Os três momentos da Natureza e as três Preces diárias devidas ao homem

Segundo a tradição judaica, o homem deve orar, pelo menos, três vezes ao dia, pois de forma geral, o dia – como todas as manifestações perfeitas – também tem três grandes expressões ou momentos, ou seja, a manhã, a tarde e a noite, que podem ser compreendidos, a princípio, como os períodos da luz, da penumbra e da escuridão.

Certamente, não é sem razão, também, que na grande maioria das tradições, como pode ser visto, é apresentado um princípio único ou uma grande divindade que se expressa de maneira ternária, a exemplo do Hinduísmo que estrutura seus ensinamentos sobre os seus três mais importantes deuses conhecidos como Shiva, Brahma e Vishnu. Ou, ainda, a própria religião cristã que fundamenta toda a sua crença ou profundo mistério sobre a existência do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Assim, em muitas religiões o dia, também, é visto como a unidade de um período consciente e ativo de nossas almas, que demarca o tempo, o momento, que é concedido para a grande experiência diária da fé quando, então, tem-se a oportunidade de ser colocado à prova e, também, são oferecidas as oportunidades de praticar o bem entre os semelhantes.
De acordo com o belo e inspirador princípio histórico do povo judeu que, também, deu origem a própria tradição cristã, a primeira prece é a matutina, aquela realizada no romper do dia e que tem o poder de abrir o coração e a mente do homem para os ideais divinos. Ela foi instituída pelo seu primeiro patriarca, Abraão, o chamado pai da Humanidade, quando este, embora tivesse assumido seu compromisso como principal condutor de seu povo, foi tocado pela dúvida diante do ato do sacrifício e precisou rogar aos céus as orientações para o cumprimento de seu dever.

A segunda prece, a vespertina, foi estabelecida pelo primogênito do próprio patriarca, chamado Isaac, que a proferiu pela primeira vez como uma súplica de consolo e para a lembrança, entre outras coisas, da necessidade que o homem tem de receber a graça do lenitivo que repara as dores humanas, angústias e os sofrimentos, diariamente.

E, finalmente, a terceira prece, a noturna, que foi estabelecida por Jacob, aquele que deu origem ao nome de Israel e era neto de Abraão. O terceiro patriarca a estabeleceu como uma forma de agradecimento em reconhecimento das bênçãos divinas que como o orvalho que desce suavemente sob a força do luar para tornar o solo fértil, vem nutrir as Almas no período noturno e fortalecer os Espíritos humanos durante a imensidão da noite quando a luz se acha ausente.
Pode-se, assim, observar que praticamente em todas as grandes tradições que deram origem as mais variadas religiões, ao longo da história da humanidade, de forma geral, a prece, a oração, além de ser um rogo, uma súplica, é a principal forma de comunicação entre o humano e o divino e, portanto, uma compartilha, uma forma de diálogo, uma conversação, uma comunhão íntima e transcendental com o plano espiritual, que deve ocorrer em, pelo menos, três períodos ou momentos distintos propostos pela própria Natureza.

José Paulo Ferrari – (Quaresma de 2018); é psicólogo clínico e um estudante dos conceitos teológicos das mais variadas tradições