outros…!

E, realmente, promovem na sociedade um mal muito maior! E, o que é pior, parece que todos já se acostumaram com seus furtos da pureza e da saúde emocional de nossas crianças!

Às vezes, eles chegam de formas muitos especiais, revestidos de heróis, com ares sedutores, em grandes carros amarelos e até com um certo garbo. Alguns trazem, em seus sacos, tabletes, vídeos-games e até mesmo os mais avançados celulares; raramente um livro, um violino, uma bola ou tintas e pincéis!

Quando partem, levam dos pobres infantis a imaginação, pois lhes roubam as possibilidades das divinas inspirações e, também, a capacidade de criação. E, quando não, furtam-lhes a Esperança e, até mesmo – em muitos casos – a própria Razão, que lhes permitiriam, no futuro, ao menos discernir entre o Bem e o Mal!

Ah, como era bom, em certos momentos, desafiar o “homem do saco” daquela época, que já não volta mais! Afinal, era preciso afrontar os temores para poder crescer, mas sem nunca perder a capacidade de discernir e, de certa forma, também, de adestrar nossas próprias habilidades de saber com integridade o mundo de fora enfrentar!

*José Paulo Ferrari é psicólogo clínico, formado pela UnG,
com especialidades na área da Saúde e sua
principal área de pesquisa é a Espiritualidade