Aos 59 anos de vida e 32 de dedicação ao sacerdócio, o padre Antônio Carlos Frizzo,  professor de teologia bíblica, com doutorado na PUC do Rio de Janeiro e mestrado em Israel, pelo Instituto Católico de Paris, ex-militante e filiado do PT – Partido dos Trabalhadores, e atual vigário da Paróquia Santa Cruz e Nossa Senhora Aparecida, no Jardim Presidente Dutra, é de fala fácil e tem opinião formada sobre muitos assuntos. Nesta entrevista, ele conversa sobre fé, política, aborto e pedofilia, com muita desenvoltura e sem medo de dizer o que pensa. A entrevista aconteceu no dia 28 de janeiro.

Como foi que se tornou padre? É feliz com essa escolha?

Sim. Sou muito feliz sendo padre. Entre 1979 e 1981, a Igreja lutava contra a ditadura e eu aprendia na instituição a Teoria da Libertação e, ao mesmo tempo, vi o PT nascendo; aquilo tudo me contagiou. Vi uma igreja dos pobres, com os pobres, contra a pobreza e a ditadura. Isso me motivou muito. Juntei as duas coisas: a ideologia política e a fé. A Igreja foi o guarda-chuva que abrigou a todos contra a ditadura. Era a única instituição no Brasil que não poderia ter um general no comando. Muitos órgãos fecharam, pessoas foram embora, presas, exiladas ou morreram. Por ter tido a oportunidade de viver tudo isso, acho que fiz a escolha certa.

O senhor é petista?

Na juventude, com 19 anos, me filiei ao PT. Tenho grandes amigos no partido mas, agora, não sou petista e nem defendo o PT.

Em pouco tempo, a Diocese de Guarulhos esteve sob o comando dos bispos dom Luiz, dom Joaquim e agora dom Edmilson. Quais as diferenças entre os três dirigentes ou quais as distinções do método de trabalho de cada um?

Quero citar também o primeiro bispo de Guarulhos, dom João Bergese, que ficou no comando por 10 anos. Com ele, as comunidades de bairro floresceram, a periferia foi prioridade. Já dom Luiz ficou 20 anos, deu muita atenção para a formação do clero, construiu o seminário do Lavras, mas não teve muito diálogo com a sociedade. Pensou a Igreja e a sociedade a partir das suas próprias vontades. Um homem honesto em suas convicções, mas avesso à modernidade e ao diferente. Para dom Luiz, quem é do bem pensa como nós, quem é do mal pensa diferente. Aí vem dom Joaquim, uma pessoa inteligente, prestativa, acolhedora, e de muita unção: em dois anos, semeou o diálogo com a sociedade. Agora chega dom Edmilson, que me parece ser um homem muito estudioso, de grande vontade de dialogar com todos, e incentivador dos dons de cada um. Ele é muito direto e claro. Está facilitando o diálogo com a sociedade e entre o próprio clero.

Como se posiciona em relação a temas considerados “espinhosos” para a Igreja, como a pedofilia e o aborto?

O aborto é uma questão fechada para a Igreja. Somos contra. A pedofilia é realmente um câncer dentro da instituição. É um crime e como tal precisa ser combatido. Há no Vaticano uma comissão que trata desse assunto. Quando uma denúncia chega ao bispo, ele é obrigado a suspender o padre e levar o processo para Roma, sob pena de perder o episcopado. Não dá mais para transferir de paróquia como se fazia antigamente, em uma política paternalista. Assim como há padres pedófilos, têm professores, pais, tios, tias, primos e primas. A pedofilia é mais frequente dentro de casa, onde a Polícia não entra e só pode ser verificada a partir de denúncia e com a intervenção do Conselho Tutelar. É uma violação à criança que a sociedade doente, sexista e hedonista teima em praticar.

Acredita que a Igreja Católica continua a influenciar as decisões políticas em Guarulhos, no Brasil e no Mundo?

Sim, tem muita influência. No Brasil, a Igreja se posicionou contra a ditadura, apoia as comunidades de base, clama por ética na política, apresenta temas para debates como o da Campanha da Fraternidade deste ano, que propõe refletir o mundo de todos, os cuidados com o meio ambiente e o planeta. Isso toca nossa fé. Como cristãos, temos muito que fazer, não para encher nossas igrejas, mas para que o mundo seja melhor. Já imaginou o dia em que Guarulhos chegar a tratar 100% do esgoto? (risos) Não trata nem 5%. Todo dia, cinco mil piscinas oficiais olímpicas são despejadas em nossos rios, e depois a gente vai querer água? Como? Água tem, mas estamos acabando com ela. Por que a gente não despolui os rios Tietê e Pinheiros? Por quê? Por causa da corrupção. Temos excelentes técnicos e engenheiros, mas quando o dinheiro chega, quem está no poder põe tudo no bolso.

Está satisfeito com a atual situação política e econômica do País?

Há uma tensão. Devemos estudar para compreender essa crise e depois, fazer críticas contextualizadas. Por exemplo, nem todo o PT é corrupto, nem todo padre é pedófilo e nem todo jornalista é manipulador, vendido, que aceita e cobra jabá. A Lava-Jato põe tudo no mesmo saco; e não é. Temos políticos honestos, sim. Para os banqueiros, por exemplo, não há crise. Penso que estamos passando por um remanejamento do capitalismo mundial e aquela “marolinha” que ignoramos nos afundou no consumismo e agora estamos pagando o preço. Eu trabalho em uns bolsões de miséria e na maioria das casas tem um carro ou moto. Por que o governo deixou essas pessoas consumirem tanto? Não era melhor ter investido em qualidade de saúde, educação e tantas outras necessidades básicas, cujos frutos são mais duradouros? Não era o tal governo popular que deveria ter dado um freio?

Como avalia a administração do petista Sebastião Almeida em nossa cidade?

Eu vejo o Almeida muito lento em seu governo. Ainda não resolveu questões cruciais como a saúde e a mobilidade urbana, por exemplo. Por outro lado, ele tem secretários que são contra seu próprio governo e que pouco fazem em suas pastas. Vejo muita propaganda, dinheiro gasto à toa com outdoor, comercial na TV Globo, na qual todo mundo sabe que trinta segundos de inserção comercial custa uma fortuna. Se ele quer divulgação, por que não incentiva as comunicações de bairro e os grêmios estudantis? Prefere investir nos grandes porque têm acordo, e a novidade da política é não fazer acordos. Na Escola de Fé e Política da Diocese, nós apostamos nos mandatos coletivos para as próximas eleições, e estamos ensinando a população a observar melhor os comportamentos e ações dos candidatos, que não precisam ser católicos, do PT, PMDB, PSDB e todos os p’s da vida. Só queremos dizer a todos eles da doutrina social da Igreja, da ética e da transparência na gestão pública.

É a favor ou contra o impeachment da presidente Dilma?

Eu sou contra. Porque a Dilma nada mais fez do que garantir os acordos sociais como o Bolsa Família, Renda Mínima e assim por diante. Ela pegou dos bancos públicos e pagou os benefícios e, ao mesmo tempo, ela é quem põe dinheiro nos bancos públicos. Primeiro ponto. Segundo ponto, se ela sofrer impeachment quem vai governar? O PMDB que é tão corrupto quanto essa ala podre do PT? Ou seria o PSDB? Aqui em São Paulo, por exemplo, não se avança uma denúncia contra o Alckmin porque a Imprensa não deixa. Cadê o nosso metrô e a nossa água? Muitos bairros, mesmo com as chuvas, sofrem com a escassez. Penso que é melhor deixá-la terminar o mandato e aí sim, a população, consultada de novo, vai ou não, encontrar alternativa para governar o Brasil.

O que espera das eleições municipais de 2016?

Eu espero que a gente possa ajudar o povo a tomar consciência política e não votar em quem não tenha mandato coletivo, que não seja transparente e que não cumpra suas funções. Para mim, a Câmara de Vereadores de Guarulhos, por exemplo, falha na função de fiscalizar o Executivo. Mesmo a bancada do PT não é propositiva e não ajuda o prefeito a governar.

O que pensa sobre as denúncias de corrupção envolvendo o PT e que agora atingem diretamente o ex-presidente Lula?

Todo poder corrompe. O Mensalão não foi à toa e agora a Lava-Jato está desmascarando muita gente. O PT falava que não roubava e nem deixava roubar. Provou-se o contrário. Rouba e deixa roubar. Além disso, faz aliança com oligarquias da pior espécie do Brasil como os Sarneys, Collors, Renans, Malufs e Jardes Barbalho da vida. As famílias dessas pessoas estão há séculos mandando no País, mas o PT escolheu fazer esse jogo e esqueceu-se de suas bases. Nas bases petistas, há muitos com um carguinho comissionado aqui, outra coisinha ali, e assim por diante. Ficam como mosca dando volta na cera ou a abelha pousando no mel; giram e não saem do lugar. Não coloco minha mão no fogo por ninguém.

Mas o Lula só conseguiu se eleger, depois de três tentativas, quando decidiu “sorrir” para esse lado da classe política…

Mas tinha que sorrir para esse lado? Por que não esperou mais um pouco? Deveria ter feito um trabalho de base e apostado na conscientização, nos movimentos populares, sem guerras, que tudo seria diferente.

Acredita que a situação chegou ao ponto em que está por causa dessas alianças que, segundo suas palavras, foram um erro?

Sim. Associou-se com as oligarquias e juntos ganharam muito dinheiro, e agora os “parceiros” se voltam contra ele. Acho que toda essa movimentação vai fazer a classe política perceber uma nova consciência crítica no eleitor e despertar no povo a vontade de lutar pelo que é justo e de direito, pressionando muito. Político só tem medo do povo e da Imprensa. Se o povo não for organizado e a Imprensa não for livre, os políticos continuarão nadando de braçada na corrupção e nas mazelas do poder.

Por Val Oliveira
Fotos: Rafael Almeida