O velho chapéu do meu querido pai

Quando eu era criança, em nossa pequena cidade do interior, entre tantas brincadeiras, como correr pelos campos, subir nas árvores, aventurar-se pelas matas e nadar nos ribeirões, uma em particular estimulava a minha imaginação infantil: colocar sobre a cabeça o velho chapéu do meu querido pai. Aqueles eram, de certa forma, momentos mágicos, de pura ilusão, quando me sentia adulto e fantasiava as responsabilidades do herói de nossa casa que, quando chegava do serviço, nos fins de tarde, tinha sempre sobre a cabeça o seu velho e suado chapéu, além de uma surrada pasta de couro em suas mãos. Ele sempre chegava alegre, embora cansado, pois iria estar com seus dois filhos adorados, que não o viam desde muito cedo, quando saíra para o trabalho, como feitor de construção e no cuidado da manutenção das antigas estradas da região.

Todos os cinco dias da semana, ao chegar do trabalho alquebrado, meu pai – que tinha para a época uma idade um pouco avançada, já que se casou com minha mãe depois dos quarenta anos, e uma aparência de idoso nos idos tempos dos anos 1950 – depositava sobre um cabide de madeira seu surrado paletó e deixava sobre a antiga cadeira, na sala, sua pasta e, sobre ela, seu velho chapéu de feltro macio. Após os cumprimentos de praxe, como pedir “as bênçãos” e fazer um relatório de como tinha sido o dia, além de pedir desculpas pelas diabruras e justificar as brigas com o meu irmão mais velho, era comum eu correr em direção da sala para colocar sobre a cabeça o admirado chapéu.

Lembro-me, com saudade, que ele tinha certo cheiro muito particular que, depois, descobri ser da tira de couro, chamado carneira, que servia de reforço no interior do chapéu e que, em contato com o suor, produzia um caraterístico odor. Para minha mente infantil, certamente, aquele cheiro era o que caracterizava a figura masculina que, durante meu processo de desenvolvimento, precisava imitar para poder crescer e, quem sabe, também em herói de crianças um dia me tornar. Talvez, por instinto ou imitação, colocar sobre a própria cabeça o que mais caracterizava o velho trabalhador, era para mim, como criança, uma forma de me igualar ao meu herói e poderes mágicos adquirir.

As recordações das brincadeiras, com o chapéu na cabeça e, às vezes, com a pasta na mão, hoje fortalecem minha alma, que vive também de saudade, e preenchem meu coração de belas e divinas emoções. Pois, como muitas crianças deste rico País, também fui um dia menino do interior e, com a força da imaginação, hoje ainda invoco a sabedoria e o amor do meu velho pai, que me deixava usar sua coroa de feltro macio e me fazer, também, por alguns momentos, ser rei ou, quando não, um sacerdote.

*José Paulo Ferrari – São José dos Campos, 19 de julho de 2019