Polêmica sobre o Chamamento Público para discutir rumos da Cultura de Guarulhos

Como é hábito acontecer em tudo que envolve a Cultura, o Chamamento Público proposto pela Secretaria de Educação, Cultura, Esporte e Lazer (Secel) divide opiniões. Nas gestões petistas sempre houve setores que entendiam estar sendo alijados, menosprezados ou até prejudicados pelas políticas adotadas pelos secretários Edmilson Souza, em dois períodos, e Hélio Arantes, no intermediário.

Enquanto agora informações oficiais da Prefeitura apresentam o evento de ontem no Adamastor como algo totalmente positivo, o texto da jornalista, compositora, cantora e ativista cultural Elis Lucas mostra bem que nem tudo são flores como busca fazer crer o discurso oficial.

Defensor da pluralidade de enfoques em todos os assuntos, o Click Guarulhos reproduz o release enviado pela Secretaria de Comunicação e, a seguir, a opinião de Elis Lucas.

(Valdir Carleto)

 

 

Prefeitura amplia diálogo com fazedores culturais no Adamastor

Reunir os fazedores de cultura da cidade e ampliar o diálogo dos artistas com o poder público local numa atividade aberta. Esses foram os objetivos do Chamamento Público proposto pela Secretaria de Educação, Cultura, Esporte e Lazer que reuniu, na última segunda (30), cerca de 700 pessoas no teatro do Adamastor Centro.

Durante a atividade que inaugurou um espaço de diálogo sobre os rumos da cultura da cidade foram discutidos os rumos da cena cultural guarulhense em suas múltiplas linguagens, bem como a proposta de ocupação artística dos espaços públicos.

Durante o encontro, os participantes foram esclarecidos sobre as diretrizes da nova gestão e puderam debater as ações de planejamento para a eleição de membros de comissão organizadora da Conferência Municipal de Cultura.

“Essa iniciativa do chamamento visa à construção de relações colaborativas e integradas para o fortalecimento da cultura local. Entendemos que é muito importante o estreitamento do diálogo entre poder público e os fazedores de cultura”, esclarece o diretor de Cultura, Tiago Ortaet.

Os presentes também foram convidados a preencher o formulário virtual disponível nos meios oficiais de comunicação e nas redes sociais da Prefeitura de Guarulhos. Para aqueles que não dispõem de acesso à Internet, foi garantido o cadastro na data do evento, via formulário impresso. As informações coletadas têm caráter sigiloso, e irão compor banco de dados para um futuro mapeamento diagnóstico dos fazedores de cultura do município de Guarulhos.

Imagens: Rodrigo Marcelo / PMG-Secel

OPINIÃO

ARTISTA QUER RESPEITO. E ISSO INCLUI CACHÊ

No saguão, reencontros, apreensão, esperança e descrença talvez na mesma proporção. Ao adentrar o teatro, luzes coloridas forçavam um cenário festivo. Não era. Se a oportunidade de diálogo acenava como um sinal positivo, em caso das não ações, só evidenciariam mais do mesmo. Era um pisar em ovos. Artistas querem mais do que a liberação de espaços públicos ou “fruição”. Querem respeito, e isso também inclui cachê. Em plena segunda-feira (e chuvosa), o Teatro Adamastor estava lotado de artistas da cidade de Guarulhos. Era o Chamamento Público de Cultura, idealizado pela Secretaria de Educação, Cultura, Esporte e Lazer.

Na apresentação, dinâmica batida. O que usaram como ponte, rachava. Fato. Na bancada, na qual faltou o secretário da pasta e vice-prefeito Alexandre Zeitune – representado pela única mulher na mesa, Josefa Leôncio, o secretário-adjunto Adalmir Abreu e o diretor Tiago Ortaet da Cultura; o diretor de Turismo, Ricardo Balcone; Gerson Tajes, da Ordem dos Músicos do Brasil (Nacional); o trompetista da Orquestra do Theatro São Pedro, Fred Kaiser; Pierre Cesar, representando o Hip Hop; e o músico Fabú Valente, a tal ponte, que se o intuito era de aproximar os artistas da Secretaria, acabou não dando muito certo. A ponto de algumas pessoas se negarem a serem respondidas por ele.

Depois da fala da mesa, Ortaet apresentou os avanços realizados nos 30 dias de gestão cultural, que incluem a abertura ao diálogo com coletivos de diferentes linguagens, mediação de conflitos e prestação de contas da gestão anterior, parcerias com entidades privadas, cortes de gastos e uso da pasta integrada, a qual anunciou a economia de 3,6 milhões devido a junção de secretarias. “Já economizamos, cerca de um orçamento anual. Isso, economizamos como? Cortando projetos sociais? Não. Não apenas. Nós cortamos aluguéis. Só de aluguel do Conservatório [Municipal], foram quase 30 mil reais, que serão devolvidos para a sociedade em forma de projetos”, afirmou.

Antes de abrir para perguntas, Tiago ainda falou dos principais programas, como a Escola 360, que defende a ideia da escola aberta durante 360 dias do ano com equipamentos, atividades e ações voltadas à cultura; o Praça de Graça, para que artistas ocupem espaços públicos; e o fortalecimento da Escola Viva de Artes Cênicas. Descreveu também que entre os próximos passos, estão a abertura de editais de uso e ocupação de espaços públicos, a capacitação técnica de produtores culturais e a fruição artística, a qual foi questionada como seria viabilizada e remunerada, já que se trata da “passagem” dos artistas por todos os espaços públicos da cidade.

Muitas perguntas ficaram sem respostas. Embora algumas ainda sejam respondidas particularmente por e-mail, a equipe assumidamente não sabia como responder todas. Ao menos parecem interessados em obter respostas junto aos artistas. O tempo parecia curto para tantos questionamentos. “Apresentações sem cachê?”, “Memorial Indígena?”. Artesãos reivindicaram em peso, até ficar desrespeitoso com outros artistas que também queriam se manifestar.

Os ânimos se alteraram em alguns momentos. Mas o ápice foi quando queriam que a comissão organizadora para a Conferência Municipal de Cultura fosse escolhida assim: no susto. Os artistas não concordaram, já que na divulgação do Chamamento, a votação não foi divulgada e a classe não pôde se organizar. Democraticamente, foi remarcada para o dia 13 de fevereiro.

Acompanharemos os próximos passos. O secretário-adjunto Adalmir Abreu disse que os artistas serão recebidos na Secretaria de Cultura como chefe de Estado. Precisa não. O artista só quer ser respeitado por ser o que ele é: artista.