Podem dizer que é um lance politicamente correto. Podem falar que é vitimismo. Podem dizer o que vocês bem entenderem. Não estou nem aí.

Sou chegado no humor nonsense arte, moleque, inconsequente y me voy. Mas uma coisa é fazer humor, outra coisa é reforçar estigmas sociais. Me sinto incomodado quando fazem piadas sobre nordestino serem preguiçosos. Fico transtornado quando fazem piadas machistas, do tipo “no Dia Internacional da Mulher, dê produtos de limpeza”. Me dá agonia e vergonha alheia quando fazem piadas que denigram obesos (sim, gordofobia existe) e homossexuais.

Por que estou escrevendo isso tudo? Tenho ressalvas pessoais contra o programa “Pânico”, que usa do constrangimento como ferramenta para o humor. Perseguir pessoas e colocá-las em risco não é engraçado. Fazer comentários jocosos e colocar reputações na roda, por mais questionáveis que sejam, idem. Sexismo não é engraçado nem aqui, na Chatuba de Mesquita ou na PQP sem número. E blackface, menos ainda.

“’Black’ o quê, rapaz?!”, alguns podem me perguntar. Vamos lá: o lance surgiu nos EUA, pelo século XIX, para representar negros em peças teatrais, da maneira mais caricata e preconceituosa possível (parêntese: isso foi bem antes da luta pelos direitos civis, ou seja, quando o negro nos EUA era visto como alguém sociopoliticamente inferior. Já por aqui, a escravidão estava chegando ao fim.) Temos diversos problemas sobre a falta de representatividade de negros na mídia, inclusive televisiva — o case da Maju Coutinho não deixa mentir. Só quem é negro sabe quão doloroso é ouvir que seu cabelo é igual a Bom-Bril, imitarem um macaco quando te veem, ver que o estereótipo correto é eurocêntrico, blábláblá e tal. Idem para casos em que gordos são alvo de piadas de péssimo gosto, dizer que mulher só liga para o cartão de crédito do homem, ou achar que todo oriental tem de ser o melhor candidato de uma Fuvest da vida. Só quem é negro sabe quão chato como é muita gente achar que preto (via IBGE) só pode curtir samba, tem de ser cachaceiro, é malandro e só pode ser gari, porteiro ou bandido. Idem quando estranham quando um negro quer ser médico, curte lances culturais ou não é chegado em carnaval. Ou seja, viver sob o determinismo social desde a infância é chato demais.

Por isso, o personagem “O Africano”, do “Pânico na Band”, é tão problemático. Além de recorrer a uma fórmula abjeta, que é o blackface, ainda recorre à ridicularização por meio de costumes ~étnicos, como se o personagem fosse um primata ou um homem das cavernas. Imagine, sei lá, se um francês imitasse um índio, se pintando todo de vermelho e usando trejeitos caricatos, para representar o povo brasileiro. Causaria revolta, né? Por isso, o personagem em questão é tão problemático e lamentável. É por isso que eu, enquanto negro, me sinto incomodado e fico devastado quando vejo um personagem desse tipo. Já falta representatividade para o negro em âmbito social. E, quando rola, é do modo mais caricato e ridículo por isso.

Se não somos racistas, por que recorremos a clichês preconceituosos para que se faça humor? Se não temos preconceitos, por que rimos de piadas sobre pretos, gordos, homossexuais e loiras, só para citar alguns casos? Manos e minas, fazer humor à base de preconceito e constrangimento não é fazer humor, mas é ser escroto, simples assim.