Por Tamiris Monteiro

As novelas exibidas na programação aberta das emissoras brasileiras não têm mais empolgado os telespectadores como antes, tanto que os números de audiência estão aí para comprovar essa afirmação. Surpreendentemente, outro fenômeno curioso é que alguns folhetins fora do horário das 21h têm ganhado mais destaque do que as tramas exibidas no horário nobre. “Totalmente Demais”, por exemplo, novela exibida antes de “Haja Coração”, na faixa das 19h, na Globo, apresentava números mais altos do que “Velho Chico”. Mas, afinal, por que todas essas transformações vêm acontecendo?

De acordo com o jornalista, escritor e roteirista Alex Francisco, os roteiros das novelas passaram por transformações pontuais nos últimos 20 anos. “Um exemplo é o realismo de ‘Laços de Família’, que pregou que a vida pode ser uma novela e levou temas reais para o folhetim nos anos 2000. A partir de então, cobrou-se mais realismo nas novelas, já que isso agradou o público”, avalia.

Após o grande sucesso de “Avenida Brasil”, as mudanças foram ganhando ainda mais espaço, por seu estilo dinâmico, popular e muito próximo ao de grandes séries da TV americana. Por causa dessas mudanças, as tramas passaram a ser mais ágeis e sofisticadas. “Contudo, tamanha agilidade e dinamismo, aliado ao excesso de realismo popular, afugentou parte do público que, atualmente, cobra histórias mais tradicionais e fantasiosas, como um respiro para a dureza da vida real. Ou seja, o telespectador quer apenas entretenimento. Daí o sucesso de ‘Os Dez Mandamentos’, da Record. Daqui a pouco, um novo jeito de fazer novela vai despertar a atenção”, opina.

dez-mandamentosUma Record fora da caixinha

A Record tem chamado atenção por suas produções bíblicas e, de acordo com Alex, a emissora foi feliz em segmentar alguns de seus conteúdos. “Novelas como os ‘Dez Mandamentos’ têm agradado, primeiro, porque o canal tem investido nesse tipo de trama sistematicamente desde 2010, desde a minissérie ‘A História de Ester’ e assim fidelizou o público. Segundo, por ousadia. Particularmente, sempre achei as novelas da Record mais ousadas do que as da Globo no quesito trama – não no quesito qualidade, nisso a Record veio se aperfeiçoando com o tempo e mostrou força em ‘Os Dez Mandamentos’. Mas não vimos mutantes na Globo, tão pouco tramas cujas histórias centrais fossem temas pesados como aids, depressão pós-parto, drogas, cadeirante protagonista, entre outras. A primeira novela da atualidade a levar a favela para o centro de uma narrativa foi ‘Vidas Opostas’, da Record, cuja audiência incomodou a Globo”, pontua.

Para o roteirista, essa mesma ousadia desperta o interesse do público. “Quem iria imaginar que uma história tão universal como é a de Moisés, que o final todo mundo sabe, fosse render uma novela com quase 200 capítulos, repleta de efeitos especiais?”, ressalta. Ainda que tenha sido uma novela mais alegórica do que de interpretação, foi uma produção que tinha a seu favor o elemento curiosidade. O público, a essa altura saudosista de folhetins puramente ficcionais, deu um voto de confiança à Record.

Telespectador passou a ter mais opções

Pela avaliação das médias registradas pelo Ibope, a Globo mantém a liderança da audiência com suas novelas. Embora “Velho Chico”, a principal delas, não esteja fazendo muito sucesso, “Êta Mundo Bom”, das 18h, chega a 30 pontos. No entanto, o investimento de outros canais em teledramaturgias atípicas fez com que a Globo perdesse o poder absoluto e possibilitou que o público escolhesse novelas diferentes. A Record foi mais para o lado das tramas bíblicas e de época, o SBT persiste nos enredos infanto-juvenis e mexicanos, e a Band tem apostado nos folhetins turcos.

“Atualmente, não há como a Globo exigir o registro de 40 pontos no Ibope para uma trama das nove, pois o público descobriu e gostou de assistir às produções de outros canais, além de ter a internet e a TV paga oferecendo outros conteúdos que podem ser acessados em qualquer horário e lugar. A mudança foi o comportamento do público diante do produto telenovela. Hoje quem não assiste novela é aquele telespectador que cresceu assistindo e que, cada vez mais exigente, vai procurar conteúdos alternativos”, analisa.

fatmagulNovelas turcas ganham espaço

Para quem ainda não viu ou não sabe, a Band também começou a importar novelas, mas as tramas da emissora vêm da Turquia. Pode parecer diferente, mas a primeira novela, intitulada “Mil e Uma Noites”, rendeu significativa audiência para o canal. Tanto que a emissora já está na exibição do terceiro folhetim turco em seu horário nobre.  “Essas novelas despertam interesse pela curiosidade e ousadia. ‘Mil e uma Noites’, por exemplo, teve êxito pelos dois fatores. É uma produção turca no Brasil, o que remete ao interesse do público em outras culturas, e tem a aposta em mulheres protagonistas vivendo grandes dilemas. A Sehrazat, personagem protagonista dessa novela, tinha o conflito de ter de se entregar ao chefe para salvar o filho e, depois, se apaixona por ele. Chegam a causar o mesmo efeito que as novelas mexicanas do SBT, com tramas rocambolescas”, explica.

O que o brasileiro espera de uma boa novela?

“Boa história. Pode parecer injusto, pois há novelas com uma qualidade técnica incrível, mas o que realmente agrada o público é uma novela bem contada, com protagonistas com empatia e química, com personagens que estejam próximos de sua realidade. Embora novela tenha um estilo de ser que não muda por conta do gênero, inovar com alguns recursos é preciso, pois isso também cativa o público. Exemplos disso é ‘Além do Tempo’, com a virada de 150 anos, e ‘Totalmente Demais’, utilizando o folhetim clássico da Cinderela nos dias atuais”.