O peso de um segredo

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Por Cris Marques

Guardar um segredo, saber de algo que mais ninguém pode descobrir ou presenciar uma situação que não pode ser revelada é sempre uma situação complicada. Nem todo mundo é bom na arte da boca fechada, o que pode gerar um grande dilema entre a vontade de contar e as consequências ou implicações que isso pode gerar, para si e para os outros. Nessa situação, a informação sigilosa torna-se um fardo, um sofrimento que pode gerar estresse emocional, comprometendo o bem-estar e até a saúde física.

“Existe, simbolicamente e inconscientemente, um mecanismo de colocar para fora o que consumimos. Podemos tomar como exemplo nosso próprio corpo, que gera esta movimentação em grande parte de seu funcionamento. Carregar uma informação sigilosa aciona este recurso de ‘jogar para fora’ algo em busca de alívio. Além disso, a ação se assemelha a mentir, já que a região do cérebro acionada é a mesma. Sendo assim, é necessário conter o ímpeto de fazer o que é automático e mais fácil: falar a verdade ou revelar a confidência, por exemplo. Não contar exige o acionamento de um mecanismo chamado de controle inibitório e isso requer monitoramento e gasto de energia constante, o que pode gerar problemas”, esclarece Adriana Fernandes, neuropsicóloga em seu consultório particular e no Instituto Psicológico Recomeçar, na Vila Augusta, que também atua com orientação psicológica on-line no site www.olharparadentro.com.br.

Efeitos nocivos

Segundo Adriana, guardar um segredo pode gerar, dentre outros sintomas, estado de alerta, desencadeando tensão e ansiedade; esgotamento físico e mental; falta de concentração por conta do pensamento fixo na problemática, o que leva ao isolamento social; sentimentos de culpa, de não pertencimento; medo das consequências; delírio persecutório, quando a pessoa acha que está sendo vítima de perseguição ou conspiração; e depressão. E ainda, dependendo da gravidade e importância da confissão, é possível que, devido a esses sentimentos prejudiciais, a pessoa passe a somatizar e apresentar sintomas físicos, como tensão muscular, complicações digestivas, alteração na pressão arterial, doenças que afetam o coração e dores de cabeça. “Isso sem mencionar os problemas secundários representados pela busca do consumo de álcool e drogas como válvula de escape. Risco tanto pela parte física (tóxica) quanto pela parte que envolve segurança (frequentar lugares perigosos para adquirir ou consumir substâncias)”.

É possível fugir de um segredo?

De acordo com a neuropsicóloga, nem sempre. Afinal, essa é uma situação delicada e que, geralmente, envolve outras pessoas, mas existem algumas estratégias para lidar com isso. Confira:

– Procurar um psicólogo é uma boa alternativa. No decorrer das sessões, o segredo é compartilhado e elaborado, então o peso de carregá-lo vai ficando cada vez mais leve. Isso sem mencionar a segurança, pois existe a ética profissional do sigilo;

– Quando alguém quiser dividir algo com você, que possa gerar certa ansiedade em compartilhar, peça para que mais um amigo em comum participe. Assim, é possível dialogar sem que o segredo saia do contexto programado pelo confidente. “Sabe aquela coisa de contar só para o seu melhor amigo, que conta para outro melhor amigo dele, até o segredo ser espalhado para todo mundo, como um telefone sem fio? Essa estratégia diminui esse risco”, ressalta;

– Escrever até desgastar o assunto ou gravar um vídeo falando sobre isso, ajuda a aliviar a tensão. “Quando se fala muito sobre algo, mesmo que seja ‘enganando’ o cérebro, falando consigo mesmo, aquele assunto vai perdendo a energia e deixando de ocupar tanto os pensamentos”, pontua.

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