Baseada no livro “Lava Jato: O Juiz Sérgio Moro e os Bastidores da Operação que Abalou o Brasil”, do jornalista Vladmir Neto, a série “O Mecanismo”, recentemente lançada pela Netflix, em produção original, tem estado cada vez mais presente nas telas dos brasileiros, principalmente após algumas severas críticas apontarem descontentamento com a forma com que os fatos foram adaptados na ficção. Quem assina a obra é o cineasta José Bastos Padilha Neto, que dirigiu os filmes Tropa de Elite e a série Narcos, também da Netflix. O roteiro é de Elena Soárez, de Casa de Areia e Xingu.

A trama mostra os bastidores do início da operação Lava Jato e como foi possível chegar a tantos nomes importantes da política nacional, assim como grandes empresas, doleiros e estatais arrolados em uma minuciosa e bombástica investigação da Polícia Federal, acompanhada e autorizada pelo juiz Sérgio Moro.

Na série, os personagens criados tentam se aproximar ao máximo de suas inspirações, por vezes, com referências até mesmo dos trejeitos da pessoa, como no caso da ex-presidente Dilma Rousseff, que na obra chama-se é Janete Ruscov, em seu emblemático discurso no qual sugeriu, de forma totalmente atrapalhada, a criação de uma tecnologia capaz de estocar o vento.

A princípio são oito episódios. A temporada não tem um final revelador com a solução para tamanho caos instaurado no Brasil; afinal, na vida real, os acontecimentos ainda estão rolando – e estão longe de acabarem – e os assuntos que devem ser retratados são inúmeros. Porém, é possível perceber que durante a história, há ganchos para assuntos que podem ser aprofundados na próxima sequência de capítulos, como um vice-presidente, que de relance, aparece insatisfeito com as ações de sua companheira de chapa, ou um certo político derrotado na campanha presidencial em 2014, preocupado com o rumo das investigações.

A série segue uma linha lógica fiel ao que foi apresentado no princípio da operação, claro, que com suas nuances de ficção, até porque o roteirista necessitava encorpar a obra com um contexto fora das investigações e também dramatizar a operação para torná-la mais didática. Nesse ponto, é bom tomar cuidado, ou poderá cair na velha “forçação de barra”, deixando o roteiro, que por si só é interessante, em algo pedante. Também não deve ser confundida adaptação com distorção.

É importante dizer que caso você não esteja a par de alguns pormenores dos casos, pode acabar se perdendo, principalmente por causa da troca de nomes dos envolvidos (confira quem é quem no fim do texto) e da quantidade de informações apresentadas a todo o momento. Lembre-se: na dúvida, não deixe de dar uma rápida pesquisada para entender e, se possível, antes de começar a acompanhar, procure atualizar o que se sabe sobre a Lava Jato, até mesmo para saber separar a ficção da realidade. Aliás, fazer essa distinção é obrigação nesse seriado – o que pode ser uma grande dificuldade para quem vive em um dos 190 países onde a Netflix está presente.

Em termos cinematográficos, a série agrada e até prende. Atores bons e cenas rápidas e bem feitas não poderiam ter outro resultado. Mas o roteiro, em um assunto tão relevante e atual, deve ser bem pensado e muito bem analisado. Num país onde se dá opinião lendo apenas o título de uma matéria, uma série bem produzida pode ser prato cheio para pensamentos insanos.

Se queria polemizar, conseguiu

Assim que lançada, a série enfrentou uma enxurrada de críticas, pondo em xeque as motivações de quem a criou. Uma das mais conhecidas é a carta aberta publicada por Dilma Rousseff, acusando o diretor de alastrar “fake news” e fazer propaganda política. Seu principal argumento é a frase “é preciso estancar essa sangria” (expressão que se refere a barrar as investigações da Lava Jato), que foi colocada na boca de João Higino, personagem baseado no ex-presidente Lula, sendo que quem realmente disse foi Romero Jucá, um dos principais articuladores do impeachment de Dilma.

Em resposta, o diretor Padilha disse que Jucá não é dono dessa expressão e que a série é uma obra-comentário, sendo que no início de cada capítulo está escrito que os fatos estão dramatizados. O diretor ainda atacou a ex-presidente dizendo que se ela soubesse ler, não estaria tendo esse problema. Em certa parte, concordo com o cineasta, mas, por mais culpa ou envolvimento com a frase que a pessoa possa ter, atribuir uma fala tão marcante assim a outro, mesmo que para fins de dramatização, é um tanto desonesto e poderia ser evitado. Se quisesse dar a cutucada, seria mais fácil criar uma outra frase, com o mesmo sentido.

No mais, a obra em si mostra que o tamanho da sujeira implantada no cerne do Brasil está longe de ter um fim e não está acoplada a um único partido ou setor. Para aquilo a que veio, mostrou-se eficaz em reproduzir: reiterar uma radiografia da política enferma que todos nós, sem nenhuma novidade, conhecemos.

No entanto, vale lembrar aos brasileiros que a situação política na qual vivemos é mera engrenagem de um mecanismo muito maior, presente na vida de todo cidadão desta pátria gentil: a corrupção, muitas vezes disfarçada no famoso jeitinho brasileiro. O câncer está além do setor político, está enraizado em nossa idolatrada cultura. E esse é o ponto mais grave.

Pessoas

Na Série

Inspiração

Marco Ruffo Gerson Machado
Verena Cardoni Erika Marena
Paulo Rigo Sérgio Moro
Roberto Ibrahim Alberto Youssef
João Pedro Rangel (Pepê) Paulo Roberto Costa
Wilma Kitano Nelma Kodama
Ricardo Bretch Marcelo Odebrecht
Mario Garcez Brito Márcio Thomaz Bastos
Marcelo Rocha Ricardo Pessoa
Cláudio Amadeu Carlos Lima
Dimas Donatelli Deltan Dallagnol
João Higino Lula da Silva
Janete Ruscov Dilma Rousseff
Samuel Thames Michel Temer
Lúcio Lemes Aécio Neves
Tom Carvalho Léo Pinheiro
Maria Tereza Maria Lúcia Tavares
Procurador Geral da República Rodrigo Janot
Agente China Japonês da Federal
Tony João Santana
Andreia Mônica Moura

 

Empresas, estatais e outros
Na Série Inspiração
Banco Brasileiro Banco do Brasil
Banco do Estado Banco Banestado
Carvalho Correa Camargo Correa
PO (Partido Operário) PT (Partido dos Trabalhadores)
Polícia Federativa Polícia Federal
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