Por Cris Marques
Fotos: banco de imagens e divulgação

Os estereótipos de gênero são definidos entre os 5 e 7 anos de idade e é por meio de paradigmas como o do sexo frágil, das princesas que precisam esperar pelo resgate de um príncipe, dos brinquedos “de menina”, entre eles panelinhas, vassouras e ferros de passar, e da mulher que, mesmo trabalhando fora, deve ser responsável pelos filhos e pela organização da casa, que a cultura machista encontra espaço para se perpetuar.

E isso pode ser percebido na prática, como mostra a campanha “Redraw The Balance”, em tradução livre, redesenhar o equilíbrio, da instituição europeia Inspiring the Future. No vídeo, gravado em uma escola infantil, as professoras sugerem que seus alunos desenhem como seriam os funcionários de algumas profissões: bombeiro, piloto de avião e cirurgião. Ao final da tarefa, apenas cinco dos 66 desenhos representam alguém do sexo feminino. Então, entram na sala três profissionais mulheres que ocupam justamente os ofícios sugeridos. O espanto é geral e algumas crianças chegam até a sugerir que o uniforme delas seja uma fantasia.

Para empoderar meninas | Click GuarulhosPara Tatiana Fraga (foto), poeta e jornalista, a discussão sobre gêneros tem que ser iniciada ainda na primeira infância. “Na verdade, não é só trazer o assunto: é mostrar e ser exemplo. Nesse contexto, pais, tutores, responsáveis e até educadores têm que ficar atentos, porque os preconceitos e os rótulos estão tão normatizados que continuam sendo reproduzidos. O respeito e o cuidado com todas as pessoas, meninas, meninos, gays, trans, velhos, novos, desde o inicio, é o que vai trazer o empoderamento”.

Diretora do espaço de leitura, projeto de incentivo para crianças de até 12 anos, e do espaço de convivência, que atua com cursos de arte-educação para idosos, no parque da Água Branca, em São Paulo, a autora escolheu as diferenças entre os sexos como tema para seu primeiro livro infantil: “Nino e Nina”. “A obra tem duas capas. De um lado são poemas na ótica de um menino, do outro, de uma menina e, no meio, eles se encontram. As crianças se identificam bastante, porque traz exemplos bem concretos da vida cotidiana, mas, no meio do texto, incluo ideias opostas do que é considerado ‘normal’, até porque isso é natural para os pequenos. Quem coloca estranhamento, conceitos adversos e não aceitação são os adultos, a televisão, a indústria de brinquedos, a sociedade…”, ressalta Tatiana.

Para empoderar meninas | Click GuarulhosReconstruindo princesas

Com a igualdade de gênero em alta, aos poucos a indústria cultural vai mudando sua mensagem. Hoje, temos princesas da Disney que não buscam mais por príncipes, como Mulan, animação um pouco mais antiga que pode até acabar em romance, mas mostra a força e a astúcia da jovem guerrilhando; Valente, do filme homônimo, e Elsa, de “Frozen”. Porém, elas continuam batendo na tecla do estereótipo: ou a mulher é frágil e precisa ser resgatada ou ela é tão corajosa que não precisa de ninguém, é autossuficiente. “Essas caraterísticas são ruins, porque acabam criando um patamar inalcançável. São todas construções que podem ser reconstruídas. Essas histórias não precisam ser abolidas, mas é preciso questionar e comparar com a nossa realidade, nosso cotidiano de pessoas que às vezes querem ser resgatadas, outras querem lutar; ora são frágeis, ora fortes. Têm que existir outros referenciais, senão a gente acaba caindo numa mesma história, um modelo único. O importante é a diversidade”.

Versa e Vice

Mesmo que a sociedade mais tradicional demore a acostumar-se com essa “inversão” de valores, as próprias crianças começam a desconstruir o que, até então, é padrão. É o caso do questionamento de um garotinho de 4 anos, que viralizou na internet brasileira. Filho de Ligiane Ramos, a autora da postagem no Facebook, o garoto sempre se divertiu com diversos brinquedos, inclusive as bonecas da irmã mais nova. Foi então que ele percebeu algo que o incomodou e perguntou para sua mãe o porquê delas falarem apenas “mamãe”. “Quer dizer que os pais não fazem nada? Não dão comida? Não levam elas pra cama ou dão carinho?”. Ela ainda relata que, depois da indagação, ele tirou o aparelho de fala de dentro da boneca e disse que iria dar almoço para ela, porque pai também tem que cuidar de suas filhas. Com mais de 27 mil compartilhamentos, 240 mil curtidas e 11 mil comentários, é inegável dizer que, além de muito fofo, o ocorrido fez sucesso e somou ao importante debate.

Leitura para meninas superpoderosas

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» “Coisa de menina”
, da ilustradora Pri Ferrari, livro que será lançado muito em breve por meio de uma campanha de financiamento coletivo.
Resumo: Livro ilustrado com uma abordagem simples sobre diversas atividades que foram, são e podem ser escolhas para o futuro de uma menina. Recomendado para meninas e meninos; afinal, queremos que mulheres cresçam acreditando em si e também queremos que os homens respeitem-nas.

» “Café com leite”, escrito por Ilan Brenman, ilustrado por Bruna Assis Brasil e lançado pela Mundo Mirim.
Sinopse: Ana era uma menina que gostava de brincar com bonecas, de pular corda e amarelinha. Mas também era apaixonada por futebol. Só que os meninos não deixavam a garota jogar. Descubra, nesta sensível obra, que a vida às vezes pode nos surpreender quando menos esperamos.

» “Nino e Nina”, escrito por Tatiana Fraga, ilustrado por Carla Caruso e lançado pela Mundo Mirim.
Sinopse: As meninas dizem que os meninos só sabem jogar bola. Os meninos dizem que as meninas só gostam de boneca. Sempre tão diferentes. Sempre tão iguais. Neste livro “dois em um”, as crianças têm uma obra cheia de poesia, onde “ninos” e “ninas” descobrem que as diferenças mais os aproximam do que os distanciam.