O voo do falcão Eduardo Lyra

Por Fábio Carleto e Talita Ramos

Eduardo Lyra é o jovem empreendedor social à frente do Instituto Gerando Falcões, sediado em Poá – SP, que com apenas quatro anos e meio de existência já ajudou mais de 300 mil jovens, por meio de projetos sociais que trazem oportunidade à periferia, com esporte e cultura. Após uma infância difícil em Guarulhos, vivendo em um barraco e tendo o pai preso, Eduardo deu a volta por cima, junto de sua família e, assim como um falcão, tem alçado altos voos em busca de um mundo melhor, sendo eleito como um dos 30 jovens mais influentes do País pela revista Forbes Brasil e Paulistano Nota 10 pela revista Veja. Conheça um pouco mais de sua trajetória em nossa entrevista realizada na escola Jose Antonio Bortolozzo, que Eduardo ajudou a revitalizar, em Poá.

Você estudou nesta escola?

Eu me alfabetizei aqui, estudei da 1ª à 4ª série. O poder público implodiu a escola que existia e ergueu essa nova que se tornou referência na região. Então o que a gente faz é trazer pra dentro da escola ferramentas sociais para causar uma transformação. O Gerando Falcões é o braço social da escola. A gente tem aulas de futsal e tênis, masculino e feminino, temos também um grande coral da comunidade, com média de 120 crianças e ações de teatro, cinema, stand up, e já recebemos visita de Romero Britto, Rubinho Barrichello e Rafael Cortez.

E o quanto você teve a ver com essa revitalização?

Acho que a minha participação é mesmo de fazer as coisas serem operantes, de fazer a comunidade se sentir parte da escola. De não ser uma pauta negativa. De quando vir você, você vem pela pauta positiva. Quando a Globo vem, é pela pauta positiva e colocar a periferia como protagonista, como realizadora. Minha participação é de trazer arte, esporte, música, tentar aumentar o nível de transformação e diminuir o nível de preconceito.

Quer dizer que o poder público botou bloco e cimento e vocês colocaram vida?

É isso. Em resumo é isso. Tenho um grande diretor aqui na escola que é o Marcelo Paiva, um grande gestor público e a gente se uniu pra desenvolver todo esse trabalho com os alunos.

Como que foi essa aproximação? Eles foram procurar você por tudo que já tinha feito na região ou você viu a escola e pensou em participar?

Acho que foi uma via de mão dupla das pessoas terem respeito pelo Gerando Falcões, terem respeito por eu ter erguido minha história aqui e por ter feito as minhas escolhas certas aqui e segundo por eu entender que eu consegui estudar aqui e dar um voo. Eu precisava dar uma resposta significativa para minha comunidade, então a partir dessa reflexão, a gente decidiu unir as forças pra causar essa transformação e tem dado muito certo.

O Gerando Falcões tem quantos anos?

Uma média de quatro anos e meio.

E como foi que ele tomou espaço na sua vida?

Eu comecei fazendo um livro chamado Jovens Falcões. Montei um comitê de jovens que me emprestou dinheiro e saí viajando o Brasil pra tentar encontrar histórias legais de outros jovens, que do nada foram para o tudo. Nisso saiu o livro Jovens Falcões. Eu voltei, captei um recurso com empreendedores na comunidade. Publiquei o livro. Vendemos cinco mil livros em três meses. Peguei essa grana e aportei tudo no Gerando Falcões. A partir daí começou a emergir essa história de empreendedorismo, força e luta. Aí comecei a conhecer pessoas que se sensibilizaram com minha causa. Uma delas é a Patrícia Villela, esposa de um dos herdeiros do banco Itaú, que decidiu fazer uma doação. Ela me colocou num processo de treinamento e capacitação, que resultou em estatuto, em montagem de equipe, em posicionamento no mercado, em calibragem do discurso e em metas. Ela colocou metas e me assinou um cheque. Eu cumpri todas as metas e fui muito além, tanto que em dois anos a gente saiu de um projeto, para oito projetos, de uma pessoa para 20, de um apoiador, que nem apoia mais porque era um ‘seed money’, para patrocinadores de peso como Motorola, Geração de Valor, Universidade São Judas, Instituto Azzi e várias outras coisas que deu pra gente projeção e a chance de no final do dia causar mais transformação com projetos dentro de escolas, periferias, favelas e presídios, agora entrando com um projeto de educação empreendedora no Adriano Marrey em Guarulhos.

Mas e o livro? Em algum momento ele deixou de ser uma ideia e passou a ser um projeto que você perseguiu. Qual foi essa virada de chave? O que você fazia antes?

Antes eu estudava jornalismo e fazia estágio na prefeitura de Ferraz de Vasconcelos, mas eu queria ter mais do que um diploma, queria ter um projeto. Queria fazer algo que me projetasse, que me desse respeitabilidade, musculatura para competir, então isso foi o livro. A partir daí, se abriram portas ao ponto de eu começar a dar palestras em bancos, muitos dos quais possivelmente meu pai tentou roubar e eu lá dando palestra, então depois disso muita coisa mudou. Fui passar em empresas como Itaú, Bradesco, Nike, Porto Seguro, Fiat, Microsoft, Google, para relatar essa história de empreendedorismo e lutas, para inspirar pessoas e participar do debate da vida ativa do País como
elemento de inspiração.

Hoje o Gerando Falcões já impactou quantas mil vidas?

Trezentos mil jovens, indo para quatrocentos dentro de três para quatro anos.

O que você imagina que pode acontecer nos próximos cinco e nos próximos dez anos?

Eu quero fazer o movimento de levar o Gerando Falcões para o mundo, não para satisfazer um desejo meu, mas para que um jovem pobre que nasça na África ou no Sudão possa se levantar de manhã e tenha a minha história como exemplo: ‘O Edu nasceu na favela. Teve um pai preso no sistema prisional. A mãe dele era uma diarista. Ele vivia dentro de um barraco e construiu algo que foi para o mundo. Se o Edu pôde eu também posso. É possível’.

Eu queria deixar essa mensagem para o mundo. Daqui a dez anos eu gostaria de estar muito próximo disso, começando pela América Latina.

eduardo lyraComo é que você fez essa metamorfose de conseguir fazer as pazes com a sua história e produzir disso coisas tão positivas?

Primeiro eu acho que é difícil uma pessoa conseguir fazer trabalho social, como a gente, se não tiver a capacidade de perdoar e amar. A matéria principal do empreendedor social é a matéria do amor e segundo é você ter a capacidade de olhar pra trás e perdoar, porque só quando a gente consegue perdoar é que conseguimos olhar pra frente e continuar. O que eu mando pro mundo é o amor. O fato de eu ter trazido o Romero Britto, que foi um movimento sobre-humano de articulação, foi um movimento do amor. Ir para São Paulo captar, trazer ferramentas sociais, empregar pessoas é o amor, porque na ONG eu não tenho um bônus, eu não tenho um lucro sobre o que eu faço. É o amor. Só que isso volta. Tudo o que vai volta. Pensando em voltar, tem alguma coisa melhor pra mandar pro mundo do que o amor? E por último acho que temos que tentar eliminar preconceitos. A gente tem que ser cada vez mais puro nisso, que é não ter um olhar preconceituoso para o mundo. Na minha organização trabalha evangélico, casal de gay, ex-presidiário, ex-PCC, petista, tucano. Quando a causa é social, esse é o momento em que você une o pastor, o gay, o tucano, o petista e põe todo mundo junto para causar transformação, porque é o social.

Você pessoalmente é mais artista, mais esportista ou mais intelecto? O que mexe mais com você?

Eu sou muito esporte. Eu corro todo dia 10 km e aí eu volto pra casa, oro, e quando eu oro a Deus eu oro por três coisas apenas: para que Ele me dê saúde, segurança e equilíbrio emocional para que exista essa temperança, mesmo que o mundo esteja pegando fogo, que tenha paz. Depois eu leio a Bíblia e mais algum texto relevante. São as três coisas que eu faço. Eu sem esporte entro num nível de desempenho muito menor. O esporte pra mim é muito especial, mas também adoro ouvir jazz, ler, me mantenho lendo dois livros por semana, eu estou lendo Jim Collins agora, Feitas para Vencer. Também estou lendo Dráuzio Varella e semana passada eu li uma outra biografia do Mandela.

Guarulhos foi o lugar em que você viveu os primeiros anos da sua vida. Como é sua relação com a cidade hoje e o que tem de ação de vocês para acontecer nela?

Boa parte da minha família está em Guarulhos e eu atendo a cidade com palestras em escolas e o projeto que a gente tem no presídio Adriano Marrey. O que estamos fazendo pra lá vai ser tão incrível que vai ser um case para o mundo. Eu consegui engajar marcas como Microsoft e São Judas num projeto muito inovador que envolve educação, empreendedorismo, tecnologia, produção e renda para os presidiários e remissão de pena. Possivelmente esse projeto é o que vai ser replicado em outros países da América Latina, começando por Guarulhos.

Desses 300 mil jovens que já foram atendidos, qual história de transformação mais te marcou?

Tem uma história muito legal de um cara chamado Leonardo. Ele foi um jogador profissional, mas acabou ingressando no crime, passou sete anos preso, entrou numa organização criminosa de São Paulo, não faz mais parte e através da minha influência na vida dele, decidiu largar o crime e as drogas e hoje é coordenador de esporte no Instituto Gerando Falcões. A influência que você causa na vida do outro é a maior moeda que você tem.

Tem alguma coisa que não perguntamos e você gostaria de dizer para nossos leitores guarulhenses?
Quem é meu ídolo. É o Nelson Mandela. Acho que os jovens, políticos, empresários, quem quer ser maior precisa ter como regra o Mandela, acho que ele foi um exemplo extraordinário de perdão e de fazer o outro se sentir potente. O Mandela sabia fazer o outro se sentir visível.