Por Jônatas Ferreira
Fotos: Rafael Almeida

Às 6h da manhã o padre Antonio Bosco da Silva, 51 anos, está de pé para oração e estudo da Bíblia. Esse costume ele adquiriu nos tempos de seminarista. Depois, toma o café e prepara-se para sua agenda diária, que hoje gira em torno de duas missas por dia, diversos atendimentos pela manhã e à tarde, além de reuniões administrativas e de projetos. No sábado, celebra uma missa a mais e casamentos. No domingo, são quatro missas feitas religiosamente. Com o pouco tempo que sobra, faz visitas a familiares, amigos e outras igrejas que ainda não conhece. É com uma rotina dessa que o sacerdote celebra seus 25 anos de ordenação, completados no dia 20 de fevereiro.

Padre Bosco, como comumente é conhecido, é paraibano, nascido em uma cidadezinha chamada Salgado de São Félix. Apesar disso, suas raízes estão fixadas em Guarulhos. Chegou aqui com cinco anos de idade, junto dos pais e irmãos em 1972. A família mudou-se em busca de uma tentativa de vida melhor. O pai trabalhava na construção da estação Sé, enquanto a mãe, que naquela época não podia exercer a função de professora, fazia pequenos trabalhos para complementar a renda. Por sete anos morou na região onde hoje está localizado o Carrefour Vila Rio e Shopping Maia. “Ali era uma chácara muito grande, com um riozinho, brejo, poucas construções. Naquela região do Santa Mena, por exemplo, só havia a escola Brasília Castanho de Oliveira, a paróquia, que na época era uma capela, e algumas casas”, conta Bosco, saudoso ao relembrar da infância. “Foi uma vida pobre, como muitas da época”.

Frequentava a comunidade de Santa Mena, onde hoje encontra-se a paróquia de mesmo nome. Estudou parte do ginasial (ensino fundamental) na escola Brasília Castanho de Oliveira e parte na Juvenal Ramos Barbosa. No colegial (hoje ensino médio) decidiu ingressar no seminário salesiano em Pindamonhangaba. Ali permaneceu por três anos. Em 1985, fez um ano de estudos espirituais, no seminário de São Carlos. Depois, cursou três anos de filosofia em Lorena, e de 1989 a 1992, fez teologia.

A rotina de estudos do padre ao longo dos dez anos era intensa. “Acordávamos às 6h, dedicávamo-nos às orações e estudo da Palavra, participávamos da missa e depois fazíamos limpeza na casa. Após, havia o tempo de aulas até o almoço. Toda a tarde também era dedicada às aulas. Depois tínhamos mais um período de oração e às 21h nos recolhíamos para os quartos para dormir. Isso toda a semana. Ah! Terças e quintas tínhamos esporte”, conta. Questionado se pensou em desistir, o padre afirma que, como todo jovem, pensar em desistir é normal. “Mas não nos preparávamos para o dia da ordenação sacerdotal simplesmente, e sim para uma vida inteira dedicada à vivência da santa vocação. É como o casamento: você não deve se preparar para o dia da cerimônia, mas para toda uma história”.

O padre revela que seu chamado à vocação conheceu vários momentos intensos. “Na simplicidade da eucaristia exposta sobre o altar da paróquia Santa Mena, na Quinta-feira Santa de 1981; o canto “se ouvires a voz do vento chamando sem cessar”; o clima intenso das pequenas comunidades eclesiais na década de 1980; a primeira visita do papa João Paulo II ao Brasil; enfim, pequenas confirmações do caminho que o senhor me propunha”, rememora, em tom alegre e sereno.

Ao todo, Antonio Bosco dedicou-se dez anos aos estudos para poder assumir, aos 26 anos, o cargo presbiteral, em 1993, pelas mãos do falecido bispo dom Luiz Gonzaga Bergonzini. Sua primeira igreja foi a Paróquia São José, no Jardim Paulista, onde ficou por apenas três meses. Dali foi direcionado como formador à Casa Nossa Senhora de Lourdes, em Itapegica, dedicada a acolher os seminaristas de filosofia. Em 1996, foi transferido para o Seminário Diocesano Imaculada Conceição, que passou a abrigar os estudantes de teologia e filosofia, ajudando nos fins de semana como vigário paroquial na igreja Nossa Senhora do Bonsucesso, no bairro de mesmo nome. Entre os anos de 1997 e 1999, fez pós-graduação em teologia bíblica, enquanto exercia a função de reitor do Seminário. Em 2003, assumiu como pároco o Santuário São Judas Tadeu, onde ficou até 2009, quando foi deslocado à Catedral Nossa Senhora da Conceição (Catedral de Guarulhos), a qual dirige até hoje.

Nestes 25 anos, assumiu diversas funções administrativas na Igreja, como ecônomo, participante do Conselho de Presbíteros, comissão de Arte Sacra e Colégio de Consultores. Atualmente, é também vigário geral de Guarulhos. Tal função exerce desde a época de dom Joaquim Luiz Gonzaga Bergonzini (in memoriam), em 2012. Após a morte de dom Joaquim (2013), ficou responsável pela Diocese por oito meses, até que o papa nomeou dom Edmilson Amador Caetano para a missão.

Padre Bosco é conhecido também pelas reformas que promove nas paróquias por onde passa. “Eu gosto de pesquisar sobre arquitetura e arte sacra quando sobra algum tempo”. O pároco orgulha-se das melhorias que trouxe à da Catedral Nossa Senhora da Conceição, como a reforma de todo o telhado, do velho sino, a implantação de azulejos que retratam ilustrações bíblicas (…). A Igreja de Nossa Senhora do Rosário Mãe dos Homens Pretos e São Benedito, localizada na praça do Rosário, no junção das ruas João Gonçalves e Sete de Setembro, no Centro de Guarulhos, passou também por reformas. Com um custo previsto em R$ 1 milhão, o templo ficou fechado por quatro anos e veio a ser reinaugurado em 2017, com o interior completamente reestruturado, faltando reformar apenas a parte externa.

Além disso, o padre também iniciou, no tempo em que foi reitor do Seminário Diocesano, no Lavras, ao lado do bispo dom Luiz, a construção de um edifício de 4 mil m² (igreja, 50 quartos, refeitório, cozinha, biblioteca, salas de estudo, auditório). “Muitas pessoas questionaram a construção pelo fato de termos poucos seminaristas na época. Mas dom Luiz enxergava longe. Começamos uma grande campanha de oração pelas vocações, pela intercessão de Nossa Senhora das Vocações. Eu era o reitor à época, e passei a visitar as comunidades de nossa Diocese, pedindo ao povo que cumprisse o mandado de Jesus de orar pelas vocações. Em pouco tempo passamos a quase quarenta seminaristas, muitos dos quais hoje são padres”, conta.

Sobre a transformação da Igreja em Guarulhos, ele diz que tudo tem sido trabalhado para melhorar cada dia mais e isso torna-se visível quando se vê o a participação e dedicação dos fiéis. “Acompanhei visivelmente o crescimento da igreja em nossa cidade, bem como seus imensos desafios; posso testemunhar o empenho amoroso de nossos padres, agentes de pastoral, evangelizadores. Dá para ver o reino de Deus crescendo”.

Padre Bosco conta que sempre teve apoio de todos em sua decisão ministerial; por isso, é grato a todos que de certa forma influenciaram-no nesses 25 anos de sacerdócio. “Houve momentos difíceis e até dolorosos, mas não faltou apoio dos colegas, família, bispos”.
Questionado se está pronto para os próximos 25 anos, ele brinca: “Eu espero que sim, Deus é quem sabe”. Para aqueles que sentem a vocação arder em seus corações, motiva: “Não tenham medo de cumprir a missão designada por Deus”.

Rito maronita em Guarulhos

Em 2005, padre Bosco teve contato com a vida de São Charbel, um santo monge libanês maronita. O contato com a história, beleza e tradição oriental maronita foi tão forte, que levou o sacerdote, com o apoio de dom Luiz e dom José Mahfouz, bispo maronita à época, a instalar a primeira paróquia que celebra esse rito em Guarulhos, localizada no Jardim Tranquilidade. “ É uma riqueza espiritual partilhada com nossa igreja de Guarulhos”.

Programação do Jubileu na Catedral de Guarulhos:
20 de fevereiro, 12h, missa;
19 a 24 de fevereiro: 11h30 – meditação vocacional e missa;
25 de fevereiro, 17h, missa.

Perfil da Revista Guarulhos edição 126*