O Ofício das Trevas

Há na igreja católica um emblemático ritual que, normalmente, é realizado na quinta-feira da Semana Santa, em algumas paróquias que optam em manter a tradição, sobretudo aquelas mais simples do interior e, como lá nasci, ainda mantenho suas lembranças.

É o chamado “Ofício das Trevas” ou, em latim, Tenebrae.

Creio que o seu principal momento é a extinção de quinze círios, que constituem um interessante candelabro de forma triangular, que vai sendo apagado na medida em que se recitam salmos específicos de lamentações e penitências pelos oficiantes, até que o templo fique totalmente às escuras e os fiéis, em silêncio, possam então refletir um pouco mais sobre o significativo combate entre o Bem e o Mal, a Luz e as Trevas.

De certa forma, esse particular ritual, que evoca a aproximação da escuridão que se abateu sobre a humanidade com o martírio do Cristo, tem intrínseca relação com o número 15 que, em certas tradições, é considerado um produto da relação entre o que simboliza o algarismo Divino, representado pelo número 3, com o que representa o Microcosmo, ou o Humano Perfeito, que é simbolizado pela cifra 5.

Talvez não seja sem razão, também, que o número 15 – em certas correntes de pensamento nascidas na Idade Média – evoca a figura do Diabo que, por sua vez, entre os seus vários conceitos significa o Anjo de Luz – Lúcifer – que, embora tenha sido criado para um destino glorioso, se fez trevas por sua ação voluntária e rebelde, diante do Criador.

Este número emblemático é chamado, ainda, de o “Grande Cinco”, por se constituir no resultado da soma dos cinco primeiros números, ou seja, de 1+2+3+4+5 = 15.

Já na Tradição Judaica, por exemplo, – de onde o Cristianismo tem suas raízes – há também uma significativa celebração, realizada em família, que representa a história do Êxodo e reproduz, de certa forma, os 15 passos que conduzirão o homem à iluminação. É o chamado Seder de Pessach, um dos momentos mais importante da própria Pessach, a celebração judaica da Páscoa.

É dito, também, que a belíssima metáfora do apagamento dos quinze círios, que constituem o candelabro do “Ofício das Trevas”, tem por objetivo na Tradição Cristã reproduzir na imaginação humana o ato de abandono dos discípulos que, um a um, deixaram Jesus sozinho em sua maior dor.

Que as quinze luzes, da inspiradora e antiga tradição, faça renascer em nós o brilho da Esperança e da Solidariedade, a fim de que jamais deixemos no abandono os nossos próprios irmãos de humanidade.

Semana Santa de 2019 – São José dos Campos (SP)

José Paulo Ferrari