O lado nerd da força

Por Cris Marques

Óculos de grau com armação quadrada, calça jeans, tênis e camiseta estampada com jargões ou referências de filmes, HQs ou séries… Será que é assim que se reconhece um nerd? A resposta é não! Ou pelo menos, não mais. Com o início do século XXI, o acesso à tecnologia e a produção de grandes sagas para o cinema, como “Matrix”, a nova trilogia de “Star Wars” ou o lançamento do primeiro “O Senhor dos Anéis”, de J. R. R. Tolkien, essa tribo começou a se expandir tanto, que ultrapassou seus próprios membros. E, ao tomar o mundo, ganhou tantos subgrupos que não é mais tão literal assim.

O professor do curso de jogos digitais da PUC-SP, escritor e tradutor Fábio Fernandes conta que viu de perto essa mudança, que hoje já pode ser considerada um movimento cultural. “Sempre fui nerd, mas na minha infância e adolescência não era algo tão legal assim. Hoje, essa cultura foi absorvida, é mainstream [popular] e aceita socialmente. Virou um estilo de vida. Você pode se vestir e até se comportar um pouco como nerd, mas ser um de fato, só mesmo se você curte isso”.

De acordo com o sócio e CEO da loja Mundo Geek Matheus Machado, essa popularização é importante até para as relações de consumo. Em sua loja, mesmo, é possível encontrar os mais variados itens como roupas, acessórios, copos e canecas, gadgets, peças de decoração, toys, figuras de ação, réplicas e objetos colecionáveis. “Acho o termo ‘moda nerd’ meio exagerado, mas conforme ele é mais discutido, mais exposto, mais gente vem para ‘esse lado da força’. Com a popularização, vende-se muito mais. Você percebe super-herói em todo lugar, inclusive estampados em produtos que não têm muito a ver com o universo. […] Nós temos forte relacionamento com a indústria que produz conteúdo, principalmente com as áreas de licenciamento, e fica evidente nos números um crescimento mais forte nos últimos anos”.

Equie Garotas Geeks no Anime Friends 2014 -Nathalia Oliveira, Tamirys Seno, Luiza McAllister, Alice Mattosinho e Bárbara Jacinto
Equipe Garotas Geeks no Anime Friends 2014

Girl power também tem vez

Assim como em diversos campos, as mulheres também tiveram que conquistar seu espaço no universo nerd. E foi exatamente com esse objetivo que surgiu o Garotas Geeks. “Tudo começou com um projeto de faculdade que a Tamirys fez. No fim, ele deu certo além do papel”, conta a ilustradora Luiza McAllister, conhecida no blog como Batata. No domínio, elas cobrem todo o mundo pop/nerd que o público procura, inclusive estilo e moda. Ao ser questionada por que o nerd/geek vende tanto hoje em dia, ela acredita que, além desse mercado abranger um público de idade bem variado, quem é fã gosta de adquirir artigos relacionados ao que gosta. “Entendo que exista essa ‘tendência’ nerd, mas não acho negativo. Graças a isso, conseguimos ter acesso a muito mais conteúdo, produtos e opções de entretenimento. Quero mais é que o mundo inteiro entre nessa onda”.

Saudosismo e tradição

O jornalista e coordenador de redação da Level Up Games Walter Fiuza convive com esse universo nerd desde que nasceu, e foi pesquisando que ele descobriu o RPG – RolePlaying Game, que, em tradução literal, significa jogo de interpretação de personagens. Hoje em dia, Walter dedica alguns de seus fins de semana a partidas de D&D (Dungeons & Dragons) e Hero Quest, jogo de tabuleiro lançado nos anos 90 pela Estrela “Esse resgate foi mais pelo saudosismo e pela insistência do meu primo, Waldir. Na época, ele só ajudava, pois ainda não sabia ler. Então compramos um Hero usado”.
Sobre esse novo papel do nerd, ele afirma que, após deixar o preconceito de lado, as pessoas começaram a descobrir um mundo inteiramente novo de super-heróis, vilões, dragões, naves espaciais, mundos alienígenas, e enxergaram que isto também pode ser interessante. “O mais legal dessa mudança é a parte de respeitar o próximo, independente de seus gostos”.

A arte de “ser” o personagem

Sabe quando você gosta tanto de um desenho, game, filme, livro ou série que, se pudesse, faria parte dele? Pois é isso que os cosplayers fazem, literalmente. O termo cosplay vem de “Kosupure” que, em japonês, é a abreviação de costume roleplay; em português, seria algo como brincar de se vestir e interpretar um personagem. A webdesigner e designer pleno Thiciani Fernandes Pigliucci começou a prática por brincadeira, mas hoje já desfila em grandes eventos do ramo, como Asuka, do anime Evangelion, e Katarina (foto) ou Jinx de LOL (League of Legends) –, um jogo on-line de luta e estratégia. “Eu comecei a ver anime bem nova e lá pelos 12 anos já ficava doida pelas roupas de marinheiras e colegiais, que apareciam em ‘Sailor Moon’. Aí fazia algumas de papel mesmo, para brincar com a minha irmã”, conta ela, que hoje participa de todo o processo de criação. “Eu sou horrível com costura, não tenho a mínima ideia de como fazer, mas decido tudo com minha costureira. Já os itens e armas, eu faço com meu pai. Comprei várias ferramentas para isso. O que dá uma boa ajuda, pois montar uma caracterização não sai nada barato”, conclui.

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