Precisamos falar sobre Bill Cosby e Tioastolfo

Reprodução / New York Magazine

A New York Magazine publicou, em 26 de julho, uma matéria em que 35 vítimas de Bill Cosby falaram sobre como e quando ele as estuprou. Vamos a uma contextualização rápida: Cosby, um famoso comediante estadunidense e (até então) ícone negro nos EUA, fora acusado de ter abusado sexualmente de mulheres, sendo que, na maioria dos casos, elas alegavam ter sido dopadas e, posteriormente, vítimas de estupro. À época, pouca gente deu importância aos relatos, mas com o passar do tempo, mais e mais mulheres começaram a falar que também foram estupradas por Cosby, chegando a 46 vítimas confessas. Confesso que ler os relatos foi devastador: ora dava ânsia de vômito, ora vontade de chorar de raiva, ora o sentimento de ódio contra Cosby vinha à tona. (P.S.: se tiver coragem de ler, o conteúdo está disponível aqui.)

O caso repercutiu tão mal — e com razão — que Barack Obama, presidente norte-americano, deu uma forte declaração na qual disse que dopar uma mulher para ter relações sexuais sem o consenso dela é estupro. Face os últimos desdobramentos, não é exagero dizer que Bill Cosby está, em resumo, arruinado. Ação e reação, simples assim.

Enquanto isso, na terra brasilis, a Unesp, o Ministério Público e a Polícia Federal abriram investigação para apurar quem são os responsáveis pelo blog “tioastolfo”, cujo conteúdo, misógino ao extremo, fazia apologia para lá de pesada ao estupro e continha postagens sobre, por exemplo, como estuprar mulheres em festas e dicas de como fazer atrocidades desse tipo no ambiente escolar. Ah, sim: suspeita-se que alunos e funcionários da universidade estejam entre os moderadores do blog.

Talvez você esteja se perguntando por que ambos os casos estão sendo abordados e, mesmo tendo acontecido em locais sem nenhuma relação entre sim, por que foram jogados no mesmo balaio. A resposta é simples, pequeno padawan: ambos têm tudo a ver e a raiz está mais próxima de você do que se pode supor. Em primeiro lugar, a mulher ainda é vista como mero objeto — ou pedaço de carne — por muito cara por aí, que por sua vez, adotou essa visão de mundo com pais, mães, tios, amigos, na escola, clube, campinhos de futebol, on and on and on. Ou seja: é a reprodução do estigma de que a mulher é inferior ao homem. E isso não é exclusividade do imaginário masculino. Basta dizer que é muito comum haver mulheres que ainda acham que a roupa é um convite.

Outro ponto devastador nessa história é o uso do poder da sociedade patriarcal. Não sacou o lance? Bora desenhar então: é usar o poder para achar que pode fazer o que quiser com elas. Cosby o fez diversas vezes, ao procurar por modelos e atrizes em início de carreira e, com isso, usar sua influência e fama para fazer o que bem entendesse. De quebra, valeria a história de que seria a palavra dele contra a das vítimas e, face ao seu poder, ele sairia ganhando. Coincidência ou não, há diversos casos de estupro em que a vítima se sente envergonhada e com medo de denunciar, ao achar que ninguém acreditará nela e que ainda será vítima de julgamento. E esse tipo de pensamento é endossado por caras que fazem apologia ao (adivinhe?) estupro.

Talvez seja repetitivo desenhar de novo, mas vamos lá: sexo só rola quando é consensual, ou seja, quando as duas partes topam. Se uma delas não quer, está dormindo ou entorpecida, tentar qualquer coisa é estupro, sem eufemismo ou qualquer coisa do gênero. Não tem essa história de que se dormiu, vai tomar dormindo, como diz um funk por aí. Esqueça esse lance de que só porque a novinha está no grau, ela quer… Bom, vocês sabem. Se ela estiver bêbada, nada justifica abusar dela. A roupa não é um convite. E usar do vínculo de confiança para se aproveitar da pessoa é tão abjeto e criminoso como abordar uma mulher em um beco escuro.

O primeiro grande passo é jogar no lixo o status quo do macho dominante que quer “usar” a mulher para o seu prazer — há quem seja doente ao ponto de sentir prazer ao fazer a mulher ser submissa e fazê-la sofrer. O seguinte, vê-la como uma pessoa igual, o que ela de fato é, para deixar de lado esse desvio sociocomportamental tão arraigado à sociedade patriarcal.

Tudo isso resulta em mais e mais casos de estupro. Tudo o que não precisamos é de mais Bill Cosbys, estupradores de Guarulhos, São Paulo, Nova Iorque, Tóquio, Moscou e Cidade do Cabo — enfim, ao redor do mundo. Tudo o que não precisamos é de reproduzir a cultura machista, que resulta em mais casos abomináveis e lamentáveis. E tudo o que temos a fazer é não ter mais medo de lutar contra a cultura do estupro. Para isso, você não precisa ser mulher ou homem. Basta ser um ser humano.

Este texto está disponível também em https://medium.com/@jr_mau