Por Valdir Carleto

Algum parentesco com o Miguel ou a Débora Falabella?
Que eu saiba, não. Andamos pesquisando o passado e, talvez, meu avô tenha sido primo do avô do Miguel. Todo mundo pergunta. Sei lá…

Com que idade percebeu que tinha queda para a música?
Ganhei um violão do meu pai, Olympio Falabella, quando eu tinha seis anos de idade. Nunca parei.

Fatalmente, teve influência dele na sua escolha. Ele também toca?
Total influência. Ele sempre tocou. Canta e toca muito bem.

Você estudou música?
Aprendi os primeiros acordes com meu pai, segui sozinho até quase 18 anos, e já dava aulas quando fui cursar violão, por alguns meses, no Conservatório Musical de Guarulhos, do Colacioppo. Depois, estudei um ano e meio no Conservatório Municipal. E na ULM (Universidade Livre de Música), estudei viola caipira com professor Rui Torneze. Isso foi quando já estava fazendo o CD “Violeiro Urbano”.

Eu me lembro que, em 1982, o Grupo Origens, com jovens do Parque Cecap, defendeu músicas suas em um festival de MPB que foi realizado no clube de lá. O que aconteceu com aquele pessoal?
O grupo surgiu pelos idos de 1980 e durou pouco depois do festival.

O resultado daquele festival já foi estranho, não? Tinha três músicas classificadas entre as dez finalistas e não pegou nada entre as cinco…
Festivais têm resultados inexplicáveis. Deixa pra lá.

Por muito tempo, você tinha a música por hobby e ganhava a vida profissionalmente de outro jeito.
Sempre dei aulas de violão, tocava bastante na noite, em São Paulo, Guarulhos… Depois que comecei a tocar só músicas próprias e as de Elomar e outros não-comerciais, ficou mais difícil tocar na noite. Tive um grupo chamado Tatarena… E trabalhei na Varig por 11 anos.

Antes de participar do festival da Globo, concorreu em outros?
Aquele foi no ano 2000; antes eu concorri em vários, mas marcante foi o da Globo. Passados 15 anos, não tem um dia em que eu não precise falar dele.

palcoComo escolheu a música “Brincos” para disputar?
Eu não escolhi: escolheram. Participei de tanto as pessoas insistirem comigo, exatamente por causa de “Brincos”. Fui na última hora do último dia, mais para atender os amigos. Não esperava ter chance, porque eram 25 mil músicas inscritas.

Eram 25 mil? Como é o júri que escolhe e quantas ficam?
Não sei como é feita a seleção. Foram classificadas 48.

Ao saber que estava entre 48, levou um susto…
Trabalhava no Aeroporto: todo dia alguém me perguntava. Aí, recebi um telefonema, me alertando que eu não podia contar pra ninguém, por uma semana. Na sequência, foi bem corrido, uma van vinha me buscar, gravei clips, fui a ensaios…

Passou em uma eliminatória, em outra… Quando ficou entre as dez finalistas, achou que iria ganhar?
Nas eliminatórias, ia ônibus com gente de Guarulhos para torcer. Na final, torcidas de outros concorrentes passaram a torcer por “Brincos”, vários que estavam na final achavam que íamos ganhar. Mas eu dizia para o Lula Barboza, que interpretou a música, que algo me dizia que não ganharíamos.

Aí, saiu o resultado e você não pegou nem quinto lugar, pelo júri técnico, embora tenha sido vencedor no júri popular…
No meu íntimo, achava que não ganhava. Quando foi anunciado que havia ganho na escolha popular, com mais de 60% dos votos, já vi que não tinha ganhado pelo júri.

E parece que a Globo não gostou do resultado, porque ela enterrou o festival e nunca mais realizou outro.

Não gostou mesmo. Saiu o CD das finalistas e a emissora só divulgou por dez dias. E a música de fundo não era a vencedora, mas a minha! Afinal, o 0800, do Brasil todo, tinha escolhido “Brincos” e nenhuma outra.

Esperava-se que a ganhadora fosse para o Faustão, pro Fantástico. E nada disso ocorreu.
Ficou claro que a Globo não aprovou.

Quanto você ganhou por ter vencido no voto popular? E foi aí que decidiu sair da Varig?
Recebi 100 mil reais. Mas já tinha decidido sair da Varig, porque estava difícil conciliar.

E foi uma escolha certa passar a viver de música?
Eu estava preparando meu primeiro CD, “Ciranda Lunar”; com o dinheiro que ganhei, concluí o disco, passei a fazer vários shows, vendendo o CD. Continuei lecionando. Vivo de música. Faço shows nas unidades do Sesc, participo de gravações de outros artistas, vendo CDs pela internet… Pouco, no meu estilo vende pouco; de discos, não daria para viver.

Concorreu em outros festivais?
Até participei, embora não goste muito dessa coisa de concorrer. Acho que música não se faz para concorrer. E nunca mais ganhei nada.

Muitas de suas letras falam de natureza. É uma forma de manifestação ecológica?
Não sou muito ligado nisso. São temas, como outros. Vem de inspiração.

E seu apego com a viola, de onde veio?
Sempre gostei do som da viola, mas não tinha contato. Ouvia no rádio. Até que comprei uma viola e comecei a aprender sozinho. Por um tempo, parei, porque não dava tempo. Até mandei uma música instrumental para o festival Syngenta, de viola caipira. A música entrou, foi classificada, fiz parte de um CD. Um dos prêmios era participar de uma série de shows, mas eu precisava tocar 40 minutos e não tinha outras músicas. Tive de transformar tudo que havia para poder apresentar. Logo em seguida, fui convidado a estudar na ULM, com o professor Rui Torneze. Participei do projeto dele “Canto da Terra” e fui escolhido para dar aula de viola caipira no projeto em Guarulhos, com recursos da Secretaria de Cultura do Estado. Tive uns 60 alunos, por um ano e meio. Depois, formei um projeto, de tradições culturais, pelo Proac (estadual). Outro projeto que fiz foi o “Na batida da viola, um futuro promissor”, patrocinado pelo Funcultura, da Secretaria de Cultura de Guarulhos. Daí surgiu o grupo “Viola e Paz” e fizemos um CD, com diversos violeiros, só com composições do Cachorro Magro, nome artístico de um rapaz guarulhense.

Quais autores mais o influenciaram na escolha do seu estilo e repertório?
Os baianos Elomar, Xangai e Vidal França, além de Vital Farias, da Paraíba, e Dércio Marques, de Minas Gerais.

capa do discoE o novo CD, “Parceria”? Fale sobre ele.
Era uma ideia antiga de juntar amigos da estrada, poetas e músicos. Uma parte da nata da música regional e independente. Na ala feminina, temos: Consuelo de Paula, Sonya Prazeres, Socorro Lira, Déa Trancoso, Katya Teixeira e Daniela Lasalvia. Na masculina, meu filho Kaique Falabella, Chico Branco, Ricardo Dutra, Fernando Guimarães, José Ricardo Silva e Zé Helder. Em algumas das 14 faixas, eu fiz a letra, em outras, a melodia. O disco tem participação do percussionista Pedro Romão da violonista Carla Raiza da violoncelista Mariana Brandão e vários convidados.

Esperava quase lotar o Adamastor, no lançamento do disco?
Graças a Deus, ao longo de todos esses anos, fui juntando amigos, gente que gosta do estilo do que componho, toco e canto. Tive a felicidade de reunir companheiros da melhor qualidade, para apresentar ao público um tipo de música que não toca nas rádios, que fala de coisas simples, que mexem com a sensibilidade das pessoas. No show teve a participação do Grupo Quartula, formado por Pietro Carlo e Ricardo Silva (violão), Talita Sanches (flauta), Valdir Maia (violoncelo), Pedro Romão (percussão), Leandro Araújo (contrabaixo) e vários convidados. Fiquei feliz de ver tanta gente lá e espero que tenham gostado. E que apreciem o novo disco também.