O perfil da escritora Janethe Fontes

Por Cris Marques
Fotos: Agência E! Comunicação

“O sonho de ser escritora era algo muito aquém da realidade de uma pessoa de família humilde como eu, mas o desejo já estava lá”, diz a autora, hoje assumidamente autônoma, Janethe Fontes, 44. Com quatro livros publicados, muitas outras histórias na cabeça, a guarulhense de coração admite que não nasceu na geração da internet, mas aprendeu a se fazer presente na rede e transformou isso no diferencial de sua carreira literária.

Natural de Pernambuco, da cidadezinha de Triunfo, Janethe Fontes veio para São Paulo ainda bebê e só viria morar em Guarulhos tempos depois, atraída pelo grande número de indústrias que aqui se instalavam e geravam oportunidades de emprego. “Minha família era realmente pobre e eu tive que trabalhar muito cedo, com apenas 14 anos; então ser escritora era um sonho muito diferente pra minha realidade. Eu lembro que com uns 13 já gostava muito de ler; na época curtia versos e poesias”, conta ela, que credita àquela sementinha, plantada ainda na adolescência, a inquietação que a levou a escrever anos mais tarde. “Com 28 anos de idade, aquilo realmente falou mais alto dentro de mim e eu me encorajei, mesmo sabendo que era muito difícil publicar algo no Brasil”. Interessada por assuntos diferentes e ligada, de uma forma que nem a própria sabe explicar, à questão da violência contra a mulher, ela assinou seu primeiro drama romanceado: “Vítimas do Silêncio”, sobre abuso sexual.

Um ano depois, a obra já estava finalizada e era hora de enviar seu material. “Mandei para umas dez editoras e, se hoje esse processo é difícil, na época era muito pior. A maioria não respondia nada, nem dentro do prazo que elas mesmas estipulavam, outras até respondiam, mas em um prazo tão pequeno que levantava a dúvida se elas realmente haviam avaliado. Existiam até algumas pegadinhas, como colar algumas folhas para ver se o material havia sido, ao menos, folheado. […] Enfim, a coisa não deu certo e achei tudo tão frustrante que engavetei a obra e deixei lá”.

Sete anos depois, essa situação ainda a incomodava e ela resolveu enviar o material para um crítico literário, uma forma de saber se sua história era realmente boa para tentar novamente. “Ele me retornou dizendo que a trama era ótima e que eu ia acabar encontrando uma editora que se interessasse pelo meu trabalho”. E foi o que aconteceu meses depois, quando a Universo das Letras entrou em contato. “Eles lançaram a obra em 2008, até participei da Bienal daquele ano, a minha primeira como escritora”.

 

 

Do primeiro ao quarto livro em apenas 6 anos

Apenas 2 anos depois, a escritora já tinha finalizado seu segundo trabalho, “Sentimento Fatal”, sobre violência doméstica, que foi lançado em 2011 por meio de uma parceria com a editora Dracaena. Com dois dramas no mercado, Janethe Fontes decidiu então aposentar o gênero e apostar em outra paixão: as tramas policiais. “Eu sou da época da Agatha Christie e enredos com esse tema sempre me fascinaram. Tanto que, na verdade, todos os meus livros têm um pouco de suspense. Se você não pegar um livro que tenha pelo menos um pouquinho de mistério, talvez não fique tão amarrado nele. Depois, se você escreve sempre dentro de um mesmo tema, acaba tendo reconhecimento só por aquilo”. Então, em 2012 e 2014, respectivamente, foram lançados os romances policiais “Doce Perseguição” e “O Voo da Fênix”, ambos pela Giostri.

 

A autonomia de ser digital

Mesmo com as obras lançadas, a experiência que ganhou no mercado editorial e seu ingresso como membro efetiva da Academia Guarulhense de Letras, ela ainda procurava outras opções dentro desse nicho e foi assim que deu uma das maiores cartadas de sua carreira. “Depois que surgiram os e-books e plataformas como a Amazon, ficou muito mais fácil publicar e eu experimentei e gostei da experiência. […] No contrato com uma editora tradicional, com exceção de escritores muito famosos, que geralmente recebem antecipado, você ganha sua porcentagem, normalmente, de 6 em 6 meses, e nessas ferramentas virtuais o ganho é mensal e você pode acompanhar cada venda pelos relatórios. O único problema disso é que você não tem o livro físico para oferecer ao leitor e aqui no Brasil o e-book não pegou como na Europa ou nos Estados Unidos, mas para o escritor é melhor”.

Gostando da nova empreitada, com suas obras disponíveis on-line e “Doce perseguição” por quase 2 meses (58 dias) no primeiro lugar na categoria mistério e suspense da Amazon, a escritora teve que rever seus próprios conceitos sobre essa questão da autonomia. “Hoje eu me definiria como uma autora autônoma, mas confesso que já tive muito preconceito com isso, achava que o escritor que se lançava sem uma editora o fazia porque talvez seu trabalho não fosse tão bom; e entendi que não é assim. Não posso dizer que vivo da literatura, mas ela está começando a me dar uma devolutiva legal”.

Ainda no campo virtual, Janethe continua explorando novas oportunidades. “Eu acho que o grande problema do autor brasileiro é a divulgação. Então, mantenho Facebook, Twitter, Blog, participo de eventos literários na cidade e em outros lugares, dentro e fora do estado, e, no ano passado, criei um perfil no Wattpad, uma comunidade de leitores e escritores, que permite a publicação gratuita de obras e que está crescendo no País. Disponibilizei, por um tempo, alguns capítulos do novo livro por lá sob um pseudônimo e as opiniões que recebi me ajudaram a entender como a obra vai ser compreendida pelo leitor”, finaliza ela, que pretende lançar sua quinta história, exclusivamente no formato e-book, já no mês que vem.

 

Lista de obras da autora:

“Vítimas do Silêncio” (2008)
“Sentimento Fatal” (2011)
“Doce Perseguição” (2012)
“O voo da Fênix” (2014)

 

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